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'É o fiel que dedura': site de fuxico gospel bomba com pecados dos pastores

A ex-deputada Flordelis beija seu marido, o pastor Anderson do Carmo de Souza, de cuja morte ela é acusada como autora intelectual - Reprodução/Facebook
A ex-deputada Flordelis beija seu marido, o pastor Anderson do Carmo de Souza, de cuja morte ela é acusada como autora intelectual Imagem: Reprodução/Facebook

Rodrigo Bertolotto

Do TAB, em São Paulo

13/05/2022 04h01

Deus é onipresente e onisciente, mas os fofoqueiros também são. Inclusive dentro das igrejas. E os escândalos entre os abençoados vão muito além do assassinato dentro da família da ex-deputada Flordelis ou as acusações de que os pastores Gilmar Santos e Arilton Moura pediam 1 kg de ouro para liberar recursos do Ministério da Educação.

"Os membros ficam muito incomodados quando seu próprio pastor prega uma postura e vive outra. É o fiel que dedura, passa mensagens e áudios. Depois, a gente confirma a história com outros irmãos, entra em contato com a igreja para ver como vão se posicionar e publica. Menos de 10% das polêmicas surgem de uma igreja que denuncia a outra", conta Isael Nascimento, criador do site Fuxico Gospel.

Nascimento, que é batista independente, costumava postar sobre igrejas evangélicas nas redes sociais. Percebeu que as notícias de bastidor eram muito mais compartilhadas e achou uma oportunidade. Os nomes famosos no universo evangélico formavam um sistema estelar totalmente diferente do círculo das celebridades seculares.

Há 11 anos, o radialista alagoano radicado no Rio criou o site de fofoca especializado no público evangélico, ao lado do sobrinho Micael Batista. O sucesso foi tamanho que surgiram vários concorrentes, como Buxixo Gospel e Contei Gospel, fora os perfis de Instagram e YouTube que reproduzem esses mexericos evangélicos, como o Hugo Gospel.

'Eu pequei, eu falhei'

Nascimento já recebeu 15 processos pelas notícias que escreveu, mas só perdeu um porque diz que não recebeu a notificação judicial e faltou à audiência. "Quem entra com ação é líder religioso porque possui departamento jurídico para isso, mesmo que ele esteja errado, só para dar trabalho e pressionar os sites. Os cantores, geralmente, não têm tanto dinheiro para gastar com advogado", conta.

Quando a fofoca é publicada, o primeiro passo do implicado é fechar os comentários de suas redes sociais. Depois vêm as notas negando o fato, algumas com ameaças de levar o caso aos tribunais. Mas, entre uma semana e um mês depois, aparece um vídeo na internet com a confissão e o pedido de perdão. Ao contrário da lógica de "a fila anda" adotada por estrelas "mundanas", mostrar arrependimento e prometer uma mudança depois da "queda" faz parte da liturgia.

fofoca gospel - Divulgação - Divulgação
A youtuber Maju Trindade tuitou "crentaiada fofoqueira" após as primeiras notas sobre ela em site gospel
Imagem: Divulgação

Foi assim, por exemplo, com a renomada pregadora Isa Reis, da igreja Deus Que Sara, que chorou, falou "eu pequei, eu falhei" e pediu "misericórdia" numa gravação publicada em abril, na qual desabafou sobre as circunstâncias de sua separação do bispo Geldi Batista, após 20 anos de casamento. No final do vídeo, prometeu que acionaria seus advogados para interpelar quem publicou "não verdades".

"A gente recebe muitos comentários falando que 'é obra do capeta' e 'não é coisa de crente', mas o que move o site é a indignação e a curiosidade dos evangélicos se perguntando como as lideranças podem agir assim", opina Nascimento.

Atire a primeira pedra

Os babados católicos também invadem as páginas de fofoca, seculares ou religiosas. Foi o caso do padre acusado de atropelar um suposto ladrão de uma paróquia em Santa Cruz do Rio Pardo (SP). Também com as investigações do Ministério Público sobre o padre Robson de Oliveira, acusado de desviar R$ 100 milhões da obra para nova basílica em Trindade (GO) — o STJ (Superior Tribunal de Justiça) acabou por arquivar o processo contra o religioso que aparecia diariamente no canal Rede Vida.

"O diabo é a grande fofoca. Ele sempre está dizendo coisas ruins dos outros porque ele é o mentiroso que quer dividir a Igreja. Fofocar é uma praga pior que a covid-19", disse o papa Francisco durante discurso dominical no Vaticano no final de 2020.

O atual líder máximo do catolicismo foi o primeiro a incentivar que padres e religiosos denunciem episódios de assédio sexual. Durante décadas, os escândalos, incluindo menores de idade, eram tratados como boatos e não eram investigados.

Mas a fala do pontífice também mostra outro papel da fofoca nos meios místicos: o jogo de poder. O próprio Francisco sofre com as intrigas de cardeais opositores, ligados à ala mais conservadora. Da mesma forma, vários líderes evangélicos perdem prestígio à medida que acumulam denúncias, que acirram a concorrência por fiéis.

Pecadinho ou erro grave?

