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'Acabou a guerra': a praça Princesa Isabel após dispersão da 'cracolândia'

Vazia e com áreas cercadas por grades, a praça Princesa Isabel vive dias de marasmo, com comerciantes à espera de clientes e policiais instalados para impedir que o "fluxo" retorne - André Porto/UOL
Vazia e com áreas cercadas por grades, a praça Princesa Isabel vive dias de marasmo, com comerciantes à espera de clientes e policiais instalados para impedir que o 'fluxo' retorne
Imagem: André Porto/UOL

Sibele Oliveira

Colaboração para o TAB, de São Paulo

17/06/2022 04h01

Poucos pedestres caminham nas calçadas que contornam a praça Princesa Isabel, no centro de São Paulo. Vazia, destaca-se nela apenas o monumento a Duque de Caxias, patrono do exército brasileiro, montado num cavalo com a espada desembainhada para o alto, em posição de combate. Imagem que lembra o confronto que aconteceu ali um mês atrás. De um lado a Polícia Civil e a Guarda Municipal; de outro, traficantes e usuários de drogas que tinham transformado a praça na "nova cracolândia".

Dessa batalha que culminou na expulsão dos últimos, restaram apenas vestígios. Cobertores no chão, pedaços de corda, uma correia de chinelo, garrafas, tampinhas, colheres entortadas, isqueiros e maços de cigarro vazios. A estadia deles durou menos de dois meses e se encerrou no dia 11 de maio — depois, eles levaram o "fluxo" para a rua Helvétia. Policiais permanecem na praça, agora cercada com grades, para impedir que retornem. Nesta terça-feira (14), a Câmara Municipal aprovou projeto de lei para transformar a praça num parque.

Entretanto, a sensação de medo ainda paira no ar. "Até Uber e táxi não vinham porque era uma área de risco. Ficava difícil os clientes virem porque tinham medo de ficar andando, de ir embora daqui", diz uma cabeleireira de 27 anos que trabalha no quarteirão e prefere não se identificar. Também é nítido o temor de alguns donos e funcionários do comércio nos arredores.

Está estampado no olhar e nos gestos da trancista Rosa Mira Barbosa, 56, que trabalha em outro salão de beleza. Ao conversar com o TAB, ela avalia bem os pensamentos antes de transformá-los em palavras. Um cuidado que ela adquiriu quando se deparou com os novos moradores do pedaço. Nas semanas que se seguiram, a praça só carregou nobreza no nome, pois dependentes químicos decidiram fazer da calçada, entre o ponto comercial e a banca de jornal que fica em frente, um banheiro.

Praça Princesa Isabel após dispersão da 'cracolândia', no centro de São Paulo - André Porto/UOL - André Porto/UOL
Praça Princesa Isabel após dispersão da 'cracolândia', no centro de São Paulo
Imagem: André Porto/UOL

O cheiro e a sujeira infestavam o local, mas Rosa engolia a indignação. Procurava conversar com eles com jeito, temendo reações violentas. "Dá licença pra eu lavar aqui, meu amorzinho? Falava com jeitinho, aí me tratavam bem." Estabeleceu com eles uma relação pacífica, na medida do possível. Tanto que, ao contrário de outros salões, ela atendia alguns, que pagavam o corte de cabelo antecipado. Nunca cogitou recusar esses clientes - para ela, tal atitude seria preconceito.

A trancista e outras cabeleireiras dividem o ponto com Altair de Souza, 60. Além de ajudá-las no que é preciso, como abrir e fechar a porta ou consertar um chuveiro, o digitador tem um brechó. Também atendia dependentes químicos que queriam comprar roupas. Sempre em estado de alerta, jamais relaxava. Mas tensão mesmo ele viveu nos dias em que a praça virou um campo de guerra, antes do fim da "cracolândia" por ali.

Altair perdeu a conta das vezes em que atravessava a praça correndo para buscar comida ou teve que fechar a porta às pressas, no meio da ofensiva de ambos os lados. "Quando a polícia jogava bomba de efeito moral, eles corriam pra cá e se escondiam atrás da banca. A gente abaixava a porta e ficava esperando diminuir a bagunça. Chegou até entrar gás lacrimogênio aqui dentro", recorda.

O comerciante Marcos Vinícius, dono de agência de viagens na frente da praça Princesa Isabel, no centro de São Paulo - André Porto/UOL - André Porto/UOL
'Ganhamos nossa liberdade de volta', diz Marcos, dono de agência de viagens do outro lado da praça
Imagem: André Porto/UOL

Fuga de clientes

Quando o confronto terminou, a euforia tomou conta dos comerciantes. Rosa traduz a sensação em uma frase: "Acabou a guerra". O torneiro mecânico Marcos Vinícius, 46, que tem uma agência de viagens no outro lado da praça, engrossa o coro. "Ganhamos nossa liberdade de volta", diz, ao lembrar dos apuros que passou, como o dia em que encontrou usuários de drogas dentro da loja. A contragosto, teve de arcar com o prejuízo de R$ 700 para consertar a porta arrombada.

