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'Tô gostosa': sem praia, mineiras usam fita isolante por marquinha perfeita

Clientes na laje do Bronze da Ludy, em Belo Horizonte Imagem: Mage Monteiro/UOL

Nina Rocha

Colaboração para o TAB, de Belo Horizonte

11/11/2021 04h00

o pátio de uma casa de dois pavimentos cercada de telhas de vidro para despistar os olhares curiosos no bairro Floramar, Zona Norte de Belo Horizonte, Ludylene Maria Barros Gonçalves dos Santos monta pacientemente biquínis de fita isolante no corpo das mulheres que chegam ao seu espaço em busca do bronze perfeito. A variação de cores e estampas fazem parte da diversão: o top e a calcinha podem ser básicos, misturar tons ou até simular uma fantasia de salva-vidas.

Quando a cliente não sabe definir o que quer, ela sugere recortes que valorizem os atributos físicos de cada uma. "Tem modelos que fazem a bunda parecer maior ou mais em pé. Depende do biotipo de cada uma. Faço nelas o que faria em mim". Para as mais recatadas, Ludy confecciona até versões sem alça e com a calcinha maior e discreta. "Atendo evangélicas e até pastoras. Quando elas vêm, colocamos hinos de louvor pra tocar", conta sem conter o riso.

O biquíni de fita feito por Ludy Imagem: Mage Monteiro/UOL

Na ausência do público religioso, funk, axé e pisadinha são as trilhas sonoras que mais acompanham as manhãs e tardes ao sol. Com longas unhas de gel e toques sutis, Ludy cola pedaço por pedaço dos filetes de plástico de diferentes espessuras e cores direto na pele de suas clientes. Os modelos variam de acordo com o gosto e o corpo da freguesia: destaca orgulhosamente que para bronzear, só precisa ter vontade. "Atendo mulheres plus size, de alto poder aquisitivo, carecas, idosas, negras, brancas e até desprovidas de beleza", brinca. "Não trabalhamos com padrão de beleza. Trabalhamos com autoestima, que é muito mais bonito".

As obras de Ludy estampam diversos corpos femininos que buscam sol e sensualidade. O empreendimento já foi celebrado em galerias de arte como o Palácio das Artes, uma das principais casas de cultura de Belo Horizonte, a partir da exposição premiada "É verão o ano inteiro", da fotógrafa Dalila Coelho, reunida em livro editado em setembro pela Tona.

Sem mar, com bronze

A falta de mar em Minas Gerais e o difícil acesso a clubes e piscinas na cidade foi a oportunidade que Ludylene precisava para começar seu próprio negócio. A mineira começou a articular o empreendimento em maio de 2019, depois de deixar o trabalho de secretária em uma clínica de dermatologia e cirurgia plástica. Sentiu que era hora de correr atrás de uma nova carreira.

Tentou ganhar renda como sacoleira: viajava para comprar roupas em São Paulo e levava os produtos de porta em porta para potenciais clientes, mas a rotina de idas e vindas não a cativou. "O lance do dinheiro e do caderninho não era pra mim", recorda, sem saudades. Passava muito tempo em casa e se sentia desanimada com os desafios do comércio informal.

Sentindo falta de viajar para praia e pegar uma cor, viu uma mulher na rua e perguntou qual clube ela frequentava. Se surpreendeu quando a moça respondeu que não ia a nenhum clube: o contorno do biquíni no seu corpo era resultado de uma visita ao bronze.

A explicação despertou a curiosidade de Ludy, que logo procurou um bronze onde pudesse recuperar o seu bronzeado. Nas quatro primeiras vezes, foi como cliente. Gostou tanto que as visitas seguintes já ocorreram com um intuito investigativo: ver os pontos fracos e fortes e descobrir o que precisaria para abrir o seu próprio negócio no ramo. "Queria um negócio com o meu nome. Experimentei outras coisas mas não me encantei".

Mão na massa

No fim de 2018, Ludy começou a fazer cursos e a procurar lugares adequados para montar seu bronze. A lista de exigências para o local ideal era vasta: sol durante todo o dia, boa localização, privacidade e fácil acesso a partir do transporte público. Escolheu o Floramar pela proximidade do metrô e da Avenida Cristiano Machado, uma das principais vias de Belo Horizonte. O imóvel precisou de uma reforma para ficar do jeito que ela queria. Sem dinheiro para pagar um servente de pedreiro para auxiliar na obra, ela mesma colocou a mão na massa e ajudou na construção.

