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Sósia gasta R$ 2 mil no look de 'véio da Havan', mas evita vesti-lo na rua

Adão Cordeiro (de terno), que disputa o concurso de sósia do "véio da Havan", conheceu Luciano Hang em Brusque (SC) - Arquivo pessoal
Adão Cordeiro (de terno), que disputa o concurso de sósia do 'véio da Havan', conheceu Luciano Hang em Brusque (SC) Imagem: Arquivo pessoal

Hygino Vasconcellos

Colaboração para TAB, de Balneário Camboriú (SC)

28/06/2022 04h01

Adão Cordeiro, 56, entrou decidido na costureira há uns seis meses. Debaixo do braço, carregava 2 metros de um tecido verde do tipo Oxfordine. A tiracolo também levava um terno que serviria de molde para a nova roupa. Ali começaram os ensaios para se tornar sósia do dono das lojas Havan, Luciano Hang, que culminaram com a participação no concurso "É a Cara do Véio", na TV Barriga Verde, afiliada da Rede Bandeirantes, no qual é um dos finalistas.

Na verdade, a semelhança com o empresário foi notada em dezembro, quando Cordeiro começou a trabalhar como condutor socorrista no SAMU (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência) de Telêmaco Borba (PR), a 243 km de Curitiba. Lá a equipe médica insistia nas comparações com Hang, principalmente por conta da careca.

Na época, ele pegou uma camiseta verde e foi à serigrafia de um amigo pedir para estampar "O Brasil que queremos só depende de nós" em letras garrafais, uma pequena bandeira do Brasil acima da frase e o nome da loja de Hang no lado oposto. A peça é facilmente encontrada na Havan e é praticamente item obrigatório do empresário nas suas aparições públicas, inclusive no último domingo (26), quando esteve em Balneário Camboriú (SC) acompanhando o presidente Jair Bolsonaro (PL), de quem é ferrenho apoiador.

Com a camiseta e terno verde estava quase pronto o traje para ser sósia de Hang. Faltava o tênis amarelo — encontrou o calçado ao visitar um cunhado no interior do Paraná, onde de pronto os funcionários da loja estranharam um senhor em busca de um All Star daquela cor. Cordeiro mostrou uma foto de Hang e explicou suas pretensões.

"Os gerentes e subgerentes são fãs do velho da Havan, gostam muito dele. Quando mostrei a foto, eles disseram: 'A gente faz até um preço promocional para você, não vamos dar de graça'", relata.

Para conseguir o desconto, ele precisava vestir o traje (que estava guardado no porta-malas do carro) e ficar uma manhã na porta da loja para fazer fotos com potenciais clientes e fisgá-los. A estratégia deu certo e o calçado desejado saiu por R$ 70 — na época, custava R$ 130. "Todas as pessoas que foram comigo ganharam 50% de desconto na loja", conta, orgulhoso. "Daí eu já estava com o terno e o tênis, já estava praticamente com o personagem pronto."

O ônibus do empresário Luciano Hang estaciona em lugar irregular na cidade de Curitiba. Após ser multado, o empresário reclama das autoridades da cidade - EDUARDO MATYSIAK/ESTADÃO CONTEÚDO - EDUARDO MATYSIAK/ESTADÃO CONTEÚDO
O empresário Luciano Hang, um dos maiores apoiadores de Jair Bolsonaro
Imagem: EDUARDO MATYSIAK/ESTADÃO CONTEÚDO

Um personagem

Mês após mês, Cordeiro foi aumentando o guarda-roupa ao estilo de Hang: hoje já são mais de dez peças diferentes, incluindo três gravatas e outros dois calçados além do amarelo, um verde e um azul. Ao todo, investiu R$ 2.000, uma conta, segundo ele, paga em parte com a ajuda dos outros e o restante do próprio bolso. "Ganhei patrocínio, de um R$ 50, de outro R$ 60. Todos me ajudaram, aqui da minha cidade. Os lojistas, principalmente."

Apesar da maratona para se assemelhar a Hang, Cordeiro evita sair vestido com as roupas do personagem, exceto quando é convidado para um evento. "24 horas, não, não saio. É mais por uma questão política, às vezes você acaba criando inimizade exatamente porque você está usando uma roupa padrão, patriota, a nível nacional, e há aquelas pessoas que não compactuam muito com algumas ideologias políticas", relata.

"A gente não quer criar atrito ou confusão. A gente quer ser amigo de todo mundo. É um personagem."

Cordeiro, tecnólogo em gestão ambiental, foi conhecer Hang em maio. Não saiu vestido com a roupa e não tinha hora marcada para conversar com o empresário, mas decidiu arriscar a sorte e foi até o centro administrativo da loja de departamentos, localizado em Brusque (SC), com a esposa e a filha mais nova, de 7 anos.

As peças que compõem o personagem "véio da Havan" ficaram em uma sacola e só deixaram a embalagem quando o paranaense percebeu demora para ser recebido. Hang estava em uma live com os gerentes gerais das lojas e tinha um voo internacional às 17h30. Devido à agenda apertada, funcionários tentaram convencer Cordeiro a voltar outro dia, o que ele não aceitou.

Vendo o impasse, resolveu trocar de roupas e vestir o traje do personagem no banheiro. Como num passe de mágica, a vestimenta abriu portas. "Só sei dizer que o Luciano quebrou todos os protocolos e atendeu a gente."

