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Fachada que o pichador respeita: as origens dos grafites que imitam pedra

Alex Oliveira da Silva (à esq.) e Vagner Portella, sócios da Akemi Aerocolor, na frente do muro da igreja Florescer para as Nações, na zona sul de São Paulo - Gsé Silva/UOL
Alex Oliveira da Silva (à esq.) e Vagner Portella, sócios da Akemi Aerocolor, na frente do muro da igreja Florescer para as Nações, na zona sul de São Paulo
Imagem: Gsé Silva/UOL

Cíntia Marcucci

Colaboração para o TAB, de São Paulo

04/06/2022 04h01

No meio do caminho, pode olhar, vai ter não uma, mas várias pedras. Está cheio de pedra desenhada ou pintada na parede. Elas aparecem em todas as cores, sozinhas em paredões inteiros, em residências, na fachada de comércios, nas portas de aço, principalmente em bairros mais afastados do centro de cidades como São Paulo.

Os desenhos que imitam pedra existem há décadas e são daquele tipo de onipresença que gera curiosidade. Quando foi que decidiram "empedrar" os muros com tinta?

"Todo dia eu passava na frente de um muro desenhado aqui perto e vi que nunca pichavam. Pensei: essa é a solução para manter a fachada sempre em ordem", conta Kátia Nisimura, pastora da igreja neopentecostal Florescer para as Nações. Localizado no bairro Jardim Susana, na zona sul da capital paulista, o tempo estava fechado em 2020 quando Kátia e seu marido, o também pastor Eduardo Nisimura, começaram a receber mensagens e ligações perguntando se tinham mudado de endereço. O motivo das mensagens eram os muros, que estavam cobertos de pichações.

Conversaram com o proprietário, que autorizou que eles cobrissem imóvel com desenhos. "Quando a gente chegou, sugerimos essa técnica do fundo que imita pedras para todo o muro lateral, pois eles queriam algo que não destoasse muito da parte de cima do imóvel, em tons de marrom, e na frente desenhamos também a cerejeira florida que é símbolo da igreja", conta Wagner Portela, sócio de Alex Oliveira da Silva na Akemi Aerocolor, que usa a técnica da aerografia para fazer muros e painéis desenhados. Eles já tinham grafitado a porta de enrolar da entrada com a árvore símbolo da igreja.

Eduardo e Kátia Nisimura, donos da igreja Florescer para as Nações, cuja fachada tem grafites que simulam parede de pedra, na zona sul de São Paulo - Gsé Silva/UOL - Gsé Silva/UOL
Eduardo e Kátia Nisimura, da igreja Florescer para as Nações, cuja fachada tem grafites que simulam pedra
Imagem: Gsé Silva/UOL

Por que rolam as pedras?

As pinturas de pedra são uma expressão artística democrática — não identificam os espaços. Ou seja, não dá pra dizer o que são aqueles imóveis só por terem as pedras desenhadas. Marcam muros de residências, igrejas, consultórios de dentista, escritórios de contabilidade, supermercados, bares. E empregam muitos pintores e artistas periféricos que estão começando no grafite.

Primeiro se faz o fundo na cor de base. Depois, os desenhos dos contornos das pedras, a mão livre. Os sombreados e degradês são adicionados na sequência e, caso haja mais desenhos — como a cerejeira da igreja —, ele é desenhado por último sobre o fundo empedrado.

O que há em comum é mesmo a necessidade de proteger a fachada. "Quem contrata quer inibir pichações e há um respeito dos pichadores pelo desenho, pelo trabalho dos grafiteiros, principalmente se ele estiver assinado pelo artista que fez", comenta Adriano AZ, do AZ Studio, autor de um enorme muro de pedras azuis na avenida Vereador José Diniz, no Brooklin.

