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A retomada da festa Bembé do Mercado, único candomblé de rua do mundo

Danças durante Bembé do Mercado, festa que celebra a abolição da escravatura em Santo Amaro da Purificação (BA) Imagem: Zeza Maria/UOL

Munah Malek

Colaboração para o TAB, de Santo Amaro da Purificação (BA)

18/05/2022 04h01

Fevereiro passou engasgado e triste no país da festa, mas abril chegou e o Rio de Janeiro cumpriu a promessa de lotar a Sapucaí. A Grande Rio, campeã dos desfiles, abriu a avenida com uma ritualização do culto a Exu.

Quase 2.000 quilômetros distantes dali, em Santo Amaro da Purificação (BA), Sérgio Bispo dos Santos, 36, assistia maravilhado ao desfile das escolas de samba. Aquela festa era sua também. "Eu amei! É uma forma de mostrar que nós temos o nosso lugar. Peço a deus e aos orixás que alguma escola venha de lá para cá e faça um samba-enredo de João de Obá, do Bembé do Mercado", dizia ele, enquanto o zelador do terreiro Ilê Yá Omã, comandado por Mãe Lídia de Oxaguiã, varria o chão do barracão onde, há oitenta anos, celebram-se os cultos às divindades africanas.

Santo Amaro da Purificação possui mais de sessenta terreiros e é palco do único candomblé de rua do mundo, o Bembé do Mercado, manifestação cultural e religiosa realizada dentro do Mercado Central de Santo Amaro e iniciada por João de Obá e seus filhos e filhas de santo, após a abolição da escravatura no Brasil.

Arrumação dos presentes no Terreiro de Pai Pote (Ilê Axé Oju Onirê), antes da saída para o barracão no Mercado, no sábado (14) Imagem: Zeza Maria/UOL

Em toda a Bahia, as festividades com grande público seguiram proibidas até meados de maio. Em Santo Amaro, por exemplo, não aconteceu a Festa da Purificação por dois anos consecutivos. O povo santo santamarense passou a ver com preocupação a ameaça a outra tradicional celebração religiosa que, desde 13 de maio de 1889, faz da cidade — que possui mais de sessenta terreiros — o palco do único candomblé de rua do mundo, o Bembé do Mercado. A celebração só deixou de ser realizada em duas ocasiões por determinação da prefeitura — a comunidade acredita em exercício de racismo e preconceito, pagos pelos orixás com duas tragédias. Depois das proibições, houve um incêndio, em 1958, e uma enchente, em 1989.

Baseada na religiosidade popular de matriz africana, a festa reconhecida como patrimônio imaterial da Bahia e do Brasil é resumida pelos praticantes como um culto às divindades das águas, representadas por Iemanjá e Oxum, sendo também momento de agradecer. Seu principal organizador é José Raimundo Lima Chaves, 56, conhecido como Pai Pote, babalorixá (líder espiritual) da famosa casa de candomblé Ilê Axé Oju Onirê.

"O candomblé tem que acontecer. Todo mundo sabe disso aqui em Santo Amaro, quem é e quem não é de candomblé. Mesmo em 2020, quando, por causa da pandemia, não pudemos bater o candomblé com atabaque e público, teve a liturgia. A gente estava triste e com muito medo da doença, mas não deixamos de fazer em uma estrutura bem pequena e com pouquíssimas pessoas", disse Laís Lima, criadora do documentário "Bembé do Mercado em tempo de pandemia".

Pai Pote (no centro, de amarelo) dentro do barracão, durante o Bembé do Mercado, em Santo Amaro da Purificação (BA) Imagem: Zeza Maria/UOL

No Bembé do Mercado há três momentos ritualísticos: as cerimônias para os ancestrais, o Padê de Exu, o Orô de Iemanjá e Oxum; o Xirê do Mercado; e a entrega dos balios de presente destinados a Iemanjá e a Oxum, na Praia de Itapema.

A reportagem do TAB acompanhou o desenrolar da festa desde a preparação do barracão. Há 23 anos, o artista plástico Babá Geri trocou o trabalho de ornamentação de festas infantis para se dedicar à decoração da cerimônia. "É uma correria doida, mas esse ano vai ser o ano do reencontro de diversas nações de terreiro", explicou.

Ali no barracão ornado com folhas de mariô (dendezeiro), bandeirolas formavam o machado de Xangô em homenagem ao orixá do fundador da festa. Ao lado, em uma casa montada em homenagem a Iemanjá, devotos deixavam, próximo ao aquário de peixes, suas oferendas — perfumes, sabonetes e rosas, principalmente.