Com um investimento inicial de cinco mil reais, Ludy foi aos poucos aprimorando sua técnica e seu espaço. Hoje sua agenda está sempre cheia e novas clientes chegam a todo instante por indicações.

Os agendamentos, feitos por mensagem, deixam o celular tocando o dia inteiro. Além das redes sociais, o corpo também é seu cartão de visitas e o bronze chama atenção por onde passa. "Sempre alguém pergunta. Para ir na rua ou no supermercado eu nem ponho o sutiã, é o tempo todo mostrando a marquinha". Ela gosta da atenção que recebe e fica radiante quando as clientes contam que atiçaram os olhares dos maridos, namorados, desconhecidos e até mesmo o próprio olhar. "É gostoso saber que tem outras pessoas te olhando", diz.

Ao longo de quase três anos, Ludy reforça que todas são bem-vindas em seu espaço."Se alguém chegar julgando a outra, mando embora com o biquini no corpo".

Detalhe de biquíni feito por Ludy Imagem: Mage Monteiro/UOL

Ela estima que mais de 300 mulheres já passaram pelo bronze. Uma delas é Daniela Araújo, que antes mesmo de frequentar o espaço, já o recomendava para as amigas. A belo-horizontina de 42 anos trabalha em uma empresa de manutenção de máquinas de panificação e usa o metrô para chegar ao serviço. Em uma das viagens, um senhor a perguntou se poderia deixar panfletos de um espaço de bronze com ela e outras colegas — era o pai de Ludy divulgando o empreendimento da filha.

Daniela conferiu as redes sociais, gostou do que viu e passou a compartilhar com amigas. Fez sua segunda sessão no Bronze da Ludy este mês. "Faço bronze há 3 anos e larguei o outro lugar que frequentava. Gosto do clima daqui e sempre vou embora me sentindo mais sexy".

Clientela fiel

Em outubro, o espaço ficou mais de 20 dias sem receber a clientela, já que as chuvas de primavera foram intensas e as condições climáticas não eram favoráveis: para que a marquinha fique no capricho, é preciso uma temperatura acima de 24 graus e um índice de radiação ultravioleta acima de 4.

Quando Ludy abriu na quinta-feira (03), as clientes já estavam ansiosas para curtir o momento. A diarista Adriana Moreira de Souza, 48, desmarcou um cliente para aproveitar o sol da manhã e renovar o contorno da sua marquinha. Começou a frequentar o espaço com um pouco de timidez, e hoje, assídua no bronze, proseia com todas presentes. Fez amizades e já combina com as comadres de irem no mesmo dia para colocar a conversa em dia. Por vezes, o papo até harmoniza com a cerveja que chega por delivery.

Clientes reunidas no Bronze da Ludy Imagem: Mage Monteiro/UOL

A lotação máxima do bronze é de sete mulheres por vez. Segundo Ludy, é o que garante um atendimento com cuidadoso e caprichado — para isso, a empreendedora conta com o auxílio de Mayara Peixoto,25. O turno começa às 9h da manhã, e dependendo da demanda, pode continuar no período da tarde.

Enquanto Ludy faz o design dos biquínis, quem ajuda nas outras etapas é a assistente. Ela é a guardiã do bem-estar das clientes: pergunta a todas se estão bem alimentadas e hidratadas enquanto passeia entre as macas de metal monitorando os minutos cronometrados de exposição de cada mulher, borrifando água quando necessário.

Antes de trabalhar no bronze, entregava marmitas na região. A primeira vez que experimentou o banho de sol na laje foi a convite da Ludy — e nunca mais parou. Saiu do emprego restaurante, migrou de ramo e está lá há dois anos.

Mayara e Ludy na laje do bronze Imagem: Mage Monteiro/UOL

Nos status do WhatsApp, Ludy e Mayara compartilham os resultados, antes e depois, e frases que brincam que o bronze é a única marca que toda mulher merece. "As mulheres fazem a unha, a sobrancelha e cabelo para se sentirem mais bonitas. O bronze é viciante. Não tem nada melhor do que observar alguém que chegou desanimada se olhando no espelho ao ir embora e soltar um, 'nossa, como eu tô gostosa!'".

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