A "cracolândia" pode não estar mais lá, mas os clientes ainda não retornaram à praça. Com vendas ainda minguadas, honrar compromissos financeiros tornou-se uma missão quase impossível para os comerciantes. Sem saber como apagar a fama negativa que o local conquistou, dizem se sentir de mãos atadas.

Os mil reais de aluguel seguem pesando no bolso e as vendas de Marcos caíram cerca de 70%. "A gente já ganha pouco e ainda vem a 'cracolândia'. Como fica? Tenho que pagar o aluguel, a pensão do filho", queixa-se. Para evitar vendas desfeitas, oferece aos clientes a opção de retirar as passagens no Terminal Rodoviário Tietê ou os escolta entre a estação Luz do metrô ou do trem e a agência, na ida e na volta. Natural de Belém do Pará, ele nunca passou por uma situação assim desde que pisou em solo paulista pela primeira vez, em 1998.

Diz que um arrepio lhe percorre o corpo quando lembra do mau cheiro, da gritaria, do som alto ligado e das bombas arremessadas por policiais. Mas principalmente do dia em que usuários de drogas quebraram carros e ônibus, apedrejaram uma caminhonete Hilux inteira. "Temos que fazer tudo certinho para não dar errado. Eles já são da rua, então a gente é que tem a perder."

A paradeira nas vendas também tem tirado o sono de Altair, que se instalou ali quando dependentes químicos já tinham tomado a praça. O problema maior foi e continua sendo lidar com o marasmo. "Não estou fazendo nem três vendas por dia. Não sei se vou continuar mais um mês."

Ele não é o único desanimado. Os vizinhos se queixam da mesma dificuldade. "A gente pensava em levantar acampamento. Mas falava: 'Vamos esperar acabar, limpar a praça. Ver se vale a pena continuar. Ainda estamos avaliando se vale". Se a maré virar, Altair pretende comprar uma impressora e voltar a oferecer serviços de informática junto do brechó. Sabe que não é fácil conseguir um emprego nessa altura da vida.

O comerciante Clarindo José de Souza, conhecido como 'Seu Bahia', na avenida Duque de Caxias, no centro de São Paulo - André Porto/UOL - André Porto/UOL
'Os governantes têm que arrumar lugar para eles, para não ficarem na rua', diz Clarindo, no centro de São Paulo
Imagem: André Porto/UOL

Entre o prejuízo e a pena

A "cracolândia" não afetou apenas o quarteirão que margeia a praça Princesa Isabel. As imediações também foram atingidas. Aldinei Pereira da Silva, 32, ainda sofre para manter as contas em dia, embora perceba uma pequena melhora no movimento. Como as pessoas temiam assaltos nos pontos de ônibus, principalmente à noite, sua loja de produtos nordestinos, localizada na avenida Rio Branco, quase na esquina com a praça, ficou mais vazia do que de costume.

Os clientes também não se sentiam à vontade com os dependentes químicos esperando a saída deles para pedir um trocado. Alguns vinham com o objetivo de comprar. Ele apanhava o que eles queriam, recebia o dinheiro e entregava os produtos na porta. Outros apareciam sem dinheiro e com fome. Mesmo passando aperto, o comerciante se comovia. "O coração da gente é bom. Eu acabava dando alguma coisa para eles. Mas quando negava, também era de boa", relata o pernambucano de Garanhuns. Eram muitos pedidos de comida por dia.

Marcos, dono da agência de viagens, conversava com alguns e os aconselhava a sair dessa vida. Um dia encontrou ali um amigo de Goiânia e emprestou o telefone para que o jovem ligasse para a mãe. Foi internado numa clínica de reabilitação graças a essa ajuda.

É hora do almoço e Clarindo José de Souza, 75, está sentado numa cadeira à beira de uma banca de jornal da avenida Duque de Caxias, onde expõe as ervas que vende. Uma rotina que ele repete há 18 anos, desde que se aposentou da profissão de metalúrgico.

Clarindo tem amargado um prejuízo de 50% nas vendas. Ainda assim, defende quem está entregue ao vício. "Eles não mexiam com ninguém aqui. Tenho dó deles. Converso com um que trabalha no farol. Ele dizia que a vida dele era essa aí e não tinha nada para fazer. Os governantes têm que arrumar lugar para eles, para não ficarem na rua pra cima e pra baixo roubando os outros", sugere "seu Bahia", que ganhou esse apelido por ter nascido em Alagoinhas, município baiano.

Os comerciantes dizem que a construção de um parque na praça é o melhor destino que ela poderia ter. "Quando eu era pequeno, brinquei na frente desse cavalo aí", recorda Altair, frisando que a calma desse momento "pós-cracolândia" é aparente. Fazer dali um lugar de lazer, diz, traria tranquilidade de volta, mais frequentadores e, consequentemente, os esperados clientes.