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Crianças no Rio: 'Minha dinda morreu de covid-19, vacinar é um alívio'

Isabela de Santana, 10, mostra seu "Certificado de Coragem" após ser vacinada no Museu do Amanhã, no Rio - Fabiana Batista/UOL
Isabela de Santana, 10, mostra seu 'Certificado de Coragem' após ser vacinada no Museu do Amanhã, no Rio Imagem: Fabiana Batista/UOL

Fabiana Batista

Colaboração para o TAB, do Rio

19/01/2022 04h01

O espelho d'água reflete o sol que, antes das 8h, já está a pino. Nas próximas semanas, o Museu do Amanhã será um dos pontos de vacinação exclusivos para crianças de até 11 anos, no Rio. Pelo menos, até quando houver vacina: a cidade alterou o calendário de vacinação na terça-feira (18) por falta de doses, e estendeu o atendimento a crianças de 11 anos até sábado (22).

Ao menos na segunda-feira (17), primeiro dia oficial de vacinação de crianças no Rio, o clima era de ansiedade e felicidade. Uma menina de vestido da mesma cor que a máscara chegou com a mãe. Isabela de Santana e Isabele Coutinho vieram a pé, vindo de casa, na Ladeira do Pedro Antônio, no bairro da Saúde. Era a primeira vez que mãe e filha entravam no Museu. Ansiosa, desde que soube da possibilidade de ser imunizada, a menina não falou de outra coisa. Nem dormiu à noite.

Às 8h15, ela foi autorizada pela funcionária a se vacinar. "Ela estava tão ansiosa que até errou o dia", lembrou a mãe, que também não se deu conta de que o primeiro dia era apenas para meninas de 11 anos — Isabela tem 10. Ao ouvir da funcionária "e aí, vamos?", não escondeu o entusiasmo e largou a reportagem.

Vinte minutos depois, ao sair, o entusiasmo já não era tanto. Com a mão no braço vacinado, ela reclamou de dor. Esqueceu que, para se imunizar, tinha de deixar de lado o medo da agulha. "Sentei e eles me acalmaram, porque fiquei com medo. Descansei o braço e fechei bem forte os olhos", disse, simulando a situação.

Agora imunizada, contou ficar mais tranquila para brincar na rua com os amigos. Durante o isolamento social mais rígido, ela não colocava o nariz para fora e tinha apenas a companhia das irmãs, uma de três e as outras de 15 e 17 anos. Isabele, a mãe, também sentiu-se sufocada. Apenas o marido trabalha e ela ficou com a responsabilidade de tentar entreter as filhas.

Com um livro na mão, recompensa da Secretaria Municipal de Saúde, Isabela diz que já quer chegar em casa para começar a lê-lo. "Ainda não dá para sair tanto, né, só depois da segunda dose."

Betina Leal, 11, que se deslocou da Tijuca até a Praça Mauá para ser vacinada, no Rio - Fabiana Batista/UOL - Fabiana Batista/UOL
Betina Leal, 11, que se deslocou da Tijuca até a Praça Mauá para ser vacinada, no Rio
Imagem: Fabiana Batista/UOL

Outra menina ansiosa para ser vacinada era Betina Leal, 11, que se deslocou da Tijuca até a Praça Mauá. Pai e filha chegaram às 7h30 e assistiram à solenidade da prefeitura. "A gente não via a hora, não sei porque tem quem ainda resista", disse o pai, que preferiu não se identificar.

Quando a reportagem os abordou, a dupla estava contente por mais uma integrante da família ser vacinada. O pai relembra que, no início de 2021, já em casa depois de passar um ano em Petrópolis (RJ) com os avós maternos, todos na casa se contaminaram. Embora tivessem febre ao longo de dias, conseguiram se recuperar sem maiores complicações. A mãe, que é médica e já estava imunizada, foi a que menos sofreu.

