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Como é um culto a Exu, entidade celebrada na Grande Rio, campeã do Carnaval

Trabalho com exus e pombagiras em terreiro de umbanda de São Caetano do Sul - André Nery/UOL
Trabalho com exus e pombagiras em terreiro de umbanda de São Caetano do Sul
Imagem: André Nery/UOL

Mateus Araújo

Do TAB, em São Paulo

27/04/2022 13h31

Foi em busca de conforto que cerca de 100 pessoas lotaram a pequena sala do terreiro de umbanda Caboclo 7 Pena Branca e Zé Pelintra, no dia em que Exu ganhou o Carnaval.

"A gente tem que levar o nome de Exu adiante. São entidades de força. Sem eles não há ser humano, ninguém fica de pé", dizia o pai de santo Eduardo Jordan Neves, 39, na abertura dos trabalhos da casa que fica em São Caetano, Grande São Paulo.

Na terça-feira (26), poucas horas antes de a gira iniciar, a escola de samba carioca Grande Rio havia vencido a disputa de 2022 com um enredo celebrando o orixá que é uma das divindades mais cultuadas nas religiões afro-brasileiras.

"Isso foi muito forte para nós. Imagina para quem ouve essa saudação na igreja pentecostal aqui ao lado?", reforçava ele à reportagem do TAB. O terreiro é um dos integrantes do movimento Bandeira Branca, projeto local de combate ao preconceito de credo. Diante do sacerdote, homens e mulheres aguardavam consulta com exus e pombagiras prestes a se manifestar em 12 médiuns da casa.

No espaço, localizado no primeiro andar de um prédio comercial, esse tipo de atendimento acontece na última terça-feira de cada mês. As pessoas, diz Neves, querem auxílio em trabalho, relacionamento e saúde. "Lembrando que é preciso ter respeito com Exu. O que se pede a ele é sério, então pense bem. Nós trabalhamos com lei e não fazemos maldade", antecipava o líder religioso, antes de dar início à cerimônia.

Trabalho de exu e pombagira no Terreiro 7 Pena e Zé Pelintra, em São Caetano, São Paulo - André Nery/UOL - André Nery/UOL
Terreiro 7 Pena e Zé Pelintra, em gira de exu e pombagira
Imagem: André Nery/UOL

Quem viu o mundo nascer

Exu, primeiro filho de Olorum (a divindade suprema de todos os orixás), viu a criação do mundo, conta a tradição iorubá. Foi quando ele comeu, experimentou e cuspiu tudo de volta. "Logo, não é exagero dizer que Exu tudo conhece", conta o pesquisador Renzo Carvalho, em conversa com o TAB.

Elo entre a terra e o divino, Exu questiona todas as certezas e, por isso, seu culto é uma forma de autoconhecimento. Em todo terreiro, é ele quem abre os trabalhos e é a ele que se recorre antes de se fazer qualquer oferenda ou pedido para outras divindades. "Ele é o responsável pelo progresso da humanidade, pelos caminhos, pelo caráter, pela comunicação e pelos instintos mais selvagens e mais sofisticados do ser", afirma Carvalho.

No Brasil, o candomblé, a umbanda e a quimbanda passaram a chamar também de exus os espíritos de homens e mulheres quase sempre pobres, a maioria negros, que morreram e viraram entidades espirituais. Nesse grupo, batizado de catiço, estão também as pombagiras, "que escancaram as precárias condições materiais de sociabilidade", afirma o pesquisador. São figuras de mulheres fortes, contraditórias e destemidas. "É uma entidade política que busca a emancipação não só do corpo, mas da forma feminina como um todo."

"O que chamamos de 'povo da rua' é Exu por associação, mas não se trata do orixá", pondera Carvalho. "Precisamos entender que são termos diferentes, mas não necessariamente exclusivos de práticas X ou Y. Há quem considere errada a visão que se tem acerca da utilização do termo para designar esses grupos de espíritos desencarnados. Eu discordo gentilmente, pois compreendo que Exu é o Senhor das Encruzilhadas, e, nas encruzilhadas, tudo se reinventa e se transforma."

