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Pesadelo da covid-19 nem acabou e outra síndrome respiratória preocupa SP

Felipe Pereira

Do TAB, em São Paulo

29/12/2021 09h42

O surto de gripe na cidade de São Paulo pode ser medido de duas formas, ambas reveladoras.

No termômetro estatístico consta que, em novembro, a rede municipal de saúde atendeu 55,7 mil pacientes com síndrome respiratória aguda grave não relacionada à covid-19. Até esta terça-feira (28), dezembro registrava 136,3 mil casos — alta de 145%.

O outro termômetro é empírico: a mesa da vendedora de café, sanduíche e bolo no ponto de ônibus na calçada do Hospital Municipal da Brasilândia, referência na cidade para síndromes respiratórias. Todos os funcionários que buscaram café e companhia para o papo reclamaram da carga de trabalho excessiva por causa do surto de gripe. Todos os familiares de pessoas internadas que ali vinham aliviar a fome falavam sobre saturação de oxigênio e tomografias.

Não são poucas as pessoas que visitaram o hospital por causa de gripe. De acordo com a secretaria municipal de Saúde, ontem havia 240 pessoas internadas na enfermaria e outras 120 em leitos de UTI, devido ao surto de influenza.

A ocorrência de doenças respiratórias no final do ano era esperada pelos funcionários do Hospital Municipal da Brasilândia, que já vão para o segundo grande enfrentamento, em pouco menos de dois anos de funcionamento. Por alguns meses, entre 2020 e 2021, a Brasilândia foi o distrito onde mais morreu gente de covid-19 em São Paulo.

Eles afirmaram que pessoas compartilhando copos em happy hours esquecem as medidas de proteção. O componente que não estava previsto era a prevalência da gripe influenza e não um repique de covid-19. A Prefeitura informou que está realizando um painel viral para identificar a cepa de influenza (H3N2), entre outros vírus, que circula em São Paulo.

Providência necessária, mas que não resolve o problema imediato dos funcionários do hospital. Mas nem tudo são más notícias. Os funcionários contam que é mais raro a gripe evoluir para quadros graves. Em vez de o nível de oxigenação ir se degradando até levar o paciente à intubação, a maior parte recebe alta em até dois dias de internação.

Ter menos pacientes em estado grave não significou um período de trabalho tranquilo. Na troca de turno, os funcionários que saíam desejaram sorte a quem passaria a noite cuidando de tanta gente gripada. Para preparar o espírito dos recém-chegados, avisavam que estavam saindo "esbugalhados".

Movimentação de ambulâncias no Hospital Municipal da Brasilândia, na zona norte de São Paulo - Rivaldo Gomes/Folhapress - Rivaldo Gomes/Folhapress
Movimentação de ambulâncias no Hospital Municipal da Brasilândia
Imagem: Rivaldo Gomes/Folhapress

Modo repetição

O surto de gripe foi um revival em menor escala do enfrentamento à covid-19. Pessoas voltaram a procurar as UBS (Unidades Básicas de Saúde) e as UPAs (Unidades de Pronto Atendimento), com os casos mais graves sendo levados à unidade de referência. Esse procedimento movimentou o estacionamento de ambulâncias do Hospital Municipal da Brasilândia na tarde de terça. Logo depois da chegada das ambulâncias, eram os carros de parentes que estacionavam na imediações do prédio.

Os seguranças faziam os familiares fecharem a cara quando explicavam que a influenza segue o mesmo protocolo da covid-19 — ou seja, apenas um acompanhante pode entrar. Como todos os casos que pioram são levados para a Brasilândia, a grade do hospital serviu de apoio para um monte de gente que aguardava notícias.

Pequenos amontoados humanos indicavam onde estava a família de um paciente recém-internado. Quando alguma novidade surgia, os parentes mandavam as informações para conhecidos por WhatsApp, dando início a uma troca intensa de mensagens de voz. Mas a falta de estrutura incomodava Leandro Alves Oliveira, 26.

"O banco aqui é o chão. O único lugar para dar uma sentadinha é o chão."

Ele chegou ao hospital de ambulância, acompanhando José Roberto da Silva, 52. A sobrinha do paciente, Ádria Natália da Silva, 30, estava preocupada, porque era o quarto dia de febre e de dor de cabeça. O tio foi internado no Natal na UPA da Mooca.

Ádria protestou com a concentração de todos os pacientes com gripe no Hospital Municipal da Brasilândia. Reclamou que da casa dela até o local onde o tio foi internado são 20 quilômetros. A sobrinha nem pensa em deixar de fazer o caminho todos os dias até a data da alta.

"Meu tio está muito emotivo. Toda vez que a gente conversava, ele chorava. Ele teve um AVC e só mexe o lado direito do corpo. Tá muito preocupado."

A sobrinha também estava preocupada porque a transferência significa um agravamento do quadro clínico. A radiografia feito na UPA da Mooca mostrou muita secreção no pulmão.

"O médico fez o raio-x para ver se daria alta, mas mandou meu tio para o hospital."

Marcela de Souza, 20, estava ainda mais tensa. A avó dela, Joana Maria de Souza, 78, está intubada — consequência da idade avançada, dos problemas cardíacos, diabetes e hipertensão. Ela e os familiares passaram a tarde no entorno do hospital e, conforme as pernas cansavam, revezavam-se para sentar nos bancos do carro.

Marcela tem fé na recuperação e não consegue conceber que a avó passou ilesa pela covid-19 e foi parar na UTI por causa de gripe.

Nesse novo surto de síndrome respiratória, as autoridades de saúde apostam na vacinação. Na segunda-feira (27), a Prefeitura autorizou a aplicação de doses contra a influenza para todas as faixas etárias para quem não se imunizou em 2021. Durante a campanha, ocorrida em abril deste ano, foram vacinadas 4,4 milhões de pessoas. Número gigante, mas que representa 74,7% do público elegível. A covid-19 e o surto de gripe são cheios de semelhanças.