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Lapidador e escultor de SP eterniza histórias e saudades em epitáfios

Oficina do escultor e lapidador Ronaldo dos Santos, na zona norte de São Paulo - Fernando Moraes/UOL
Oficina do escultor e lapidador Ronaldo dos Santos, na zona norte de São Paulo
Imagem: Fernando Moraes/UOL

Sibele Oliveira

Colaboração para o TAB, de São Paulo

02/11/2021 04h01

Nos fundos de uma loja que fica entre duas floriculturas, Ronaldo dos Santos, 51, quebra o silêncio da rua, batendo o cinzel com uma marreta e escrevendo saudades numa placa de mármore. O lapidador e escultor não perde tempo. Há muitas encomendas por entregar, às vésperas do dia de Finados.

Em outubro Ronaldo fez cerca de 150 lápides, em vez das 50 que costuma fazer nos outros meses. Na maioria, grava apenas o nome do falecido, data de nascimento e de morte. Quando muito, coloca uma foto. Mas 30% delas têm algo a mais. Derramam elogios, sentimentos de quem fica, o resumo do que a pessoa foi em vida e até um pouco de gracejo.

Ronaldo começou no ofício por brincadeira, aos 14 anos. Morava perto de uma loja que oferecia o serviço e costumava frequentá-la porque o dono era pai de um de seus amigos. Um dia pegou a marreta e o cinzel por curiosidade e logo tomou gosto pelo trabalho. As lápides feitas por ele chamaram a atenção da mãe, que comprou pedras para o filho ganhar dinheiro por conta própria. Os pais de Ronaldo tinham uma floricultura e indicavam os clientes.

O cemitério de Vila Nova Cachoeirinha, em frente à loja, e outras floriculturas passaram a contratá-lo para serviços. Detalhista, desenvolveu técnicas para aperfeiçoar as gravações, que no início eram totalmente manuais. Só pôde contar com a ajuda do computador anos mais tarde, para imprimir os dizeres antes de gravá-los em mármore, granito, aço, vidro e madeira. Por um tempo, atendeu a todos os cemitérios da capital e os de algumas cidades do interior paulista.

Era tanto trabalho que, a cada dois meses, recebia um carregamento com 5 mil pedras. Hoje, clientes de todo o país chegam pelo site ou por anúncios no Mercado Livre, principalmente depois da pandemia, além dos que são trazidos por sepultadores e jardineiros do Cachoeirinha e pelos donos de floriculturas, em troca de comissão. E há, claro, os que batem na porta da loja, a única que faz o serviço naquela região da zona norte de São Paulo. O produto não é lucrativo como no passado, pois a concorrência trabalha com jato de areia — que é cancerígeno — para baratear os preços.

Ronaldo ganha mais dinheiro com placas de inauguração e de homenagens e letras-caixa. Também é engenheiro civil e professor de caratê e jiu-jitsu na academia de um amigo. Só se sente sobrecarregado em outubro, quando aumenta a procura por lápides novas ou restauração das que estão deterioradas. Como a demanda é grande, não dá conta de renovar mármores que ficam porosos e encardidos porque nunca são lavados, granitos que mudam a tonalidade e letras desbotadas nos túmulos.

Ronaldo dos Santos esculpe lápides e epitáfios na zona norte de São Paulo - Fernando Moraes/UOL - Fernando Moraes/UOL
Imagem: Fernando Moraes/UOL
Ronaldo dos Santos produz lápides com epitáfios esculpidos a mão - Fernando Moraes/UOL - Fernando Moraes/UOL
Imagem: Fernando Moraes/UOL

Frases eternas

As encomendas são feitas à distância ou no escritório forrado de lápides, fotos de quem partiu e frases de despedida. Os clientes abrem suas comportas de sentimento durante o contato. "Todo muito vem muito triste. Contam uma história, por que a pessoa faleceu. Quase todas as lápides que faço, sei o que aconteceu com o falecido."

Muitos querem as lápides prontas a tempo do enterro, mas não é possível. "As pessoas ficam frustradas, mas demora no mínimo três dias. Tem um processo. Faço a colagem do vinil e espero de um dia para o outro porque senão o jateamento tira o adesivo. Aí faço a gravação e a pintura. Depois, espero a tinta secar para limpar. Só fica pronta no terceiro. Não dá para acelerar", afirma Ronaldo, que está trabalhando sozinho depois que o filho que o ajudava conseguiu um emprego.

