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Crônica de uma SP gelada: frio de 7ºC gera euforia e frustração pela noite

Júlio César Costa/UOL
Imagem: Júlio César Costa/UOL

Matheus Pichonelli

Colaboração para o TAB, de São Paulo

19/05/2022 10h31

Serena, Luna e Sussa deitaram esparramados em uma calçada da avenida Paulista enquanto Eduardo Borges, adestrador de 48 anos, observava com atenção o termômetro do Conjunto Nacional, a poucos metros dali.

Todas as noites ele leva as golden retrievers para lá. Dessa vez, mantinha fixo um olho nos bichos e outro na torre. Esperava assim a anunciada noite mais fria do ano na quarta-feira (18), quando finalmente superaria a marca registrada numa selfie no último inverno, quando posou sorridente sob um letreiro que apontava 3°C. Não foi dessa vez.

Perto das 23h, Borges não disfarçava o desapontamento. Parecia querer provar na própria pele que falava sério quando descrevia sua tolerância aos ventos gélidos de maio.

O adestrador Eduardo Borges caminha pela av. Paulista, esperando a temperatura baixar mais - Júlio César Costa/UOL - Júlio César Costa/UOL
O adestrador Eduardo Borges caminha pela av. Paulista, esperando a temperatura baixar mais
Imagem: Júlio César Costa/UOL

Com um husky siberiano desenhado no agasalho de flanela, ele jurava ter adquirido, com o tempo de convívio com os cães (de lá se vão duas décadas), tanto os hábitos noturnos quanto a resistência às baixas temperaturas.

A decepção de Borges com a teimosia do termômetro em permanecer próximo dos 9°C — cairia para 7°C ao longo da madrugada — contrastava com a empolgação de Adayana Victoria, 27, ao sentir tanto frio pela primeira vez. Não havia nem 24 horas que a moradora de Bananeiras, no interior da Paraíba, desembarcara na capital paulista, sob uma recepção nada calorosa dos termômetros do aeroporto pela manhã: 6°C.

Adayana Victoria, estudante do interior da Paraiba que nunca passou tanto frio - Júlio César Costa/UOL - Júlio César Costa/UOL
Adayana Victoria, estudante do interior da Paraíba que nunca passou tanto frio
Imagem: Júlio César Costa/UOL

Mesmo assim, ela e o namorado, o empresário Luiz Ramalho, 32, acharam uma boa ideia sair para jantar em meio à friagem. Para valer o passeio, decidiram voltar a pé.

Entre tragos no cigarro eletrônico e selfies em frente ao prédio da Fiesp e da torre da Gazeta, Adayana afirmava que a menor temperatura que já havia testemunhado até então era 17°C. Em sua cidade, brisa é quando o termômetro marca pelo menos o dobro disso.

"Ainda bem que vim preparada", disse, listando o conjunto de indumentárias trazidas na bagagem como reforço. Já era quase meia-noite e uma rajada de vento começou a soprar.

Perto dali, um visitante de Itanhaém, no litoral paulista, observava os filmes em cartaz no Itaú Cinemas quando percebeu que havia chegado um pouco tarde para a última sessão.

O bombeiro aposentado Ruberley da Silva, 51, resolveu conhecer o cinema após levar a namorada Luciane Martins, 47, para jantar. Juntos há cerca de três anos, eles não se intimidaram com o frio. Não seria uma queda brusca de temperatura que impediria o casal de sair de casa e (quase) pegar um cinema tarde da noite (fria) depois de ficar confinados quase dois anos durante a pandemia.

"Não podia sair para nada, só para trabalhar. Nem que quisesse. Não tinha nada aberto. Agora não vou deixar de sair com minha namorada por causa do frio. Até porque aqui dentro está bem quentinho", disse ele.

