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'Vai se vacinar, comunista!': ato em SP compara vacinação ao nazismo

Renato do Nascimento, o "Coringa Reaça" é figura conhecida em protestos bolsonaristas e contra a vacinação da covid-19 - Marie Declercq/UOL
Renato do Nascimento, o 'Coringa Reaça' é figura conhecida em protestos bolsonaristas e contra a vacinação da covid-19
Imagem: Marie Declercq/UOL

Marie Declercq

Do TAB, em São Paulo

08/01/2022 13h02

Assim que um grupo de um pouco mais de 40 pessoas desceu a escadaria da Catedral da Sé, no centro da cidade de São Paulo, o hino nacional começou a tocar na caixa de som com rodinhas empurrada por um homem fantasiado de Coringa. Atrás dele, debaixo de uma chuva leve, pessoas levantavam cartazes contra as vacinas da covid-19 e o passaporte sanitário.

Ao redor, uma quantidade muito maior de homens, mulheres e crianças moradores de rua observava o grupo atravessar a praça em direção à prefeitura. Alguns se arriscavam a interagir com o pequeno ato antivacina, recebendo em troca sorrisos constrangidos dos manifestantes. Outros apenas bocejaram e guardaram a atenção para um carro estacionado do outro lado da praça, provavelmente se preparando para distribuir quentinhas.

Enquanto o ato seguia em frente, o hino nacional era constantemente interrompido pelo característico som de alerta de mensagem recebida do WhatsApp. Alguns pedestres, ao entenderem o tema da manifestação, gritavam "Fora Bolsonaro!", recebendo "Vai se vacinar, comunista" em resposta. Mesmo depois que o hino chegou ao fim, as notificações continuaram escapando pela caixa de som, ecoando solitárias pelas ruas do Centro Histórico.

Desde que a vacinação de crianças de 5 a 11 anos foi autorizada pela Anvisa, em dezembro de 2021, grupos de direita se mobilizaram amplamente para pressionar os órgãos de saúde contra a medida. Inicialmente o ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, defendeu a exigência de receita médica para a vacinação infantil, até recuar por cobranças de agilidade da parte de especialistas, secretários de Saúde e governadores.

No aplicativo Telegram, que concentra uma fatia generosa de grupos virtuais bolsonaristas e antivacinas, correntes contra a imunização de crianças foram disparadas diariamente para milhares de usuários. Na sexta-feira (7), em São Paulo, os gritos contra a autorização do uso da vacina da covid-19 em crianças se materializaram na Praça de Sé.

Visto que os grupos antivacinas não confiam no que chamam de "mídia tradicional", uma fatia considerável dos presentes estava com um smartphone em riste transmitindo ao vivo cada passo da manifestação. Alguns, inclusive, só se comunicavam olhando para as próprias telas.

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Cartaz protesta contra comprovante de vacinação
Imagem: Marie Declercq/UOL

'Soldado de Deus'

A convocação para o encontro fez um apelo direcionado. "Mães leoas de SP, precisamos de você", clamou uma das publicações que correu pelo Twitter e pelo Telegram desde a primeira segunda-feira de 2022. Mesmo que algumas comunidades virtuais contabilizem mais de 70 mil participantes, a adesão presencial foi modesta. A rua e o clima desfavorável ficaram para os mais apaixonados pela causa.

Conhecido nas redes bolsonaristas como "JK", John Kage, 48, foi uma das principais vozes do movimento na internet e um dos articuladores do encontro. Na Praça da Sé, foi abordado por praticamente todos os presentes, que o acompanham pelas redes sociais.

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À direita, John Kage (de capa de chuva, próximo ao carro), foi um dos articuladores do ato
Imagem: Marie Declercq/UOL

"Sou um soldado de Deus", respondeu o consultor ao ser perguntado sobre sua ocupação, e depois revelou também ser consultor de negócios. Nos últimos meses, ele e um grupo de amigos ajudaram a organizar outros eventos bolsonaristas na cidade. Apesar de não ser profissional da saúde, fala como se tivesse alguma autoridade no tema. Quem estava ao redor parecia confiar em seus pareceres.

A desconfiança com as vacinas da covid-19 já existia, mas o ativismo antivacinas de Kage recrudesceu em agosto de 2021, quando Emmanuel Macron, presidente da França, fez um pronunciamento em prol da imunização. O anúncio do líder francês e a suposta "rapidez" da aprovação das vacinas contra o vírus não cheiraram bem para o consultor —que passou a organizar encontros e audiências públicas para as quais leva médicos opositores das vacinas e favoráveis aos ditos tratamentos precoces, sem comprovação científica de sua eficácia.

Outros entrevistados afirmaram que não se opõem a todas as vacinas, apenas às que combatem a covid-19, e também são contrários à obrigatoriedade da apresentação do passaporte de vacinação em viagens, escolas e locais de trabalho.

Mesmo que os argumentos antivacinas já tenham sido desmentidos por inúmeros veículos de comunicação, o TAB pediu para Mellanie Fontes-Dutra, biomédica formada pela UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul), pesquisadora e divulgadora científica nas iniciativas Rede Análise, Todos Pelas Vacinas, União Pró-Vacina, Equipe Halo da ONU e grupo InfoVid, responder às principais colocações da manifestação.

Quanto à "rapidez" da produção da vacina, a biomédica frisou que a concentração mundial da comunidade científica na pandemia foi essencial para o desenvolvimento mais rápido que o habitual. "Foi com a covid-19 que, com muito investimento em pesquisa, e podendo estudar de forma multicêntrica o impacto da vacina na pandemia em muitos locais ao mesmo tempo, conseguimos ter um desenvolvimento rápido, sem pular etapas e sem reduzir a qualidade e o rigor científico desse processo", explicou.

