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Pescador que encontrou corpo em veleiro pulou no mar com o susto, em Natal

Veleiro Mona-Mi F.S., rebocado pelo pescador Geraldo Alves em Natal - Geraldo Alves/Arquivo Pessoal
Veleiro Mona-Mi F.S., rebocado pelo pescador Geraldo Alves em Natal
Imagem: Geraldo Alves/Arquivo Pessoal

Paulo Nascimento

Colaboração para o TAB, de Natal

15/05/2022 04h01

Um barco à deriva a 26 quilômetros da costa carrega dentro dele um corpo, documentos espalhados, bandeiras de três países e janelas fechadas com fita adesiva.

O cenário de filme de suspense ou série de investigação criminal foi primeiro avistado por pescadores de Natal no sábado (7).

O vento que soprava na popa balançava a bandeira da Suécia, mas no interior do veleiro Mona-Mi F.S., de 12 metros de comprimento, havia ainda as bandeiras de Itália e México. Mona foi vista primeiro por uma embarcação pesqueira de pequeno porte, no início da manhã. Um dos marinheiros pisou dentro do veleiro e tomou um susto ao ver o cadáver em estado avançado de decomposição. Pulou no mar e foi nadando depressa para voltar ao seu barco. O pesqueiro ainda tentou rebocar o veleiro, mas o motor não teve potência suficiente. Entrou, então, em contato com a Base Naval de Natal por rádio. Informada da situação, a Marinha acionou um outro barco.

Por volta das 11h, partia do Canto do Mangue, às margens da colônia de pescadores do Rio Potengi, o barco Jó I. No comando, Geraldo Alves, 54, tratado entre os pescadores da região como Geraldinho. Há mais de 30 anos enfrentando os mares, Geraldinho guarda relação estreita com a Marinha e a Capitania dos Portos por ter participado de outros resgates em alto-mar. Em pouco mais de 90 minutos, chegou até o local onde estava o veleiro.

"Assim que cheguei perto, já senti aquele cheiro ruim. Era um odor diferente. No chão estava o corpo, só couro e osso, como se diz. Ainda dava para ver o assoalho um pouco molhado. Era um homem muito grande, alto, aparentava ser pesado", lembra o marinheiro.
Geraldo percorreu todas as áreas do veleiro, que estava envolto em cracas -- indicativo de que passou muito tempo no mar sem manutenção. O mastro quebrado cortou toda a comunicação possível, pois é ali que ficam as antenas de rádio. Os corrimões externos estavam avariados, e fortes cabos de aço inox, estranhamente partidos. "Mas o que importa mesmo é dentro, ali é que fica a cena", conta ele.

Geraldo Alves, pescador que rebocou o veleiro que estava à deriva no litoral de Natal - Arquivo Pessoal - Arquivo Pessoal
Geraldo Alves, pescador que rebocou o veleiro que estava à deriva no litoral de Natal
Imagem: Arquivo Pessoal

Pistas estranhas

Não encontrou sinal algum de inundação na parte interna e todos os equipamentos estavam intactos. Checou a casa de máquinas, com dois motores em linha, e também não viu nada de estranho, muito menos água. Ambos pareciam em perfeito estado mas não ligaram, por aparente falta de combustível.

A farmácia estava zerada, restando apenas alguns pacotes de gaze e esparadrapos. Ainda havia água potável, mas não comida. A louça completa com pratos, talheres e copos para atender diversas pessoas e as janelas das escotilhas quebradas foram fechadas com fita adesiva reforçada.

"O cara era claramente muito experiente no mar. Cortou umas garrafas, estirou uma lona e fez um esquema para captar água. Também foi no bote salva-vidas, onde cabem sete pessoas, fez um corte no espaço exato para que ele não inflasse e tirou toda a comida que fica lá. Ainda colocou a bandeira na popa, o que só se faz quando está perto do porto, acredito que querendo indicar de onde ele ou o barco seriam caso chegasse a ser resgatado. Sabia o que estava fazendo", relatou Geraldo Alves.

Conhecedor da região, onde esteve diversas vezes, o comandante acredita que o veleiro estaria vindo do sul do continente africano, por causa dos ventos que sopram da região em direção ao Nordeste brasileiro.

Alves desconfia, no entanto, que havia mais gente no barco. "Não tenho como saber exatamente o que aconteceu, mas suspeito que tenha acontecido um acidente muito feio, o barco tenha pego ventos fortes demais, algo muito absurdo a ponto de quebrar o mastro. Talvez alguém além dele estivesse junto e tenha caído no mar. Talvez ele tenha levado uma pancada grande e não se recuperou. Esse é um barco grande. Um novo custa pelo menos R$ 1 milhão", especula.

Resgatado, o Mona-Mi F.S. foi rebocado por Geraldinho no seu Jó I até a base naval. Lá, o veleiro foi vasculhado pela Polícia Federal, que abriu um inquérito para investigar o caso, e pelo Itep (Instituto Técnico-Científico de Perícia), órgão estadual.

Veleiro que estava à deriva em Natal - Paulo Nascimento/UOL - Paulo Nascimento/UOL
Veleiro Mona-Mi F.S., ancorado em Natal
Imagem: Paulo Nascimento/UOL

Asilo no Brasil

Durante a análise técnica, acharam pistas que devem ajudar a identificar o marinheiro morto. Além de um aparelho de GPS, documentos do barco, diário de navegação, cartas náuticas, notas fiscais de serviços de reparo, havia um passaporte, já vencido, com a identificação de Stefano Magnani, um italiano de 52 anos nascido em uma pequena comuna de 15 mil habitantes chamada Bellaria-Igea Marina, nas proximidades de Rimini. Ele seria motorista em sua terra, com 1,83m de altura e olhos castanhos.

Em virtude desse indício, a PF acionou o Consulado da Itália em Recife-PE para tentar buscar a família de Magnani na região da Emília-Romanha. O Itep, que ainda prepara o laudo com a causa da morte, aguarda informações para fazer um teste de DNA e tentar identificar o corpo, já que, dadas as condições, não foi possível colher as digitais, tampouco realizar a identificação pela foto do passaporte.

Completa o quadro de mistério do veleiro mais um componente. O Instituto de Perícia confirma que, durante a varredura, foi encontrada no barco uma carta com o que seria um pedido de asilo no Brasil. A Polícia Federal não confirma a existência do documento. Desde sábado, o veleiro está ancorado no Iate Clube de Natal, vizinho ao Comando do 3º Distrito Naval. Ele deverá ficar ali até que o caso seja encerrado.