Letícia Vitória, 10, na fila para ser vacinada, na Uerj, no Rio - Fabiana Batista/UOL - Fabiana Batista/UOL
Letícia Vitória, 10, na fila para ser vacinada na Uerj, no Rio
Imagem: Fabiana Batista/UOL

Bronquite e outras comorbidades

A 8 km da Praça Mauá, no Morro da Mangueira, Letícia Vitória, 10, era acordada pela mãe às 8h. Ela tomou banho, escovou os dentes e, enquanto tomava café, ouvia a mãe explicar que aquela era uma manhã especial, pois ela iria tomar a vacina contra a covid-19.

Mãe e filha fizeram uma caminhada de 15 minutos até a Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro), ponto de vacinação mais próximo.

Diferentemente do Museu do Amanhã, a Uerj atende a dois públicos: adultos em busca de vacina e crianças. Às 9h a fila era pequena, mas havia espera. Enquanto a segunda dose ou a de reforço esteve disponível desde o início, as crianças se acumulavam porta — teve até quem desistiu.

A mãe de Letícia não quis conversar, mas a menina mostrou estar à vontade. De frente para os prédios da universidade, falou que seu maior sonho é ser professora e estudar ali mesmo, onde vê os adultos entrarem e saírem quando acompanha o pai no trabalho, no Estádio do Maracanã. "Quero passar no vestibular, estudar e ter um futuro melhor que o das minhas irmãs."

Letícia, que herdou da mãe a bronquite e a asma, falava com certa dificuldade. Entre uma frase e outra, fazia uma pausa para respirar — por isso, vacinaria antecipadamente. Conta, ainda, que essa comorbidade fez sua mãe ficar ainda mais ansiosa pela vacina infantil. "Às vezes ela tira o remédio dela para me dar, porque temos dificuldades financeiras."

Ao lado das duas estavam Eliane de Barros e a filha Sabrina de Lima, 11. Estavam impacientes, porque já passava das 10h e a vacina sequer havia chegado. A menina ficou abraçada com a mãe o tempo todo.

Durante as aulas online, essa excitação se refletiu em sua nova rotina. As aulas, que presencialmente são das 13h às 17h, passaram a ser apenas de 40 minutos por dia. Com isso, a menina adquiriu o hábito de roer as unhas, começou a comer mais besteiras e ficou sedentária. "A aula online é uma porcaria, a escola largou os alunos e as crianças precisaram estudar praticamente sozinhas."

Outra situação que deixou Sabrina ainda mais sensível foi a morte da madrinha por covid-19, em janeiro de 2021. Ela era o xodó da tia. Eliane relembra que esse foi um momento muito doloroso para a filha, que teve de lidar com uma perda tão nova. "Minha dinda morreu de covid-19. Vacinar é um alívio", afirmou a menina.

Eliane de Barros levou a filha, Sabrina de Lima, para se vacinar. A menina perdeu a madrinha para a covid-19 - Fabiana Batista/UOL - Fabiana Batista/UOL
Eliane de Barros levou a filha, Sabrina de Lima, para se vacinar. A menina perdeu a madrinha para a covid-19
Imagem: Fabiana Batista/UOL

Procedimento padrão

Com pouco mais de 20 crianças no aguardo, a vacinação começou depois das 10h30 na Uerj. O atraso gerou estresse nos mais ansiosos. Eliane chegou a discutir com a responsável de plantão. "O jeito debochado de falar é desrespeitoso", opinou. Já a mãe de Letícia estava a ponto de partir antes mesmo de a filha se vacinar.

Às 10h25, as crianças foram organizadas em uma fila. Letícia, a primeira a se vacinar, às 10h35, foi levada até uma mesa com dois funcionários que organizaram sua documentação e entregaram o "Certificado de Coragem", dado a todas as crianças acompanhadas pela reportagem.

Depois, foi para outra mesa, atrás da primeira, onde um médico a aguardava. Sentou-se ansiosa e, aos olhos de funcionários e de sua mãe, o médico fez o procedimento padrão. Mostrou-lhe a agulha e o frasco, enfiou a agulha no potinho de vidro, puxou a seringa e foi até a menina. Pediu que ela ficasse tranquila, a picada não doía muito. Limpou o local e aplicou a vacina.

Já fora da área de vacinação, Letícia sorria com os olhos. "A primeira coisa que vou fazer é ver minha avó. Estou morrendo de saudades. Se eu pudesse, ia agora mesmo visitá-la."