'Assustador não ver o chão': o fim de ano de uma família em Ilhéus (BA)

Fartura e muitos presentes. É assim que se imagina uma ceia de Natal em família. Para Sheila Cruz, 33, que faz aniversário dia 25 de dezembro e mora com os três filhos, a mãe e o marido na Vila Juerana, distrito de Ilhéus (BA), o fim de 2021 deixará na lembrança uma passagem que ela gostaria de não ter vivido: debaixo de chuva, conseguir sobreviver e salvar sua família de uma enchente.
O drama de Sheila começou no dia de seu aniversário, quando a chuva começou. Naquele dia ela celebrava seu novo ano no bar de um amigo, que cedeu-lhe o espaço para uma festa — a casa de quatro cômodos era pequena para acomodar cerca de 20 convidados que chamou. Sheila ganhou presentes dos amigos e um bolo-surpresa do marido. A festa prosseguiu até o meio da noite com churrasco e outras comidas típicas do Natal.
A tensão, contudo, era sensível. Não havia tanta alegria como de costume, pois a chuva já caía forte e prometia repetir as do começo de dezembro, que haviam assustado os moradores da região de Porto Seguro (BA).
"Como tenho filhos menores, eu, meu marido e minha mãe ficamos muito preocupados", conta Sheila à reportagem do TAB. Perto das 23h, a mãe, Célia Santos, resolveu voltar para casa para vigiar janelas e portas, com medo de a chuva encher o rio Almada.
A água começou a subir e a festa teve de acabar mais cedo. Pouco tempo depois, Sheila e o marido, Erivaldo dos Santos Tavares, voltaram para casa com as crianças. Calçaram alguns móveis em bases de concreto — a rua onde mora já tinha virado um riacho e, nos fundos, a água do rio já tinha entrado — e levaram a mãe para dormir na laje de cima de um vizinho, um puxadinho inacabado, sem portas nem janelas.
Dormiram tensos dentro de casa, naquela noite. No dia 26, às 5 da manhã, a água já estava alta. "Botei mais coisa para cima e tirei tudo do meu quarto. Perdi uma estante, e minha mãe, duas cômodas de roupa." Desde esse dia, Sheila dorme com a família no espaço cedido pelo vizinho.
Virada amarga
A forte chuva que não dá trégua no estado desde o início de dezembro fez com que a estação mais aguardada do ano virasse um pesadelo para quem vive no sul da Bahia.
Enquanto alguns pensavam em que roupa vestir para a ceia de Natal e no Réveillon, ou qual seria o prato principal da noite, Sheila — assim como tantos outros — dormia numa casa que não era sua, tentando resolver o que fazer com os estragos.
"Foi assustador quando a gente não conseguia mais ver o chão. Era muita água e terra. Como a nossa comunidade é muito unida, e todo mundo se ajuda, muitas pessoas ajudaram para que o prejuízo não fosse pior", ressalta.
Vila Juerana tem cerca de 800 moradores. Quase todos vivem do turismo e da pesca. Um dos tradicionais pratos locais é o guaiamum, um crustáceo azulado que vive na área de manguezal.
Quase todos os moradores da vila tiveram de sair de suas casas ou lidar com a cheia do rio Almada. A população continua preocupada, afinal, o verão está só começando.
Há 40 anos, uma enchente de mesmas proporções afetou a região, fazendo com que muitas pessoas perdessem seus pertences. Segundo Sheila, os moradores que viram a enchente de décadas atrás duvidavam que o rio pudesse subir novamente. "Com certeza, quem está vivo e estava na primeira enchente perdeu coisas. Agora perdeu de novo, pois ninguém esperava esse nível de água."
A reportagem do TAB entrou na casa de Sheila na tarde de 29 de dezembro. Fazia sol e a água tinha baixado um pouco, mas ainda havia água na parte dos fundos da casa. Para chegar ali foi preciso pegar uma canoa e atravessar a vila, parando em um ponto onde desse para caminhar.
Mesmo andando, a água batia nos joelhos e a dificuldade de prosseguir foi grande. A vila tem pontos de alagamento mais críticos. Para ir a outras localidades, é preciso ir de canoa ou de barco. Nos locais próximos à vila, ainda existem pessoas ilhadas. A fachada das casas guarda a lembrança da chuva: a água alcançou a altura das janelas.
Dentro da humilde casa de blocos aparentes e chão de cimento, a cheia do rio Almada desconfigurou os espaços. Brinquedos, roupas e móveis estão todos fora do lugar, aguardando o recuo do Almada.
Sheila não tem para onde ir e ainda não voltou para casa. Virou o ano no puxadinho do vizinho, que também precisou colocar blocos embaixo dos móveis para não perder nada.
"Nunca esperava passar um aniversário assim, mas o maior presente que tive foi ver minha família bem e com saúde após essa tragédia."
De acordo com a Sudec (Secretaria de Proteção de Defesa Civil do Estado), 25 pessoas morreram em decorrência das enchentes na Bahia. O total de atingidos já chega a 661 mil pessoas.
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