É no momento dessa conversa que os que podem pagar incluem um epitáfio, já que quanto maior o número de letras, mais caro fica. A maioria prefere eternizar saudades, lembranças ou algo que o falecido não teve tempo de fazer. São raros os que gravam frases leves como a que está no túmulo do cantor Frank Sinatra: "O melhor ainda está por vir". O mais comum, segundo Ronaldo, é pedirem a insígnia do time do falecido.

Ronaldo dos Santos, lapidador e escultor de epitáfios e lápides, em seu escritório e oficina na frente do cemitério de Vila Nova Cachoeirinha, em São Paulo - Fernando Moraes/UOL - Fernando Moraes/UOL
Imagem: Fernando Moraes/UOL

Quase nunca as frases são de própria autoria, escolhidas pela pessoa enquanto está viva. Geralmente são escritas por familiares com o intuito de identificar melhor o morto e mostrar como ele era querido.

Nesses mais de 30 anos de carreira, Ronaldo coleciona epitáfios. Já fez um para o jornalista e poeta Olavo Bilac, que está no quartel do Comando Militar do Sudeste, no Ibirapuera. Também para os Heróis Sargentos da Polícia Militar do Estado de São Paulo. Mas os que mais o impressionam são os de gente comum.

Como um pai, cuja filha foi violentada por vários homens num baile funk e queimada em seguida. Além de querer se vingar, planejava colocar uma mensagem endereçada aos criminosos no epitáfio. Ronaldo tratou de demovê-lo da ideia. Seus argumentos: "É a última coisa que você está fazendo para a sua filha. Vai colocar algo relacionado à vingança na lápide? Não é legal. Uma frase com carinho, com o que você sente por ela, é melhor que uma vingança contra eles ou contra o sistema que não está conseguindo ou não quer fazer nada. Não faça isso". O pai desistiu.

Ele lembra ainda de um senhor que morava sozinho depois de perder a esposa e o filho, que comprou um banco de pedra numa marmoraria, como os de praça, e queria enchê-lo de poemas e ideias que tinha para o futuro, como códigos de barra que seriam tatuados na nuca das pessoas. "Vão colocar um aparelho para ler", dizia o homem. O banco, feito três décadas atrás, foi feito para ser colocado em seu túmulo.

Trabalho de Ronaldo dos Santos, lapidador e escultor de epitáfios e lápides  - Fernando Moraes/UOL - Fernando Moraes/UOL
Trabalho de Ronaldo dos Santos
Imagem: Fernando Moraes/UOL
Epitáfio feito a mão pelo artesão Ronaldo dos Santos - Fernando Moraes/UOL - Fernando Moraes/UOL
Imagem: Fernando Moraes/UOL

Convivendo com a morte

Ronaldo passou a ver a morte como parte da vida. Só fica chocado com a morte de jovens. Por isso, por vezes é taxado de insensível. "Ele não é um ser humano frio, mas lida com pessoas extremamente emotivas e quer realizar o melhor para acalentar quem está ali", diz a arquiteta Cláudia Ferrer, 52, noiva do lapidador.

Frieza, para ele, é ver filhos que se unem para receber a herança e somem na hora de homenagear os pais. "O que acontece aqui, 90% das vezes, é um familiar chegar sozinho reclamando, muito chateado por conta disso. Dizendo: 'na hora da partilha estava todo mundo junto. Agora que entrei em contato para fazer a lápide, ninguém pode porque está sem dinheiro, sem isso ou aquilo'." Ronaldo tenta acalmá-los. "Faça o que está sentindo no seu coração e na sua mente. Isso vai te trazer uma paz de espírito tão grande que o dinheiro não vai importar".

Ronaldo observa o descaso com os mortos pela queda na venda de lápides e de flores que antigamente eram colocadas nos túmulos nos fins de semana. "O ser humano está mais frio em relação à morte. As pessoas ficam comovidas, sentimentais no dia do falecimento e do enterro. Depois não vêm mais." O corredor de sua oficina já guardou mais de 300 lápides. Depois de algum tempo, acabou se desfazendo delas. Por isso, só faz o serviço se estiver totalmente pago.

Embora seja católico, Ronaldo acredita em reencarnação. Não temeu a morte nem quando teve um nódulo no pescoço e os médicos acharam que era câncer. Apenas lamentou por não dar continuidade aos seus planos, caso o diagnóstico se confirmasse. "Não termina aqui. Acredito que o que move o corpo da gente, a alma, o espírito, não tem começo e fim. É eterno." Quer ter um epitáfio pronto quando sua hora chegar. Mas ainda não pensou em algo diferente, como planeja.