Ialorixá Lídia de Oxaguiã, durante o Bembé do Mercado Imagem: Zeza Maria/UOL

Flores, dança, canto

São quase 23h de sábado quando começa uma agitação entre os babalaôs e as ialorixás. Várias vozes formam um coro, cantando "o presente vai chegar", que acontece sob grande comoção e palmas. Filhos de santo entram orgulhosos carregando os pesados cestos com oferendas aos orixás. Primeiro, o balaio para Oxum, repleto de girassóis. Por fim, o balaio para Iemanjá.

O som dos atabaques e cânticos se escuta a dez ruas dali. "Viva João de Obá!", puxa Pai Pote, saudação acompanhada pelos fiéis. Fogos de artifício, lançados a duas ruas dali, brotam no céu. A celebração deste ano é para ele, o fundador da festa.

Pai Pote (ao centro) joga pemba no chão do Mercado Central de Santo Amaro: no ritual do padê, oferta-se comida para Exu para abrir os trabalhos do xirê Imagem: Zeza Maria/UOL

Com duas horas de evento, Mãe Manuela, também do terreiro de Pai Pote, aumenta o tom da voz para entoar "Eparrey Oyá", saudando e chamando ao culto Iansã. A festa esquenta. O povo de dentro do barracão se levanta para entrar na roda no centro.

Quem assiste do lado de fora chega mais perto para ver e também dançar. A alegria mesclada à ira, energia de Iansã, transparece no rosto dos adeptos ao culto ancestral. São merendeiras, donas de casa, pedreiros, pescadores e feirantes, com suas roupas coloridas, feitas especialmente para a ocasião. Parece que dizem "somos fortes e estamos aqui, vivos, de pé".

Enquanto isso, do lado de fora, Babá Gilson, outro dos organizadores da festa, arruma a mesa onde será servido o ajeum (comida) na barraca ao lado, dedicada a Iemanjá.

No mesmo momento o iorubá dá espaço ao quimbundo e o quicongo com o tambor batido com a mão no couro, anunciando o começo da celebração de Nação Angola. O povo de queto, de jeje e banto se dão as mãos e, como em uma festa junina ensaiada, fazem uma grande roda que vai para frente e para trás ao som de "Dandalunda" (Iemanjá).

Miroca, que prepara as comidas que são colocadas no balaio das oferendas Imagem: Zeza Maria/UOL

Quase à uma hora da manhã, acaba o xirê. Sobem ao palco as bandas de samba de roda e a atração dessa edição, Gerônimo. Agora todos juntos, na plateia do palco armado, dançam miudinho na terra que viu brotar o samba.

Fotógrafos, turistas, filhos e filhas de santo do candomblé e da umbanda acompanharam a ritualização que durou mais de cinco horas, sem intervalo. O tom da festa, há dois anos sem público, era de resistência, celebração e renascimento.

Babá Sérgio e, ao fundo, Mãe Manuela Imagem: Zeza Maria/UOL

Oferenda às águas

No domingo, antes das 10h, os fiéis já estão no barracão cantando e dançando. Enquanto isso, pessoas entram lavando as mãos e os presentes com alfazema. São cortados os dois bolos em homenagem às iabás das águas. O topo é colocado em cada balaio e o resto é servido para quem acompanha o rito.

O espumante fecha a celebração e Pai Pote convida a todos ali a brindarem. São tantas pessoas dentro do barracão que é preciso pedir ao microfone para abrirem espaço para que as oferendas possam sair para o caminhão que as levará para a praia, depois de passarem pelas ruas de Santo Amaro, momento no qual outras pessoas deixam suas oferendas.

Caminhão sai pelas ruas de Santo Amaro da Purificação em direção à praia de Itapema para levar as oferendas Imagem: Zeza Maria/UOL

Quase dez ônibus lotados e uma fila de carros seguem o cortejo. As sirenes do carro de bombeiros chegam antes, anunciando que é preciso abrir espaço. O caminhão descia as ruas de barro da pequena vila.

Às 14h, os presentes chegam à praia de Itapema. Mãe Manuela ao microfone puxa novamente o canto. "Ofé Irê, ofé irê" — um canto de contentamento, felicidade e sorte — é entoado sob aplausos das centenas de pessoas de branco que aguardavam esse momento. Gilson, dono de um dos bares da região, afirma nunca ter visto, em edições anteriores, tantas pessoas na celebração.

O presente entra no barquinho e é levado ao mar até desaparecer na imensidão das águas quentes e cristalinas da praia.

Ebomi Nice, da Casa Branca e Pai Gilson (de colar azul) cantam depois de colocado o presente no barco, na praia de Itapema Imagem: Zeza Maria/UOL

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