Muro grafitado imitando pedra na av. Senador Teotônio Vilela: o grafiteiro assina e divulga o celular - Cíntia Marcucci/UOL - Cíntia Marcucci/UOL
Muro grafitado imitando pedra na av. Senador Teotônio Vilela: o grafiteiro assina e divulga o celular
Imagem: Cíntia Marcucci/UOL

É comum as pessoas acharem que lá é uma distribuidora de água ou mesmo uma empresa de serviços de piscina, mas o endereço é sede de um "instituto de direito". A reportagem do TAB tentou contato com a instituição, mas não teve retorno.

Adriano AZ está hoje em um projeto que leva a arte de rua para os muros de Parauapebas, no Pará, mas conta que por 20 anos pintou fachadas com pedras e outros grafites em São Paulo.

"Esse estilo é tão antigo quanto a própria arte do grafite. São desenhos fáceis de fazer. Grafiteiros iniciantes conseguem desenrolar mesmo sem saber desenhar outras coisas e o contraste dos riscos claros e escuros é o que inibe as pichações."

Alex, da Akemi, concorda. Ele trabalha com grafite desde 1996, e com o Wagner há mais de 20 anos. "[Naquela época] já havia esses desenhos. E a gente sabe que a pichação nasceu como forma de protesto, mas hoje nem sempre é esse o motivo de escrever nos muros. O pessoal respeita, principalmente se o artista for da região, como a gente, que atua mais na zona sul."

Para quem contrata, na hora o grafite pode sair mais caro que uma tinta simples, mas a economia vem na quantidade de vezes que não será preciso pintar para cobrir pichações. Elas aparecem menos no meio dos riscos e cores das pedras desenhadas — o que o pichador quer, seja para protestar ou não, é que seu escrito apareça.

O odontologista Rogério Correa sabe disso. Seu consultório, em uma sobreloja da avenida Teotônio Villela, na Vila São José, já teve quatro desenhos diferentes em 13 anos. "Esse é o primeiro que tem as pedras no fundo. E está há mais de quatro anos intacto, mas o pedaço da lateral do toldo que não tinha desenho era sempre pichado até eu usar desenhos lá também. Foi o grafiteiro que sugeriu as pedras com o desenho de dente por cima e um amigo de outra região me alertou que eu precisava contratar artistas locais para o grafite ser respeitado."

Rogério conta que já está pensando em atualizar o desenho. "Quando a gente coloca uma arte nova, chama atenção pro nosso negócio e aí também faz o mercado da arte de rua girar".

Porta de aço pintada imitando pedras na Estrada Ecoturística de Parelheiros, em São Paulo - Cíntia Marcucci/UOL - Cíntia Marcucci/UOL
Porta de aço pintada imitando pedras na Estrada Ecoturística de Parelheiros, em São Paulo
Imagem: Cíntia Marcucci/UOL

Originais de fábrica

Grafites de pedra imitam cascalho, pedra mineira, pedra bolão, portuguesa (igual a de calçadas), marroada, pedra-ferro e os seixos. O desenho, claro, sai bem mais barato que um revestimento verdadeiro.

Mas aí está a contradição: muros de pedra naturais são mais difíceis de encontrar hoje, pois muitos já estão coloridos com tintas. Acabam virando muro de pedra pintada para proteger das pichações. Retirar a tinta spray da pedra é possível, mas mais trabalhoso e mais caro que com a pintura. É preciso dissolver os riscos do spray com um produto específico em um processo bem lento e manual, esperar a ação do produto, esfregar cada cantinho e depois dar um banho com água em jato de pressão.

Na av. Nossa Senhora do Sabará, pedras naturais pintadas de várias cores, na parte de baixo; nos sobrelojas, a fachada grafitada imita pedra - Gsé Silva/UOL - Gsé Silva/UOL
Na av. Nossa Senhora do Sabará, pedras naturais pintadas de várias cores, na parte de baixo; nas sobrelojas, a fachada grafitada imita pedra
Imagem: Gsé Silva/UOL

As casas com muros de pedra são também representantes de uma São Paulo que quase não existe mais — a dos pisos de caquinho, dos portões de ferro desenhado, dos quintais com árvores e direito ao sol.