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No 1º evento grande, Jaguariúna lota -- mas só fala na denúncia de estupro

Estacionamento do Jaguariúna Rodeo Festival, realizado nos fins de semana de 26 de novembro a 4 de dezembro - Thiago Varella/UOL
Estacionamento do Jaguariúna Rodeo Festival, realizado nos fins de semana de 26 de novembro a 4 de dezembro Imagem: Thiago Varella/UOL

Thiago Varella

Colaboração para o TAB, de Jaguariúna (SP)

05/12/2021 04h01

Dos cinco artistas mais ouvidos em 2021 pelo Spotify, quatro se apresentaram no Jaguariúna Rodeo Festival, o nome americanizado da segunda maior festa de peão do Brasil — só perde para Barretos (SP). A única exceção da lista é Marília Mendonça, que morreu no início de novembro, em um acidente aéreo.

A festa na cidade industrial da região de Campinas, a apenas 130 km de São Paulo, é o maior evento do ano. Movimenta muito dinheiro, gera empregos, lota hotéis.

O rodeio, que se encerrou neste sábado (4), é o primeiro grande evento de destaque do interior paulista em 2021. Foram cerca de 30 mil pessoas em cada uma das quatro noites de shows, em um palco que recebeu Gusttavo Lima, Zé Vaqueiro, Barões da Pisadinha, Jorge & Mateus, Dj Dennis, entre outros grandes artistas do pop/sertanejo/piseiro/e tudo mais que faz sucesso nacional.

A reportagem do TAB esteve na cidade em um dia sem evento marcado, para ouvir dos moradores e empresários um pouco sobre a festa. Jaguariúna ainda não estava inundada com jovens de chapéu e fivela. Aliás, nem parecia que no dia seguinte haveria um grande rodeio por ali.

A arena fica bem perto da estrada, "longe" do centro. As aspas se justificam porque, em cidade pequena, nada realmente é longe. Quem entra é recebido por um letreiro com o nome da cidade. Logo na avenida principal, o visitante já vê a maria-fumaça, a estação antiga de trem e um tímido ponto de venda de ingressos do evento. O centro é daqueles típicos de cidade do interior, com matriz, praça, sorveteria e todo o clichê.

Anúncio da festa de rodeio de Jaguariúna (SP) - Thiago Varella/UOL - Thiago Varella/UOL
Imagem: Thiago Varella/UOL

Estupro e assédio

Como ocorre nas cidades do interior paulista, a música sertaneja é quase onipresente e o visual de alguns é o "country", com bota, fivela e camisa xadrez. Infelizmente, na quinta-feira (2), o assunto principal não eram os shows, mas a denúncia de estupro feita por uma estudante que foi na festa no dia 27.

Franciane Andrade, 23, alega que bebeu com amigos, perdeu a consciência e quando acordou estava em uma rotatória perto do local da festa. Segundo a estudante, ela sentiu dores na terça-feira (30) e, ao procurar atendimento médico, exames apontaram um possível estupro.

O assunto estava na boca do povo, que se espantava com a presença maciça da imprensa em frente à delegacia local, no centro da cidade. Casos assim não são comuns em Jaguariúna, cidade com algo em torno de 56 mil habitantes. Fora o período de festas, a cidade é pacata e recebe poucos visitantes para comer em restaurantes tradicionais do município ou para andar de maria-fumaça.
Moradores abordados evitavam comentar o assunto publicamente, já que o rodeio é importante para a economia local. Além disso, temem que a cidade fique com algum tipo de pecha.

O grande problema de violência nessa época do ano é o aumento dos furtos dentro da Festa de Peão. Sem estatísticas oficiais, os policiais estimam que o número de ocorrências aumenta em dez vezes durante a festa. A maioria dos furtos é de celulares e carteiras.

Algumas frequentadoras de rodeio garantem que o ambiente é machista e os assédios são corriqueiros. Muitas vezes alcoolizados, os homens não veem problema em abordar as mulheres agarrando a cintura ou já surpreendendo com um beijo na boca, para dizer o mínimo.

"Não vou negar, o rodeio é machista mesmo. É bem comum que os meninos bêbados te puxem ou te agarrem. Eu já meto um tapa e arrumo confusão quando algo assim acontece comigo. E nunca fico sozinha. Estou sempre acompanhada com amigos ou amigas", contou a médica veterinária Mariana Amador, 23.

Rodeio de Jaguariúna acontecerá entre 26 de novembro a 4 de dezembro. - Divulgação - Divulgação
Imagem: Divulgação

Preocupação com a covid-19

O rodeio deste ano exige que os visitantes apresentem comprovante de vacinação para participar da festa. Alguns frequentadores garantem que foram obrigados a mostrar o documento. O problema é que, lá dentro, ninguém usou máscara.

Faça o teste: vá até o Instagram e procure fotos do rodeio. Não é possível encontrar ninguém de máscara — beber e beijar só são possíveis com a boca livre. A Prefeitura de Jaguariúna foi procurada para dizer sobre a preocupação em relação ao tema, mas não se pronunciou até o fechamento desta reportagem.

Apesar da crise econômica, a arena do rodeio esteve cheia nos quatro dias, embora o ingresso custasse R$ 80 (a inteira). Já para entrar no camarote mais caro, patrocinado pela cervejaria que tem uma de suas fábricas bem em frente ao local do rodeio, o visitante pagou R$ 799. Cerca de uma semana antes do primeiro dia de evento (26 de novembro), a reportagem esteve em um dos pontos de venda do camarote, em um shopping de elite de Campinas, e havia até fila.

Esse público acaba aquecendo a economia da cidade nos dias do evento. Segundo João Rodrigues, presidente da ACI (Associação Comercial e Industrial de Jaguariúna), o rodeio injeta R$ 100 milhões na economia do município e gera 2.000 empregos diretos. Além disso, neste ano, os hotéis ficaram com 100% de ocupação e não havia mais chácaras e sítios disponíveis para alugar.

"Se a gente fala em Jaguariúna fora daqui, a pessoa já se lembra do rodeio. O grande impacto da festa para nós é a exposição da 'marca' Jaguariúna. É como se fosse uma feira que promove a cidade. Muita gente depois volta para morar aqui", contou.

De fato, uma série de condomínios de luxo estão sendo construídos na cidade. O município quer atrair moradores com alto poder aquisitivo, como executivos de São Paulo que, com a pandemia, perceberam que não precisam ir todos os dias ao trabalho presencialmente. Se o novo morador for fã de sertanejo ou do mundo country, tanto melhor. Se não for, melhor achar uma casa longe da arena ou ficar dois finais de semana por ano longe da cidade.