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Um Ku Klux Klan na escola: por que um professor se vestiu de supremacista?

Marcos Lima/UOL
Imagem: Marcos Lima/UOL

Tiago Dias

Do TAB, em São Paulo

30/12/2021 04h01

O vídeo tem apenas seis segundos, mas a cena é impactante. Um homem vestido de membro da Ku Klux Klan passeia entre os alunos na quadra de uma escola. Uma voz fora do quadro resume a cena, com um misto de surpresa e nervosismo. "Mano, o cara tá de supremacista branco!"

Tão logo o vídeo virou notícia, soube-se que, por baixo daquela roupa, estava um professor de história da escola estadual Amaral Wagner, em Santo André, no ABC paulista.

A cena, no entanto, é apenas um fragmento do que aconteceu na manhã do dia 8 de dezembro, quando um evento tradicional organizado pelos alunos do 3º ano do ensino médio encerrava mais um ano letivo. Além das atividades esportivas, um grupo preparava um desfile de fantasias. Havia quem emulasse maquiagens à la Halloween e muitas garotas de princesas da Disney.

Foi quando o professor saiu do refeitório que dá acesso à quadra externa vestido de túnica longa branca e capuz pontudos. Denis*, 17, assistiu à cena. "Alguns alunos estavam zoando, achando que era o Zé Gotinha. Eu mesmo não tinha percebido de primeira o que era. Quando vi a reação dos meus amigos foi que entendi."

Cerca de 20 alunos o cercaram. Estavam revoltados e pediam que o capuz fosse retirado. Quando viram o rosto de Luiz Antônio Bortolo, professor que há um ano tinha colocado suas aulas de história entre as favoritas dos alunos, a reação foi de indignação. Bortolo foi hostilizado e vaiado. Ao deixar a quadra, foi questionado pelo professor de sociologia, Alexandre de Paula. "Ele não sabia dizer o que estava acontecendo. Disse que era apenas uma fantasia", contou de Paula ao TAB.

A confusão não durou nem dois minutos, mas Denis ainda carrega surpresa na fala, semanas após o ocorrido. "Quando vi que era ele, não entendi. Uma amiga até passou meio mal. Como é que ele entra na escola e acha que aquilo é uma fantasia?", questiona-se.

Pouco menos de um mês antes, aquele mesmo professor havia proposto um trabalho sobre personalidades negras. Os cartazes ainda estavam expostos a poucos metros da cena. Denis focou na trajetória do ator Norton Nascimento, que faleceu em 2007.

O evento na escola prosseguiu sob um clima estranho. No fim, alguns professores foram chamados para um agradecimento geral. Todos foram aplaudidos. Quando Bortolo foi chamado, houve apenas silêncio.

A manhã seguinte era dia de prova do Saeb (Sistema de Avaliação da Educação Básica), e um grupo (em sua maioria, negros) recusou-se a fazer a avaliação enquanto Bortolo não deixasse a sala.

Até aquele momento, o diretor da escola, Wagner Luiz, havia se posicionado sobre o assunto apenas com representantes da sala. Afirmou que a escola não sabia que o professor apareceria com a vestimenta, e que se tratava de uma fantasia de uma peça de teatro que Bortolo queria encenar. Garantiu que o caso seria levado à Diretoria de Ensino de Santo André.

Enquanto isso, a cena gravada corria em grupos de alunos no WhatsApp e no Instagram, e o ano letivo se encaminhava para o fim sem que a direção conversasse oficialmente com docentes, pais e alunos.

'Quanto mais mexe, mais fede'

Luiz Antônio Bortolo tem 72 anos e só depois dos 60 é que começou a lecionar. O professor Renato Dotta se lembra do aluno mais velho no curso de História na extinta UniAbc, em meados de 2009: ele trabalhava como encanador, mas tinha uma cultura de "almanaque". "Dava para ver que ele não tinha caído de paraquedas, como acontecia com muitos alunos", afirma

Pelos alunos, Bortolo foi descrito como alguém com passo apressado, sempre a carregar pastas e papéis na mão. Alunos ouvidos pelo TAB são unânimes ao descrevê-lo como alguém aplicado, atencioso e com predileção por falar sobre assuntos como segregação racial -- reflexo da pós-graduação em história da África pela PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo). Segundo pessoas mais próximas, este é seu tema favorito.

Entre os professores, é visto como uma pessoa comunicativa que às vezes tropeça nas piadas. Há relatos de comentários que soaram ofensivos para homossexuais. "Às vezes ele tinha uns valores mais antigos, mas em relação ao racismo, minha percepção era o contrário", observa Alexandre de Paula.

O professor mantinha a ideia de encenar uma peça "antirracista" que havia montado numa escola vizinha, em 2017. O enredo mostrava escravizados sendo maltratados por membros da KKK. As roupas da peça, como a túnica usada no dia 8, foram confeccionadas pela mãe de uma aluna.

No Amaral Wagner, Bortolo chegou a passar por algumas salas divulgando o projeto que, em seus planos, deveria ser apresentado na semana em que se comemora o Dia da Consciência Negra. A um aluno, solicitou o desenho do cartaz de divulgação: duas mãos negras quebrando uma corrente. O projeto foi abortado pela direção da escola por conta do plano de prevenção contra a covid-19.

