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'Era casinha, mas era minha': após incêndio, moradores lutam para recomeçar

O pescador José Carlos de Abreu, que só descobriu que tinha perdido a casa depois do trabalho - Wagner Oliveira/UOL
O pescador José Carlos de Abreu, que só descobriu que tinha perdido a casa depois do trabalho
Imagem: Wagner Oliveira/UOL

Wagner Oliveira

Colaboração para o TAB, de Recife

10/05/2022 09h01

Grávida de 17 semanas, Moara Costa, 26, e o companheiro Eduardo Pinho, 30, olhavam desolados o lugar onde ficava a casa na qual viviam com o filho de 7 anos. Não sobrou nada. "Olha ali as molas do meu colchão", mostrou ela de cima da ponte Governador Paulo Guerra, apontando o item queimado.

Do outro lado do muro, o estacionamento de um restaurante de alto padrão estava lotado. Para muita gente, domingo (8) foi dia de festa. Enquanto aquelas famílias comemoravam o Dia das Mães, os moradores das palafitas destruídas num incêndio na sexta-feira (6) não sabiam onde iriam dormir. Comer, então, só com o que recebessem de doação.

Quem mora sobre a maré é muitas vezes invisível para a maior parte da população do Recife. Alguns passavam de carro, olhavam e apontavam o local da tragédia que ganhou notoriedade pelas redes sociais. Enquanto isso, alguns moradores conversavam na cabeceira da ponte. Buscavam forças para seguir em frente. Muitos deles nem documento têm mais. Tudo virou cinzas.

As casas feitas sobre pedaços de madeira ficam às margens da Bacia do Pina, na zona sul do Recife. As primeiras chamas do incêndio que destruiu cerca de 50 palafitas foram vistas de longe por volta das 16h. O fogo se espalhou rapidamente. Por muito pouco, não acabou com todos os barracos.

Dez viaturas do Corpo de Bombeiros foram encaminhadas para o local. Até agora, ninguém sabe a origem do fogo. A perícia criminal ainda não foi feita e não há previsão para ser realizada. Não houve mortes nem registro de feridos, mas os prejuízos são grandes. Uma corrente de solidariedade foi formada para ajudar as famílias que perderam tudo.

"Eu tinha saído para buscar meu filho na escola. Com 15 minutos, minha mãe telefonou dizendo que tava tudo pegando fogo. Voltei desesperada, o fogo já estava muito alto, destruindo tudo", contou Moara, que é dona de casa.

O casal Eduardo Pinho e Moara Costa, que perderam a casa no incêndio das palafitas na zona sul do Recife, na sexta-feira (6) - Wagner Oliveira/UOL - Wagner Oliveira/UOL
O casal Eduardo Pinho e Moara Costa, que perderam a casa no incêndio
Imagem: Wagner Oliveira/UOL

A situação da família não permite que ela e o companheiro, que trabalha vendendo água nos sinais de trânsito, comprem o que o bebê vai precisar. "Não temos nem lugar para dormir e eu perdi as coisinhas que já tinha ganhado", afirmou.

Na tarde do domingo (8), o cheiro de queimado ainda era forte na comunidade. Os que perderam suas casas já tinham saído dali. Buscaram abrigo em casa de parentes e amigos. Foi um triste Dia das Mães para Moara. "Além da minha casa, a da minha mãe também foi toda destruída. Nunca pensei que um dia a gente fosse passar por isso."

Em 2021, o casal e todas as demais 140 famílias moradoras da área foram cadastradas por equipes da prefeitura para receber uma indenização.

O pescador José Carlos de Abreu, 65, não conteve as lágrimas ao chegar à comunidade. Morador das palafitas do Pina há mais de 10 anos, ele só descobriu ontem o que havia acontecido. "Estava pescando em alto-mar e só voltei para casa agora. Perdi tudo. Só tenho essa roupa que está no meu corpo. Até a pescaria foi fraca dessa vez. Era uma casinha de dois vãos, mas era minha. E agora?", indagou.

Quem também ficou sem ter onde morar foi o pescador José Gilson Nascimento, 64. O barraco dele não foi atingido pelas chamas, mas teve que ser derrubado para que os bombeiros e voluntários impedissem que o fogo chegasse a outras casas. "Vou ter que levantar minha casa de novo. Além disso, perdi tudo porque minhas coisas foram jogadas dentro da água. Sobrou somente uma geladeira velha."

O pescador José Gilson Nascimento teve de derrubar o próprio barraco para impedir que o fogo se alastrasse para outras casas, no Recife - Wagner Oliveira/UOL - Wagner Oliveira/UOL
O pescador José Gilson Nascimento teve de derrubar o próprio barraco para impedir que o fogo se alastrasse para outras casas
Imagem: Wagner Oliveira/UOL

Ajuda aos desabrigados

Um projeto já existente nas palafitas do Pina tem sido também ponto de apoio para quem tenta recomeçar a vida. A Cozinha Solidária, mantida por meio de doações, distribuía alimentos duas vezes por semana para os moradores das palafitas. Depois do incêndio na localidade, a entrega de comida passou a ser diária. No domingo, foi servido macarrão com salsicha na hora do almoço e sopa com pão no horário do jantar. "Tem chegado comida e roupas, mas a gente precisa de material para levantar as casas que foram queimadas", declarou a coordenadora do projeto, Ivanise Serafim.

Ainda na tarde do domingo, algumas pessoas chegaram à sede da Cozinha Solidária levando doações. Moradores buscavam ali uma peça de roupa para si ou para algum familiar. "É aqui nesse píer da Cozinha

Solidária que algumas pessoas estão dormindo. Minha família passou a noite aqui. Ninguém quer ir para um lugar pior. Estão querendo pagar uma indenização muito baixa a cada família. A gente não vai aceitar isso", reforçou Moara.

As palafitas incendiadas do Pina, no Recife - Wagner Oliveira/UOL - Wagner Oliveira/UOL
Imagem: Wagner Oliveira/UOL

Reunião na prefeitura

Após uma manhã de protestos em frente ao prédio da Prefeitura do Recife, uma comissão formada por moradores e lideranças locais foi recebida a segunda-feira (9) por representantes da gestão municipal. No encontro, foi acertado o pagamento do auxílio-pecúnia no valor de R$ 1.500 e um auxílio-moradia de R$ 200 às famílias atingidas pelo incêndio.

Nesta terça-feira, uma nova reunião será realizada para que o cadastro dos moradores seja checado. O objetivo é evitar que pessoas de outras comunidades recebam o que está sendo destinado às vítimas do incêndio, como as cestas básicas, por exemplo.

A prefeitura informou também que oferece colchões e abrigo às famílias que perderam suas casas. Ainda sem data definida, a gestão municipal vai realizar um mutirão para emissão de documentos — quase todos os moradores perderam os seus para as chamas.