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São Paulo usa barco especial na cruzada contra pernilongos no Rio Pinheiros

Trabalho de controle de endemias no Rio Pinheiros - Caio Guatelli/UOL
Trabalho de controle de endemias no Rio Pinheiros Imagem: Caio Guatelli/UOL

Felipe Pereira

Do UOL, em São Paulo

26/12/2021 04h00

Verão é a época da chegada do calor, do Papai Noel e dos pernilongos em São Paulo. Berço natural para estes insetos indesejados, os 27 quilômetros do Rio Pinheiros recebem atenção especial contra a proliferação de pernilongos — o rio Tietê fica de lado nessa operação, já que tem águas tão imundas que os pernilongos nem conseguem se reproduzir.

No Pinheiros a poluição também atrapalha. O problema seria menor se suas águas abrigassem peixes e anfíbios, predadores naturais das larvas dos mosquitos. Na falta de um ecossistema equilibrado, 90% dos ovos depositados pela fêmea chegam à fase adulta. Cabe à Divisão de Zoonoses da Secretaria Municipal de Saúde agir para reduzir este percentual. Assim, os servidores lançam larvicida numa faixa de 10 metros de água a partir de cada margem do rio.

Biólogo da Divisão de Vigilância em Zoonoses da Secretaria Municipal de Saúde, Gladyston Costa explica que o produto é aplicado desde 2004. Ele não atinge outro tipo de fauna, é biodegradável e específico para o Culex quinquefasciatus, o pernilongo comum. O Aedes aegypti, mosquito transmissor da dengue, tem predileção por águas limpas e não se reproduz no Pinheiros.

Até o ano passado, a aplicação do larvicida era feita a partir das margens. Costa diz que método não era o mais eficiente, porque parte do produto era dispersado pelo vento antes de cair no rio. Mas agora, época do ano em que o problema se intensifica, a Secretaria Municipal de Saúde recebeu um aerobarco.

 Agente de controle de endemias da Divisão de Vigilância de Zoonoses da prefeitura de São Paulo trabalha no controle de fauna sinantrópica no rio Pinheiros - Caio Guatelli/UOL - Caio Guatelli/UOL
Agente de controle de endemias da Divisão de Vigilância de Zoonoses da prefeitura de São Paulo trabalha no controle de fauna sinantrópica no rio Pinheiros
Imagem: Caio Guatelli/UOL

"Os pernilongos são mais presentes entre outubro e fevereiro. Nos meses mais frios quase, não tem. No verão, a proliferação aumenta de 70% a 80%", explica o biólogo da Divisão de Vigilância em Zoonoses.

A embarcação empregada a partir deste verão tem o motor acima da lâmina d'água, evitando vegetação e lixo — algo comum no Pinheiros. O aerobarco lança 16 quilos de larvicida a cada quilômetro de rio. O local de aplicação do produto é a mesma faixa de dez metros a partir da margem.

Como são 27 quilômetros de extensão do Pinheiros e há duas margens, o larvicida é espalhado ao longo de 54 quilômetros. Significa 864 quilos do produto. Desde a aquisição do aerobarco, o trabalho é feito em quatro horas, metade do tempo em relação ao método anterior. O ritual é repetido a cada quinzena.

Controle de endemias no Rio Pinheiros (SP) - Caio Guatelli/UOL - Caio Guatelli/UOL
Controle de endemias no Rio Pinheiros (SP)
Imagem: Caio Guatelli/UOL

Monitoramento da eficácia

A simples aplicação do larvicida não produz exterminação imediata dos pernilongos. O biólogo da Divisão de Vigilância em Zoonoses conta que produto consiste na bactéria Bacillus sphaericus, que destrói o intestino da larva quando ingerida. A eficácia depende de que o larvicida em forma granulada se espalhe pela água — e quando há vegetação ou lixo, o produto fica represado, impedindo que atinja todo o Pinheiros.

Este seria o motivo da infestação de pernilongos em setembro do ano passado. Costa declara que a empresa que faz a limpeza do rio teve problemas com pessoal por causa da covid-19. Sem funcionários para manter a lâmina d'água livre de obstáculos, o combate ao Culex quinquefasciatus foi afetado.

Para saber se aplicação de larvicida está sendo eficaz, a Divisão de Vigilância em Zoonoses monitora o rio. São 68 pontos de coleta de água. O material é levado para laboratório e, então, é feita a contagem de larvas. Outra ferramenta de controle é a aspiração de pernilongos alados (adultos) nas proximidades do rio: um cano de PVC, ligado a um ventilador invertido, suga o gramado ao lado do rio durante um minuto. Se houver mosquito alado é porque o combate não está sendo bem-sucedido. Nestes casos, há diminuição para 10 dias no intervalo de aplicação do larvicida.

O biólogo da Divisão de Vigilância em Zoonoses afirma que as medições recentes têm demonstrado que o rio está livre de pernilongos. Mas Costa ressalta que isto não significa o desaparecimento do Culex quinquefasciatus. A espécie continua se reproduzindo na água parada de calhas, em caixas d'água sem tampa, nas bocas de lobo e nos 24 afluentes do rio Pinheiros, mesmo que estes córregos estejam canalizados.

Aerobarco usado para a aplicação de larvicida no Rio Pinheiros - Caio Guatelli/UOL - Caio Guatelli/UOL
Aerobarco usado para a aplicação de larvicida no Rio Pinheiros
Imagem: Caio Guatelli/UOL

Ninho e pernilongo

A fêmea do culex tem grande capacidade de reprodução e, a cada ninhada, deposita na água até 300 ovos ligados um ao outro — formando uma estrutura chamada jangada. Os ovos eclodem e as larvas se alimentam no rio até completarem a metamorfose para virarem pernilongos alados. Este processo leva 15 dias. Nos meses de calor, uma fêmea é capaz de botar 10 jangadas nas águas do rio num período de dois meses.

O trabalho da Divisão de Vigilância em Zoonoses no rio Pinheiros é uma forma de mitigar o problema, mas o biólogo responsável pelo setor explica que o resultado seria mais eficaz com as pessoas evitando água parada e jogando o lixo no lixo. "A população precisa entender que uma bituca de cigarro ou papel de bala jogado na avenida Paulista vai parar no rio". Talvez as pessoas fossem mais zelosas se vissem o lixo se tornando uma barreira a atuação do larvicida, mas a única parte do combate a pernilongos que população geral conhece é o fumacê. O biólogo conta que a medida não serve para controle porque, no dia seguinte, outros pernilongos vão aparecer na região da aplicação.

Agentes de controle de endemias no Rio Pinheiros - Caio Guatelli/Caio Guatelli - Caio Guatelli/Caio Guatelli
Agentes de controle de endemias no Rio Pinheiros
Imagem: Caio Guatelli/Caio Guatelli

O fumacê é empregado quando é encontrado um foco de dengue, vírus zika ou chikungunya. A providência imediata é matar os pernilongos que possam estar transmitindo estas doenças. Ou seja, trata-se do último recurso do arsenal da Divisão de Vigilância em Zoonoses. Daí em diante, cada um se defende como pode: fechando a janela, usando mosqueteira, aplicando veneno ou apelando para a raquete elétrica.