Pesquisador e doutor em filosofia, Thiago Dias da Silva é casado com uma sobrinha do professor, mas só soube depois que se tratava de Bortolo naquela filmagem. Ligou imediatamente para entender a situação. O professor estava abalado. Afirmava que tinha achado uma "boa ideia" utilizar o evento para mostrar aos alunos a "face do opressor". "Ele queria que os alunos percebessem o que a roupa significava. Aí cometeu essa bobagem", conta ao TAB.

Foi a mesma justificativa dada a outros docentes, durante o conselho de classe do dia 18 — primeira vez que a escola abriu espaço para discutir o ocorrido. "Ele dizia estar extremamente envergonhado. Começou a chorar", lembra Alexandre de Paula. Há relatos de que a diretoria, em algum momento da reunião, justificou a discrição. "Quanto mais mexe, mais fede." No final de sua fala, Bortolo foi aplaudido pelos colegas, à exceção da professora de sociologia Hainra Asabi, que repudiou o gesto.

Asabi é conselheira da Apeoesp (Sindicato dos Professores do Ensino Oficial Estado de São Paulo) e cobrou posicionamento nas reuniões do conselho naquela semana. Insistiu numa retratação pública e na convocação de um debate entre os docentes e alunos. Propôs incluir, no plano pedagógico da escola, um calendário de práticas antirracistas. A ideia foi aprovada com 17 votos. "Em nenhum momento pedi que fosse encaminhada a cassação do professor, mas a discussão era sobre como ia ficar a imagem da escola." Frustrada ao ver o episódio do KKK não ser debatido, decidiu expor o caso em coletivos e organizações do movimento negro.

Ku Klu Klan - Marcos Lima/UOL - Marcos Lima/UOL
Imagem: Marcos Lima/UOL

Fogo e polarização

O episódio ganhou as redes sociais na noite de segunda-feira (20) e, no dia seguinte, estava em todos os jornais, TVs e sites.

Apenas na terça (21), a escola divulgou uma nota em que reconhecia o gesto como "infeliz" e "impensado", e anunciava "ações antirracistas" para o próximo ano. A secretaria da Educação do Estado de São Paulo (Seduc-SP) afirma só ter sido informada nesse mesmo dia.

Foi também o último dia de Bortolo na escola, antes de ser afastado temporariamente pela Seduc, enquanto o caso é analisado. Os colegas, preocupados com sua integridade física, o orientaram a voltar para casa. Contam que ele chorou e demonstrou desespero. No dia seguinte, escreveu uma carta aberta para expor seu ponto de vista, em que dizia ser "profundamente antirracista". Reconhecia que a roupa dos "racistas facínoras", a quem repudia, "é digna de asco" e chamava o vídeo nas redes sociais de "um profundo mal-entendido".

TAB tentou contato com a direção da escola e com Bortolo, sem sucesso. Por intermédio de amigos, a esposa do professor alega que ele está medicado e não consegue dar entrevistas. O casal deixou a casa onde morava após receber ameaças de morte numa ligação anônima. Bortolo tem pedido a conhecidos que publiquem depoimentos que possam provar sua reputação. Alexandre de Paula ouviu o mesmo chamamento. Ele o defende, mas observa. "É um ato racista ele ter aparecido na festa sem avisar o contexto", diz.

Asabi mantém contato com o professor desde o dia seguinte à filmagem. No início, conta ter ouvido, em defesa, que ele próprio tinha uma neta preta. Ela afirma que o linchamento é inaceitável. "A sociedade racional não pode fazer isso", diz. "Não estou dizendo que o professor é racista, mas ele teve um comportamento racista. Não posso dizer que ele é da Ku Klux Klan, mas o comportamento foi ofensivo."

A professora de 40 anos afirma que a direção a tem responsabilizado por difamar a escola. "Precisamos discutir, porque não dá para abafar o caso, não dá pra ter um comportamento corporativista. É um colega, mas um colega que errou", defende.

O assunto continuou em ebulição no dia 22. Um protesto na porta da escola reuniu coletivos, políticos e alunos com palavras de ordem e cartazes antirracistas. Um docente de outra escola levou uma vestimenta parecida e alguns alunos atearam fogo na roupa branca.

O clima de polarização logo se instaurou. De um lado, há os que afirmam que o ato foi racista, consciente ou não, e que, portanto, não pode ficar impune. Outros afirmam que o professor estaria sendo perseguido injustamente por um "erro". Este é o caso de Paula*, 16, integrante do grêmio estudantil. Ela diz esperar a volta do professor no ano que vem. "Nunca o vi desrespeitando ninguém. Se não voltar, a escola vai perder um excelente profissional", afirma.

Denis, que topou falar com a reportagem desde que sua identidade não fosse revelada, critica a forma com que o episódio vem sendo retratado. "Vi uns famosos dizendo que os alunos deixaram aquilo acontecer, como se a gente tivesse o deixado andar entre a gente livremente assim", afirma.

Focado na segunda fase da Fuvest (prestou letras), ele lamenta que tenha fechado seu último ano na escola Amaral Wagner com essa história. "O significado daquela roupa é muito forte", diz. "Por ele falar sobre o tema, devia ter pensando nisso. Foi bem desgastante para os alunos vê-lo no meio com aquela roupa sem-noção."

* nomes trocados para preservar a identidade dos entrevistados