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'Aquele número é meu filho': mães falam de suas crianças mortas por covid

 Larissa Anielle Borginho, 41, mãe de João Fellipe Silva Borginho, 13, morto por covid em junho de 2021 - Crisitano Borges/UOL
Larissa Anielle Borginho, 41, mãe de João Fellipe Silva Borginho, 13, morto por covid em junho de 2021 Imagem: Crisitano Borges/UOL

Claudia Castelo Branco

Colaboração para o TAB, em São Paulo

07/01/2022 04h00

Alegre. Fortinho. Cabelos pretos, cacheados. Comunicava-se com o olhar. Três anos e três meses recebendo muito dengo. Alan, o Touro Valente, é como Vanessa Falcão, 32, chama o filho. No primeiro dia de 2021, quando o país contabilizava 7.698.862 casos de coronavírus desde o início da pandemia, Alan foi internado.

No dia 16 de janeiro do ano passado, o país registrava 1.059 mortes pela covid-19, cinco delas em Maceió. Foi neste dia, num sábado de manhã, que Alan morreu. Até então, pesquisas indicavam que crianças corriam um risco relativamente baixo de desenvolver casos graves da doença, mas a realidade é muito mais trágica entre as fileiras de túmulos. "Quando vejo as reportagens com muitos dados sobre crianças, penso: 'aquele número ali é meu filho', desabafa Vanessa, na mesma semana em que o presidente Jair Bolsonaro afirmou desconhecer casos de crianças mortas por covid.

"Números não são capazes de atravessar algumas barreiras, eles não entram no nosso coração do mesmo jeito que as histórias", observa Edson Pavoni, idealizador do Inumeráveis Memorial.

Vanessa Falcão, 32, e o filho Alan, vítima de covid - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Vanessa Falcão, 32, e o filho Alan, vítima de covid
Imagem: Arquivo pessoal

Alan tinha uma doença rara: síndrome de West. Professora do ensino infantil, Vanessa abandonou o trabalho para dedicar-se ao filho que lutou pela vida desde que nasceu: a criança passou por 13 pneumonias, mas, segundo ela, quando sua frágil e pequena mão apertava com coragem o indicador de Vanessa, tudo se renovava.

Com dois anos, o menino precisou de oxigênio. Vanessa organizou uma campanha e, em dois dias, conseguiu o valor para adquirir o aparelho do filho cujo nome foi escolhido para homenagear o pai, Alaniel. Juntos, eles também são pais de Tales, 7. Bombeiro, Alaniel segue em atividade enquanto Vanessa avalia retomar uma rotina que faça sentido para ela e para Tales. Os olhos voltam a brilhar quando fala de uma possível missão relacionada à educação especial.

"É muito difícil olhar pra casa e não vê-lo aqui", diz Vanessa. A mãe acha importante falar sobre o luto. "É algo de que ninguém quer falar", diz ao TAB. Em busca de conforto, procura vídeos e palestras que falem dessa dor nas redes. E escreve cartas para o filho. Um trecho delas diz "Sua vida não foi um contratempo e sim cheia de tempo, intensidade e eternidade".

A polêmica da vacina

Quase um ano após a morte de Alan, o Ministério da Saúde incluiu crianças entre 5 e 11 anos no plano nacional de imunização contra a doença sem a exigência de prescrição médica. O anúncio, feito na quarta-feira (4), ocorreu três semanas após a Anvisa liberar a vacina para o público infantil -- e em meio à pressão da opinião pública, de especialistas e do público geral. Um cenário relativamente parecido com o de janeiro de 2021.

"A vacina sendo liberada para as crianças, sobretudo para aquelas com comorbidades, é um alívio para as famílias que tanto esperaram", diz Vanessa após tomar conhecimento da decisão. Ela acredita na ciência e lamenta a quantidade de desinformação que circula sobre a vacina. "Fico triste, mas acredito que todos os pais vão vacinar seus filhos".

Vanessa, Tales e Alaniel com Alan - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Vanessa, Tales e Alaniel com Alan
Imagem: Arquivo pessoal

A imunização de crianças já ocorre em diversos países. Nos Estados Unidos, as vacinas de reforço para crianças de 12 a 15 anos foram recentemente autorizadas.

Especialistas defendem que a vacinação desse grupo é estratégica para combater a pandemia. Entre eles está o ex-ministro da Saúde, o oncologista Nelson Teich. "A primeira coisa que temos que tomar cuidado é não comparar número de óbitos entre crianças com óbitos entre adultos. A mortalidade sempre será maior entre adultos do que entre crianças, dando a falsa sensação de que é menos importante do que deveria ser. Tem que comparar criança com criança e adulto com adulto", explicou no Instagram.

Contrariando os comentários abundantes na internet que minimizam números de mortes de crianças por covid, é difícil identificar uma família enlutada e disposta a falar. Informações médicas são sensíveis e confidenciais -- os dados fornecidos não incluem informações pessoais e nem são encontrados em hospitais ou fornecidos por órgãos do Estado.

No que se refere à proteção de dados por conta da pandemia, a lei 13.979 especifica que "é obrigatório o compartilhamento entre órgãos e entidades da administração pública de dados essenciais à identificação de pessoas infectadas, com a finalidade exclusiva de evitar sua propagação", resguardando "o direito ao sigilo das informações pessoais".