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'Coringa reaça' pediu para ajeitar o cabelo verde antes de posar para foto
Imagem: Marie Declercq/UOL

'Não somos negacionistas'

Com a caixa de som desligada, o homem fantasiado de Coringa explicou as intenções do grupo. "Não somos negacionistas", alegou Renato do Nascimento, 44, comerciante, conhecido na internet como "Coringa Reaça". "Não somos contra as vacinas, somos a favor da liberdade e do direito de escolha."

Em seu perfil pessoal, inúmeros registros mostram Nascimento, quase sempre fantasiado, em outras manifestações favoráveis ao presidente. Nos últimos meses, ao lado de Kage, ele se dedica a protestar contra as medidas de imunização no estado de São Paulo. Tem orgulho da pequena fama conquistada através da militância. "Eu era só 'Coringa', mas o 'Metrópoles' me citou como 'Coringa Reaça'", contou com a face coberta de maquiagem branca já se esvaindo com o suor e a chuva.

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Andrea Santana comparou a vacinação contra covid-19 à Alemanha nazista
Imagem: Marie Declercq/UOL

'Procure saber'

"Você é jornalista?", perguntaram muitos dos entrevistados assim que ficaram sabendo da presença do TAB. "Vai escrever a verdade ou distorcer tudo como vocês fazem no UOL?". Ao serem informados que suas falas seriam reproduzidas de forma fiel, alguns manifestantes toparam ser entrevistados, mesmo desconfiados. Alguém estava sempre de olho nas entrevistas, fiscalizando tudo que estava sendo registrado no bloco de papel. "O que você está escrevendo aí?", alguns questionaram mais diretamente.

"Desde o começo da pandemia fui contra essas vacinas", contou Andrea Santana, 53, aposentada, que segurava um cartaz escrito "Não somos cobaias". A biomédica Mellanie Fontes-Dutra desmentiu o cartaz. Não existem cobaias de vacina. "Cobaia é um termo pejorativo. Durante a fase de desenvolvimento, voluntários contribuíram com a investigação."

Santana contou ter assistido á uma série de documentários sobre a Alemanha nazista na juventude, por influência de um professor. "A narrativa do passaporte da vacina foi a mesma usada por Adolf Hitler", disse, reproduzindo uma comparação frequente em grupos antivacinas desde o começo da pandemia. "Você é jovem, então procure saber sobre nazismo", aconselhou a aposentada, antes de se juntar ao restante do grupo.

Nessa retórica, o uso de máscaras que protegem do contágio viral já foi comparado com o Holocausto, enquanto governantes a favor da imunização são equiparados a Hitler ou Joseph Goebbels. No Brasil, a comparação é frequente em publicações nas redes sociais. Em outubro de 2021, em Londrina (PR), um manifestante levantou um cartaz com uma suástica feita de seringas durante um ato antivacina em frente à Câmara Municipal. Cenas semelhantes foram vistas em outras cidades, como Porto Alegre.

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Ina Gurgel, junto com outros manifestantes, se reuniu na Praça da Sé pedindo para que pais não vacinem crianças contra a covid-19
Imagem: Marie Declercq/UOL

Luta solitária

Segurando uma placa com a inscrição "Mães Pela Liberdade", a gerente de vendas Ina Gurgel, 53, afirmou se sentir em uma ditadura devido à falta de informações sobre o lado negativo da vacinação. "Recebemos muitos relatos de pessoas que perderam filhos por causa da vacina", afirmou, apontando para uma faixa listando supostas vítimas dos imunizantes. "O problema é muito grave."

Perguntada se alguma dessas famílias está presente no ato, Gurgel diz que grande parte não está em São Paulo. "Apenas recebemos os relatos", justificou.

Ao seu lado, Luciana Gerolim, 42, desempregada, defende o ato e o encontro de mães. Formada em administração, mora em Indaiatuba (SP), mas participou do protesto na capital por estar visitando a avó de 89 anos no hospital.

"Ela está internada por causa de um AVC, mas tudo me leva a crer que foi por causa da vacina", contou, com lágrimas nos olhos. "Sei disso porque ela sempre foi forte. Meus irmãos também sempre foram saudáveis e agora estão com problemas por causa da AstraZeneca".

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Luciana Gerolim exibe cartaz contra vacinação
Imagem: Marie Declercq/UOL

Apesar de os manifestantes afirmarem que nenhum órgão quer se responsabilizar pelos efeitos colaterais da vacina, a biomédica Mellanie Fontes-Dutra relembrou que há uma análise minuciosa da Anvisa faz uma análise minuciosa dos dados e também tem o dever de monitorar qualquer possível efeito adverso. "Cabe destacar que não é por ser relatado após a vacinação que um evento é necessariamente consequência dela. Para isso é preciso realizar estudos para investigar se de fato a vacina teve participação no efeito", afirmou. "A vasta maioria das reações adversas não são causadas pelo imunizante, mas por erros na aplicação, que são evitáveis e contornados pela instrução dos envolvidos."

Mãe de uma garotinha de quatro anos, Gerolim demonstra preocupação com a volta às aulas. "Não vou vacinar minha filha, mas se pedirem vou ter que dar um jeito para ela estudar em casa", explicou. Até o momento, no entanto, diz que não conhece ninguém que foi impedido de entrar em algum estabelecimento ou circular por locais sem o comprovante de vacinação, nem passou por isso.

"É uma luta solitária, porque somos minoria", refletiu sobre as próprias convicções, enquanto a chuva apertava em frente à prefeitura. "Mas vamos continuar até nos calarem, como tentaram fazer com essas máscaras". A grande maioria dos presentes, vale mencionar, estava sem máscara.