No fim, o passeio se resumiu a um jantar em uma lanchonete especializada em crepes de formatos e nomes eróticos, como a crepepeka e a crepiroca. "O Otávio Mesquita mostrou esse lugar no programa de domingo e ficamos curiosos para conhecer", explicou Luciane Martins.

Gelo obrigatório

Para quem não estava ali a passeio, passar a noite no frio da rua era necessidade. "Pelo menos não está ventando", conformava-se o músico José Carlos dos Santos, o Kerubyn, que costuma se apresentar todas as noites em frente ao Conjunto Nacional.

Perto dali, a atendente de uma padaria 24 horas da rua Augusta apontava para o outro lado do vidro, onde se via um homem abrigado em uma agência bancária. Era um jeito de dizer que, apesar dos perrengues noturnos, não podia reclamar. "Ontem tinha vários dormindo ali."

Só era possível saber que havia alguém debaixo da montanha de papelão e edredom porque a cobertura se movimentava de tempos em tempos.

O frio mudava a dinâmica para quem fazia o corre dentro e fora daquela padaria. Nascida em Belém (PA), a atendente, que preferiu não se identificar, contou ter se espantado, na noite anterior, quando um cliente perguntou se ela servia conhaque com chocolate. "Nem sabia que isso existia."

Ela já havia notado, porém, que as bebidas quentes ganhavam por algumas jardas a preferência da cerveja, campeã dos dias quentes, entre os clientes insones das últimas noites.

O catador Carlos Emerson dos Santos, 51, se queixava das mudanças de hábito provocadas pelos novos ventos frios: ninguém mais arremessava latinha de cerveja na rua porque ninguém mais andava bebendo na rua.

Vestido com uma jaqueta de couro surrada e apenas uma bermuda, Santos devorava uma coxinha de frango em frente à padaria e perguntava se alguém poderia arrumar para ele um novo cobertor. O antigo ele perdera quando se sentou para almoçar em um restaurante popular.

Fazer companhia ao amigo na agência bancária não era uma opção. Da última vez, ele fora enxotado de lá pela polícia.

Homem em situação de rua atendido por programa social na Sé - Júlio César Costa/UOL - Júlio César Costa/UOL
Homem em situação de rua atendido por programa social na Sé
Imagem: Júlio César Costa/UOL

À sombra da Sé

Santos precisaria caminhar alguns quilômetros para receber uma nova manta e atravessar a noite minimamente aquecido. Na Sé, uma equipe escalada pela prefeitura atendia os moradores em situação de rua em uma tenda gradeada.

Os atendidos perambulavam por ali à sombra da catedral fechada. Os vultos produzidos pelas cobertas entre luzes e sombras conferiam a eles um misto de fantasmagoria com santidade.

No marco zero da cidade, um grupo da igreja Assembleia de Deus, do Parque Bristol, puxava uma oração de mãos dadas, formando um círculo, pedindo proteção contra o frio. Entre os desabrigados estava uma menina de dez anos, levada à rua pela avó. A deterioração do local contrastava com sua animação por ganhar naquele dia um chaveiro de pelúcia cor-de-rosa.

A garota foi uma das muitas pessoas atendidas pelo grupo religioso. Além de orações, eles distribuíram roupas, pães, sopas, água e copos de chocolate quente para quem pedisse — inclusive aos garis da região.

Garis recebem chocolate quente em ação social de grupo evangélico - Júlio César Costa/UOL - Júlio César Costa/UOL
Garis recebem chocolate quente em ação social de evangélicos da Assembleia de Deus, na Sé
Imagem: Júlio César Costa/UOL

Um dos organizadores da ação era Willians Soares, porteiro de 39 anos que trabalhou das 7h às 17h do dia anterior e de lá seguiu para a igreja a fim de preparar os mantimentos. Ele e os companheiros só deixaram a praça por volta das 3h.