Uma análise teológica da fofoca pode apontar dois pecados em sua prática: o da maledicência (revelar defeitos para ferir a fama de alguém) e o da murmuração (apontar erros para destruir uma amizade). O dilema está criado, pois muitas dessas denúncias querem apontar atitudes contra os mandamentos cristãos, incluindo aí não roubar e não desejar a mulher do próximo.

fofoca gospel - Divulgação/Facebook - Divulgação/Facebook
Pastor Anderson Silva se envolveu em muitas denúncias de outros religiosos evangélicos
Imagem: Divulgação/Facebook

"As igrejas mais recentes são as que dão mais pautas. Talvez seja pela falta de experiência, de hierarquia ou pela popularidade rápida e grande que elas atingem", revela Nascimento.

Um dos religiosos mais assíduos nas controvérsias é o pastor Anderson Silva, líder da igreja Vivo Por Ti. O pastor de rosto tatuado e pré-candidato a deputado distrital em Brasília pelo PL (Partido Liberal), ao qual se filiou na mesma cerimônia que Jair Bolsonaro, já ameaçou divulgar lista de "pastores imorais" e dá ajuda jurídica a fiéis de outras denominações que denunciam casos de assédio sexual.

Em suas lives no YouTube, Silva já acusou vários líderes evangélicos de promiscuidade, o que lhe valeu desde bate-bocas públicos até processos por difamação. E o pastor critica até os pedidos de perdão de seus colegas. "Não confiem em arrependimento roteirizado", disparou ao ver o vídeo de Isa Reis (a do "eu pequei, eu falhei").

Sexo, drogas e música gospel

"Crentaiada fofoqueira", tuitou a influencer Maju Trindade, que se converteu em 2020 acreditando que assim se livraria dos bisbilhoteiros. A youtuber ganhara certa notoriedade quando barrou um ex-namorado de publicar um livro detalhando as relações sexuais com ela. Ela foi batizada e começou a frequentar a igreja Bola de Neve. Só depois descobriu que a futricagem evangélica contava até com sites específicos e que ela seria mais uma personagem retratada neles.

Os "buxixos" envolvem até o consumo de cerveja, o que, na verdade, só é proibido em algumas denominações com costumes mais rígidos. Mas o bafafá de comentários e compartilhamentos já é armado após a divulgação de um vídeo em que aparece geladeira cheia de latinhas na casa de um pastor, ou uma foto de pregadora na piscina brindando com bebida alcoólica.

fofoca gospel - Reprodução/Instagram                             - Reprodução/Instagram
Jotta A é uma cantora de 24 anos e é assídua frequentadora dos sites de fuxico gospel
Imagem: Reprodução/Instagram

A cantora Daniela Araújo, 37, que desde criança grava música cristã, viu sua vida virar do avesso quando vazou um áudio em que ela revelava ser usuária de maconha. Após pedido público de perdão pela "vida dupla" e um ano afastada dos palcos, ela voltou a se apresentar em 2018, tentando recuperar seu público.

Outra cantora mirim que causou escândalo no meio gospel foi Jotta A, que ganhou fama aos 14 anos ao vencer um concurso de calouros do programa de Raul Gil. Em 2020, o então cantor revelou sua bissexualidade e decidiu sair do mercado gospel. Em 2022, ela anunciou ser uma mulher trans, e os sites gospel fizeram vários posts tratando a artista no masculino — só depois se corrigiram.

"Caí em pecado, caí em adultério", desculpou-se em vídeo a cantora gospel Kamila Rozendo depois de conversa de WhatsApp vazada em que fala de um caso com o pastor Luiz Antônio, da Assembleia de Deus, em Guararapes (PE). No áudio original, ela denuncia: "Antigamente era assim: o pastor Joãozinho caiu porque a irmã Mariazinha tentou ele. Hoje em dia, não. Há sérios abusos sexuais e psicológicos dentro da igreja". Nas desculpas, assumiu a culpa e pediu perdão ao pastor, que foi destituído de suas funções.

Entre lobos e ovelhas

"Muita gente acredita que ganhamos dinheiro de uma igreja para denunciar a outra. Mas nos mantemos só com a monetização da audiência pela internet", afirma Nascimento. Em um mês, o site chega a 2,5 milhões de acessos únicos.

Além dos tropeços dos artistas evangélicos, o engajamento aumenta quando a notícia envolve alguma sumidade desse universo. Foi o caso do áudio do apóstolo Agenor Duque, da igreja Plenitude do Trono de Deus, ensinando a só aceitar doações de carros e casas depois de verificar se o bem não está penhorado, com impostos atrasados ou se faz parte de uma herança.

fofoca gospel - Reprodução/Facebook - Reprodução/Facebook
O pastor Agenor Duque, durante pregação para os fiéis de sua igreja
Imagem: Reprodução/Facebook

Em outra conversa, um bispo da igreja Mundial ensina um pastor a evitar que os fiéis fiquem sabendo que aquela sede está devendo o aluguel. "O povo não tem saber nada de dívida: tem que cumprir o dízimo, adorar a Palavra e meter o pé pra casa", diz o religioso. Na sequência, aconselha: "Depois pega um doente e cura para mostrar o poder de Deus. E acabou".

Outro sucesso nos sites de celebridades são as profecias, desde as feitas por Cabo Daciolo, candidato à presidência em 2018, até as da pastora Adriana Oliveira, queridinha de famosas como as funkeiras Ludmilla e Jojo Todynho, por revelar o futuro de quem faz parte de seu rebanho.

Adriana Oliveira só esqueceu de avisar uma de suas seguidoras, a delegada Adriana Belém, sobre seu destino: ser presa com cerca de R$ 1,8 milhão em sua casa, possível propina para liberar máquinas de caça-níquel, segundo operação do Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro.