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Em 1930, cangaceiros já 'tatuavam' iniciais dos nomes no rosto de mulheres

Capa de jornal exibe rosto de mulher "tatuado" com iniciais de cangaceiro - Reprodução
Capa de jornal exibe rosto de mulher 'tatuado' com iniciais de cangaceiro Imagem: Reprodução

Adriana Negreiros

Colaboração para o TAB, do Porto (Portugal)

27/05/2022 04h01

Depois de esquentar as placas de ferro de marcar boi no fogo em brasa, o cangaceiro José Baiano pressionou-as contra a face de Maria Marques. O objeto incandescente fez liberar um forte cheiro de carne queimada e carimbou, para sempre, as iniciais do nome do homem no rosto de Maria: JB.

Aquele era o início de 1932 — nove décadas antes de, na cidade paulista de Taubaté, um homem tatuar o próprio nome, Gabriel Coelho, no rosto da ex-namorada, uma moça de 18 anos recém-completados.

Maria morava em Canindé, cidade sergipana às margens do rio São Francisco, e não tinha nada com Zé Baiano, como era conhecido um dos mais violentos integrantes do bando de Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião. Ocorre que ela possuía um irmão, Vicente, que trabalhava para as forças volantes, os comandos de caça aos cangaceiros. Não se sabe se os irmãos mantinham boas relações ou se ela aprovava a atuação de Vicente como policial, que era no mínimo controversa: certo dia, para pressionar a mãe de Zé Baiano a fornecer informações sobre o filho, aplicou-lhe uma surra.

O fato é que, quando soube da agressão à mãe, Zé Baiano decidiu retribuir a violência da mesma maneira — machucando, em vez do próprio Vicente, alguma mulher ligada a ele. Foi assim que Maria, cujo único "erro" era ser irmã de Vicente Marques, teve o rosto carimbado com as iniciais do nome de um cangaceiro. Numa foto de Maria já idosa, ela tem semblante de dor, com a testa franzida, os lábios finos recolhidos sobre uma boca encovada, o olhar assustado e as letras JB eternizadas na lateral do rosto — em posição tão difícil de esconder quanto a tatuagem da jovem de 18 anos de Taubaté.

José Baiano - Reprodução - Reprodução
Os cangaceiros Moreno, José Baiano (no centro) e Zé Sereno (à dir.)
Imagem: Reprodução

Ferro, chicotes e palmatórias

No cangaço dos anos 1930, no sertão do Nordeste brasileiro, as marcas feitas em mulheres tinham caráter punitivo e controlador. Castigava-se a mulher por atitudes cometidas por seus irmãos, pai, filhos ou marido. Muitas vezes, em vez de se voltar contra um inimigo que o denunciara à polícia, o cangaceiro preferia marcar, espancar ou estuprar a mulher, filha ou mãe do delator. Mulheres eram tidas como propriedade masculina; considerava-se que uma jovem marcada por ferro ou pelo estupro feria a honra dos homens aos quais, conforme o pensamento corrente, pertenciam.

Meninas, jovens e idosas também eram penalizadas por práticas que, aos olhos dos bandoleiros de Lampião, soavam-lhes inadequadas. Moda disseminada pelas estrelas do cinema da época, o corte de cabelo à la garçonne — curtinho, como o da atriz norte-americana Louise Brooks — era tido como infração punível com marca de ferro quente, além de açoitamento com chicotes reforçados na ponta com sola dupla e crivado de tachas. Também podiam ser espancadas com palmatórias, como aquela "talhada em madeira tosca, sendo grande e grossa" — segundo a edição de 24 de abril de 1931 do jornal "A Noite", tal arma pertencia ao cangaceiro Volta Seca, à época com apenas 13 anos.

A notícia do jornal "A Noite" fazia parte de uma ampla cobertura da imprensa do Rio de Janeiro sobre uma espécie de turnê dos cangaceiros pelo interior da Bahia entre abril e maio de 1931. Aliado de políticos, coronéis e integrantes dos altos comandos de segurança do Nordeste, Lampião tocava o terror impunemente, tendo que lidar, eventualmente, com rivais e delatores. No dia 3 de maio daquele ano, o "Jornal do Brasil" relatou parte da batalha do Rei do Cangaço contra seus desafetos. "Lampião continua depredando o Nordeste baiano, saqueando, tendo desvirginado dezessete moças, ferrando faces diversas."

Em nome dos bons costumes

Além do rosto, as marcas de ferro quente podiam ser feitas nas coxas, nádegas e virilhas das mulheres que, por alguma razão aleatória, fossem condenadas pelo tribunal de Lampião e seus asseclas. De todos, Zé Baiano era, ao que indicam os relatos chegados aos tempos atuais, o mais afeito à tortura em questão. Depois de ferrar Maria Marques, a irmã do volante Vicente, Baiano — que também atendia pela alcunha de "Pantera Negra dos Sertões" — dirigiu-se à zona de prostituição da pequena cidade sergipana.

Lá, encontrou Anísia, jovem trabalhadora do sexo que tinha, na carteira de clientes, diversos policiais. Pelo simples fato de ser a mais requisitada entre os adversários, Baiano retalhou o cabelo da moça à faca e queimou-a em ambas as faces. Na sequência, puniu outra mulher, Isaura, por motivo parecido. Esposa de um soldado, recebeu cinco carimbos indeléveis, em diferentes partes do corpo.

Em junho daquele ano, ainda repercutindo a mais recente expedição macabra dos cangaceiros pelo sertão da Bahia, o jornal "A Noite" chocou os leitores com a foto, na primeira página, de Maria Felismina, da localidade de Várzea da Ema, na região de Santo Antônio da Glória. Na imagem, Felismina aparece de perfil, com o carimbo JB no rosto, "ferrada na face por ter os cabelos cortados", segundo a legenda que acompanhava o retrato. Expressiva, a inscrição na bochecha de Felismina é motivo de dúvidas a respeito de sua autenticidade. Há quem considere ter havido, à época, manipulação da imagem, de modo a tornar as letras JB mais fortes — embora o jornal tivesse atribuído a violência ao próprio Lampião, e não ao dono das placas de ferro.

Maria Marques - Reprodução - Reprodução
Maria Marques
Imagem: Reprodução

A suspeita em torno de possível retoque na foto de Felismina serve de argumento, até hoje, para os defensores das táticas dos cangaceiros — especialmente para os que afirmam haver exageros nos relatos de violência contra as mulheres no bando. Em 2022, ainda é possível ler posts em redes sociais e blogs sobre o cangaço com frases de admiração dirigidas a tipos como Zé Baiano — que matou a mulher, Lídia, a pedradas e pauladas, após descobrir uma traição. Há quem o celebre por ter sido moralmente conservador, considerando suas ações enérgicas simples manifestação de apreço pelo respeito e bons costumes.

Noventa anos depois de Maria Marques ter o rosto marcado a ferro quente por um cangaceiro no sertão da Bahia, pouco mudou.