'Não existimos para eles': comunidade critica mineração na Serra do Curral

Da janela da casa do artista Nilo Zack, 35, no bairro Taquaril, na região leste de Belo Horizonte, vê-se o panorama da Serra do Curral. Embora esverdeado e repleto de espécies vegetais do Cerrado e da Mata Atlântica, é possível observar também, no topo da serra, próximo à ocupação Terra Nossa, a passagem contínua de caminhões carregados de minério da empresa Gute Sicht, que desde 2020 atua na região.
Uma das investigadas pela Operação Poeira Vermelha, deflagrada pela Polícia Federal em julho de 2020, a mineradora foi acusada de extrair minérios ilegalmente, em suposto conluio com a Fleurs Mineração, que também opera nas proximidades. Entre as instalações dessas mineradoras, a Tamisa (Taquaril Mineração) pretende implantar seu empreendimento, escavando 101 hectares da serra que margeia a capital mineira.
Em uma reunião virtual que terminou na madrugada de 30 de abril, às 3h14, o Copam (Conselho Estadual de Política Ambiental) concedeu à mineradora licença para iniciar o projeto.
Zack estava entre os mais de 280 inscritos para se pronunciar na audiência. Às 8h da manhã, cadastrou-se na plataforma online em que aconteceria a reunião. Às 16h, recebeu a senha que lhe deu direito à palavra — cada inscrito poderia falar durante 5 minutos.
Quando o relógio bateu meia-noite e meia, sua vez finalmente chegou. Ele relatou episódios de intimidação aos moradores por parte de seguranças das mineradoras, que chegaram a disparar tiros para cima para afastar quem se aproximava do terreno das empresas. Como os conselheiros com direito a voto mantiveram suas câmeras desligadas, Zack desconfia que seus argumentos não foram levados em consideração.
"Depois da minha fala, não aguentei esperar o resultado e fui dormir. Às 6h da manhã recebi a mensagem de uma amiga: 'perdemos'. Nos sentimos incapazes", lamenta.
Linha de frente
Em 1° de agosto de 1986, quando os primeiros moradores chegavam ao Taquaril, lá estava Edneia Aparecida de Souza, coordenando grupos que, a enxadadas, e respaldados pelo governo do estado, abriam as ruas do novo bairro da capital. Hoje com 58 anos, mãe e avó, a líder comunitária segue na linha de frente, ora auxiliando na construção de casas para os mais pobres, ora coletando e distribuindo cestas básicas.
Um dia antes da fatídica votação do Copam que autorizou a mineradora, ela se viu envolvida numa cena digna de "Bacurau", filme de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles estrelado por Sônia Braga.
Edneia transitava pela Serra do Curral, apontando a uma equipe de TV o local onde a Tamisa quer minerar. Um homem que dirigia uma possante moto de trilha passou a rondar o grupo. Não era a primeira vez que algo assim acontecia: quando chegam perto dos terrenos das mineradoras, Edneia e outros moradores do Taquaril dizem que são fotografados por homens sem identificação de empresas, mas com revólveres bem à vista. O motoqueiro enfim parou a moto, chamou Edneia pelo nome e partiu logo em seguida.
"Não sei quem são ou para quem trabalham. Mas eles estão dando a entender que sabem quem é a gente", considera a líder comunitária.
A intimidação não a impediu de participar da reunião do Copam. "Tomei café, almocei e jantei durante a audiência. Na minha vez de falar, disse que aquela discussão não valia a pena: esse povo não precisa de autorização. Eles já estão minerando", diz, referindo-se às atividades da Gute, da Fleurs e da Empabra, outra empresa que extrai minérios há poucos quilômetros do Taquaril.
À exceção da Empabra, que chegou a se reunir com moradores, nenhuma das mineradoras buscou dialogar com quem vive nas cercanias dos empreendimentos, garante Edneia.
"A gente não faz diferença para eles. Independentemente do que falamos na reunião, os votos já estavam decididos. Nós não existimos para essas pessoas."
Onde orar agora
Pelos impactos que causam no Taquaril, aos moradores parece evidente que as mineradoras deveriam consultar a comunidade, propondo contrapartidas. Entre os impactos, está a poeira que paira sobre a região.
"Ninguém aguenta, a minha menina está adoecendo, teve bronquite. Minha pele encheu de brotoejas", reclama uma mulher de 34 anos, mãe de uma criança de 8, e que preferiu não se identificar, por medo dos homens que rondam a área. Na quarta (11), quando o TAB esteve no Taquaril, ela relatou ter sido ameaçada por um desses motoqueiros.
Há também estrondos e tremores de terra madrugada adentro. Onofre Correia, 66, mora há mais de 30 anos no Taquaril, quando o bairro era "verde, tranquilo e sem poeira". Já hoje, "é zueira a noite inteira". Ele admite que desistiu de varrer a frente de casa, nunca abandonada pelo tom avermelhado dos resíduos de minério — e conta que o fluxo de caminhões jamais é interrompido, atrapalhando o sono da vizinhança.
A mineração interfere no lazer e inclusive na fé dos moradores. A evangélica Maria Nalva, 55, subia a serra com frequência para orar junto de outros devotos. Há cerca de um mês, porém, seu grupo foi cercado por carros que impediram a passagem. O pastor tentou convencer os homens a deixá-los prosseguir, mas não houve conversa, e os religiosos bateram em retirada.
Nalva inscreveu um grupo de 20 vizinhas para expor a indignação coletiva na reunião do Copam, mas, por problemas técnicos, elas não conseguiram acessar a sala virtual.
Gilson Freitas, 46, morador da ocupação Terra Nossa, também costumava caminhar pela serra, mas por outra razão. Ia à cata de frutos e sementes como gabiroba, murici e canela-de-ema, que, além de comestíveis, têm incontáveis propriedades medicinais. O extrativismo sustentável é uma tradição antiga em sua família, e como sua avó já está com 98 anos, cabe a ele recolher os vegetais. A intenção de ampliar a mineração por ali, contudo, barrou suas incursões pela mata.
Outra preocupação diz respeito a toda a cidade de Belo Horizonte. Como a Tamisa reconhece em seus estudos de impacto ambiental, o terreno que ela pretende minerar está acima de uma adutora que capta água no Rio das Velhas, responsável por suprir 40% da demanda hídrica da região metropolitana da capital.
"Se um acidente ocorrer, a lama da mineração poderá danificar a adutora, o que deixaria parte da cidade sem água. Na audiência pública, o representante da mineradora disse que não há risco. Mas qual obra de engenharia não tem risco?", questiona o ambientalista Felipe Gomes, um dos articuladores da mobilização #TiraOPédaMinhaSerra, crítica à mineração na Serra do Curral.
Em suas páginas na internet, a Tamisa trata como "boato" a possibilidade aventada por Gomes. O risco à segurança hídrica, no entanto, foi listado pela Prefeitura de Belo Horizonte em uma ação judicial que pede a suspensão da licença concedida à empresa. Indagada se a administração municipal se baseou em boatos, a Tamisa não se pronunciou.
Quanto à suposta mineração ilegal na serra, a Gute afirmou que "não realiza e nunca realizou exploração mineral sem as autorizações dos órgãos responsáveis". Empabra e Fleurs não retornaram os contatos da reportagem. Nenhuma das quatro empresas, incluindo a Tamisa, respondeu às questões do TAB sobre a atuação de seguranças armados na região ou sobre a busca de interlocução com as comunidades do entorno.
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