Vale registrar que, entre os dias 11 de dezembro e 5 de janeiro, problemas no e-SUS Notifica, ferramenta online de registro dos casos de covid do Ministério da Saúde, impactaram a atualização dos casos no Brasil inteiro.

'Não existe dor maior'

Consumidor voraz de animes. Enloquecido por Naruto. Fã do DJ Alok e Legião Urbana. Gamer. Skatista desde os 4 anos de idade. "Falo do João no presente. Não consigo falar no passado", diz Larissa Borginho, 41, com um colar no pescoço que traz a assinatura do filho de 13 anos.

Larissa usa um pingente com a assinatura de João Fellipe - Cristiano Borges/UOL - Cristiano Borges/UOL
Larissa usa um pingente com a assinatura de João Fellipe
Imagem: Cristiano Borges/UOL

João Fellipe não acompanhou a estreia do skate nos Jogos de Tóquio. "Ele adoraria ver esse momento nas Olimpíadas, de ver a vitória da Rayssa Leal, dos meninos." A mãe mostra a tatuagem recente marcada no braço dias após a partida do filho. É a reprodução feita por João do desenho Killua. Outra tatuagem traz a frase "Seja forte e corajosa". Quando João Fellipe morreu, Larissa teve vontade de arrancá-la. "Não existe dor maior que perder um filho".

Com 1,80 m de altura, João às vezes ficava acima do peso, mas só tinha tamanho. Um menino grande, saudável, dono de gargalhadas gostosas e bom em Matemática. "Ele dizia: 'minha mamãe me chama de Garfield porque amo pizza e lasanha'".

Mãe e filho pegaram covid no mesmo período, mas foram internados em hospitais diferentes. "Pedia notícias e nada". Larissa fala do desespero ao pedir para ser levada no lugar do filho que acabou partindo no dia 4 de junho de 2021. Ela observa que tudo poderia ser diferente "se já tivesse vacina antes".

Sobre a vacinação infantil, é taxativa. "Uma oportunidade que meu filho não teve. A vacina não livra da doença, mas livra da morte. E quem fala é uma mãe que perdeu o seu bem mais precioso, o único e amado filho".

João Fellipe morreu de complicações da covid aos 13 anos de idade - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
João Fellipe morreu de complicações da covid aos 13 anos de idade
Imagem: Arquivo pessoal

Larissa tem dois irmãos e uma irmã -- Pablo, Diego e Michelle -- que descreve como "sua base". Ela mudou de casa uma semana após a morte de João Fellipe. Em Goiânia, Pablo organizou tudo. Ela também fala com carinho de David, seu afilhado.

É neste novo quarto que Larissa mostra fotos e objetos do filho. Tudo ali tem muita história. O Fusca em miniatura, por exemplo, João compraria quando ficasse adulto. Bonecos do Naruto. Bonecos do filme "Toy Story". A lembrancinha do seu aniversário de um ano. Uma mochila com uma blusa de frio "que ainda tem o cheirinho dele". Um capacete. Uma bola. A mensagem recebida no último dia das mães: "Amo muito a senhora. Você é a razão do meu viver. Te amo, Pandinha". E os cadernos onde Larissa escreve para o filho uma carta todos os dias, antes de dormir.

Larissa mostra firmeza durante as duas horas de conversa, mas o olhar de quem sofre a maior das dores se perde em meio a tantas lembranças. "Não tenho projeto. Meu projeto era o João". E reforça a importância de demonstrar os sentimentos agora, no presente. "João não perdia a chance de dizer 'eu te amo'". Ela então volta no tempo, para 26 de dezembro de 2020, numa praia a 100 km de Curitiba, quando mergulhou no mar com o filho. Um ano depois, a família insistiu que Larissa repetisse o momento, dessa vez no Guarujá. "Fez muita diferença".

Larissa exibe tatuagens em memória do filho - Cristiano Borges/UOL - Cristiano Borges/UOL
Larissa exibe tatuagens em memória do filho
Imagem: Cristiano Borges/UOL

Esperança

Em Goiânia, Larissa mostrou-se aliviada com a notícia de que a maioria das pessoas no Brasil se manifestou contra a exigência de prescrição médica para a imunização das crianças. Em Maceió, a mãe de Alan aguarda para vacinar Tales, de sete anos, o filho mais velho. "Uma esperança", diz.

No atual cenário, com o país enfrentando dificuldades para dimensionar a real situação da pandemia, Larissa critica brigas políticas desnecessárias. "Meu filho infelizmente não teve essa oportunidade por falta de consideração de quem tenta enfraquecer uma instituição tão séria como a Anvisa enquanto a prioridade é a saúde da população brasileira e das nossas crianças contra um vírus mortal". A previsão é de que a vacinação infantil comece até o dia 15 deste mês.

Em meio a tantos números, as tragédias vividas pelas duas mães nunca será compreendida em sua totalidade por quem não está inserido nela. Mas as histórias de Alan e João Fellipe no mundo serão sempre sobre o poder da vida. "Sua missão foi ensinar a amar", diz Larissa sobre João. Entre as recordações mais marcantes de Alan, Vanessa guarda "o eu te amo" transmitido sem palavras, mas pelo olhar.