Em frente à tenda da prefeitura, um homem dormia completamente encoberto em frente a uma ambulância. O veículo estava de prontidão, caso alguém passasse mal em decorrência do frio. Uma mulher de aparentes 40 anos precisou ser levada ao hospital no início da noite devido a tremores, um dos muitos sinais de hipotermia, segundo um funcionário relatou. Ninguém soube informar se ela passava bem.

Apesar das cenas produzidas pelo combo frio + pobreza, nas ruas de São Paulo, os cafés, bares e padarias pareciam seguir um curso relativamente normal. A diferença é que, dessa vez, as mesas e cadeiras das áreas externas estavam montadas para praticamente ninguém. Dentro, à exceção dos gorros e cachecóis, tudo se assemelhava a uma noite comum na metrópole. Academias de ginástica ficaram abertas até perto da meia-noite para atender a cidade que, segundo o clichê, nunca dorme.

Trabalho noturno

Do lado de fora, além de pedintes, a noite era apenas dos entregadores de app e funcionários da prefeitura escalados para tampar (ou abrir) buracos pelas vias ou acelerar os serviços de zeladoria.

As horas frias eram também dos comerciantes que veem no frio uma oportunidade. A chance de São Paulo atravessar uma madrugada sibérica podia ser adivinhada, logo no início da noite, pelo movimento ao redor da barraca da artesã Tereza de Jesus Neves, 72, fazedora de toucas e cachecóis que nos últimos dias substituíram, em seu mostruário, pulseiras e outras peças de couro nas proximidades do Parque Trianon. As vendas dobraram desde a chegada da frente fria.

Tereza de Jesus Neves, que faz e vende toucas e cachecóis perto do Parque Trianon, em São Paulo - Júlio César Costa/UOL - Júlio César Costa/UOL
Tereza de Jesus Neves, que faz e vende toucas e cachecóis perto do Parque Trianon, em São Paulo
Imagem: Júlio César Costa/UOL

De gorro na cabeça e máscara no queixo, ela intercalava café e cigarro para encarar a jornada no sereno.

Horas depois, no mesmo local, Francisco Baldino, gari de 68 anos, refazia pela última vez seu trajeto catando sujeira pela avenida Paulista. O frio não o assusta. É seu conhecido há mais de uma década, desde que começou a trabalhar ali. "Lembra do Mc Piu Piu do Gugu?", disse ele, apontando para um homem em situação de rua abrigado debaixo de uma banca de jornal. "Melhorou a saúde, Piu Piu?", ele pergunta ao amigo.

A ex-atração do SBT responde que sim. Era gripe?, alguém quer saber. "Não, era droga."

Antes de fechar o expediente, perto das 5h, Baldino se despede de Dilu Araújo (Ou Dilu Ciosa, para seus seguidores no Instagram), agitadora cultural que também finalizava o expediente em uma balada da rua Augusta.

Com duas calças, touca colorida e meias de pelúcia, ela dizia estar acostumada ao frio. "Inclusive gosto", dizia, sem tirar o olho do corredor da avenida por onde já surgiam os primeiros ônibus do dia seguinte. Um deles a levaria para casa.

Dilu Araujo, que trabalha em uma balada da rua Augusta - Júlio César Costa/UOL - Júlio César Costa/UOL
Dilu Araujo, que trabalha em uma balada da rua Augusta
Imagem: Júlio César Costa/UOL

Do outro lado da rua, o comerciante Marcos Santos, de pé desde a 1h, montava seu carrinho à entrada do metrô Consolação. Com quatro blusas (duas camisas e duas jaquetas), o comerciante nascido no Piauí deixava a postos uma garrafa extra de chocolate quente, sucesso de vendas desde que a temperatura resolveu despencar. Cada copo custa R$ 3. É a primeira coisa que clientes procuram ao descer da estação e maldizer o frio.

Com essa temperatura, diz o comerciante de 40 anos, é mais custoso levantar. Mas é também a época que seus bolos, tortas e bebidas mais vendem. "Nessa época o povo tem mais fome."