Para Renzo Carvalho, ao criar um samba-enredo totalmente dedicado a Exu, a Grande Rio fez do desfile um ato político. "Isso nos alerta para a necessidade de buscarmos sempre novas possibilidades não só de sobrevivermos, mas de vivermos de forma digna e alegre."

Imagem de Zé Pelintra, entidade de 'povo da rua' que trabalha no terreiro - André Nery/UOL - André Nery/UOL
Imagem de Zé Pelintra, entidade de 'povo da rua' que trabalha no terreiro
Imagem: André Nery/UOL

'Sempre saio confortada'

O racismo fez os exus e pombagiras entrarem em parte do imaginário popular brasileiro como figuras ligadas ao diabo ou à maldade. Dentro dos terreiros, no entanto, o orixá e os espíritos de rua mobilizam grande devoção dos frequentadores. Todos eles estão em busca de ajuda espiritual, conselho, proteção ou abertura de caminhos.

No templo de umbanda Aldeia da Mata, um dos maiores da região central de São Paulo, as entidades trabalham duas vezes por mês, com dias variados. "São as entidades que nos protegem na rua, na estrada, no trabalho, que nos dão a segurança. Então a gente trabalha muito no sentido de proteção. Geralmente vai muita gente [para os cultos]", conta o pai de santo Elias Cagnoni ao TAB.

Poucos meses antes de a pandemia começar, numa fila de pessoas à espera para conversar com as entidades, uma mulher de 32 anos comentava: "ele é ótimo, é engraçado, mas às vezes é duro no que fala. Eu gosto de ouvir". Ela se referia a Tranca-Rua, com quem fazia tratamento espiritual havia dois meses para encontrar amparo em um processo de depressão. "Devo demorar lá dentro, porque é sempre longa [a consulta]."

De dentro de uma salinha à luz de velas, aos fundos do terreiro, vinham gargalhadas. Homens e mulheres incorporados atendiam aos visitantes e, além de conselhos, baforavam sobre as pessoas a fumaça de cigarros e charutos. A moça levou aproximadamente 30 minutos na consulta. Voltou com um pedaço de papel rabiscado, no qual exu pediu para uma assistente escrever as orientações de um banho que a paciente precisaria fazer. "Sempre saio confortada."

Trabalho com exus e pombagiras em terreiro de umbanda de São Caetano do Sul  - André Nery/UOL - André Nery/UOL
Trabalho com exus e pombagiras em terreiro de umbanda de São Caetano do Sul
Imagem: André Nery/UOL
Pombagira em trabalho no terreiro de São Caetano - André Nery/UOL - André Nery/UOL
Trabalho com exus e pombagiras em terreiro de umbanda de São Caetano do Sul
Imagem: André Nery/UOL

'Laroyê'

Os cantos e o batuque faziam um barulho grande na gira de São Caetano do Sul. Das suas cadeiras, os fiéis acompanhavam com palmas. Depois de saudarem os orixás Ogum e Iansã, os médiuns saudaram a divindade da noite. "Laroyê, Exu!", gritaram perfilados em quatro grupos, em frente a uma plateia lotada.

Foi quando Exu da Morte incorporou em pai Eduardo, vestindo uma capa preta com capuz, segurando um cajado e fumando um enorme charuto. O homem se aproximou das pessoas e cumprimentou com um aceno. Chegaram, em seguida, outras entidades: Maria Padilha, Tranca-Rua e 7 Saias. Uma legião de exus e pombagiras se manifestaram depois, e ficaram prostrados à espera dos pacientes.

Um casal foi chamado para o atendimento, o primeiro da noite. A mulher estava grávida. A médium pôs a ponta de sua capa vermelha nas costas dos dois e começou a conversar, ao pé do ouvido. A moça apenas observava, mas o homem logo estremeceu e começou a chorar.