O encontro com o empresário durou poucos minutos, mas foi o bastante para Cordeiro considerá-lo "um sonho". "Ficamos ali 10, 15 minutos, batemos o sino, andamos de patinete e de bicicleta, minha filha andou no colo do Luciano para cima e para baixo. Comemos bolachinha, cuca, tomamos café, comemos maçã. Tudo ali dentro do escritório dele. Foi muito gratificante."

'Só erra quem não tenta'

A persistência para conseguir conversar com Hang é inspirada em um dos "mantras" do empresário. Nele, o dono da Havan diz que "só erra quem não tenta". E, caso algo dê errado, é preciso tentar novamente.

Concurso de sósia do 'véio da Havan' - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
'A gente quer ser amigo de todo mundo. É um personagem', diz Adão Cordeiro
Imagem: Arquivo pessoal

"É assim mesmo, tudo é difícil. Quando a gente quer alcançar objetivo é tudo com muita luta, é bastante sofrido, porque quando você consegue as coisas muito fáceis, não é bom. Quando as coisas são conseguidas com dificuldade, o resultado é ótimo, promissor. Eu penso assim, e tenho me espelhado muito no Luciano, lutar, lutar, lutar. Se não deu certo, tenta de novo. Lute, lute, lute", diz Cordeiro.

O mantra é repetido por vários dos candidatos que se inscreveram no concurso da Band catarinense realizado com apoio da própria Havan. Foi a tática do técnico têxtil Vanderlei Domingos, 48.

"Tenha a coragem para dar o primeiro passo, para se arriscar e fazer diferente dos outros. Se você tentou e falhou, parabéns, tem gente que não tenta. Mas continue tentando, tentando, tentando até conseguir seu objetivo, não desista jamais", diz, no vídeo de 18 segundos.

Na gravação, ele também veste a camiseta verde e uma calça amarela. Mas, diferentemente de outros participantes, Domingos decidiu inovar e aceitou a sugestão de um parente: pediu para a esposa representar a Estátua da Liberdade, outro símbolo da Havan. No lugar da tocha, ela segura uma vassoura de palha de ponta cabeça.

Foram ao menos seis tentativas para fazer o vídeo, o que levou cerca de 20 minutos. Uma amiga da família chegou a escrever em uma cartolina o que deveria ser dito pelo candidato a sósia.

Quem viu o vídeo na TV, mal sabe que as semelhanças com Hang só surgiram após o técnico têxtil fazer uma cirurgia bariátrica há dois anos — na época, pesava 147 kg e hoje tem 80 kg. Passado mais de um ano da cirurgia, o catarinense comprou a camiseta verde da loja e, não muito tempo depois, começaram as comparações. "Se eu tirar os óculos, acho que fico parecido."

Domingos não se diz apoiador do Bolsonaro, apesar de ter votado nele em 2018. "Sou apartidário. Mas, entre ele e Lula, fico com Bolsonaro."

Quem quer ser o 'véio da Havan'

O concurso começou no final de maio e o resultado deve ser divulgado dia 5 de julho. Os candidatos deveriam mandar vídeos de no máximo 1 minuto que seriam exibidos durante o programa SC Acontece, que começa às 12h50. Segundo a patrocinadora, os pretendentes a sósia deveriam fazer "uma performance de véio da Havan".

Concurso de sósia do 'véio da Havan' - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Vanderlei Domingos pediu para a esposa representar a Estátua da Liberdade
Imagem: Arquivo pessoal

Na primeira semana foi lançada a campanha, com Hang explicando num vídeo como funcionaria. Na outra semana, começaram a ser exibidos os materiais dos candidatos. Ao todo, 23 gravações de candidatos foram ao ar. Porém, a Havan informou ao TAB que recebeu 65 inscrições; entre os candidatos 42 foram desclassificados por não serem residentes de Santa Catarina — Cordeiro diz se dividir entre Ortigueira (PR), onde mora a esposa, e Jaraguá do Sul (SC), onde reside um dos quatro filhos.

Dos 23 vídeos, apenas um era de uma mulher: Franciane Laurindo, que aparenta estar com uma touca da cor da pele para simular que é careca e não diz nada na gravação, usando um trecho de uma fala de Hang como uma espécie de dublagem. "Não importa onde você nasceu, não importa onde você estudou, o que importa é o que você quer ser na sua vida", diz o trecho.

Franciane veste paletó verde, gravata amarela e blusa branca. Além dela, outros três participantes usam roupas com as cores da bandeira do Brasil — apenas um deles usa uma camiseta da seleção brasileira de futebol.

Os seis semifinalistas foram divulgados dia 20 de junho. Depois, quem estava no páreo precisou responder ao vivo a três perguntas para provar que conhecem a história da Havan e de Hang. Na segunda (27) foram divulgados os finalistas: Adão Cordeiro, Sandro Dalrot e João Carlos Lima.

Segundo a Havan, foram avaliados aparência física, vestuário, trejeitos, modos de falar, entre outros quesitos. Agora o público decide o pódio a partir de uma votação no site do concurso. O vencedor receberá R$ 3.000 em vale-compras na Havan, o segundo lugar, R$ 1.500, e o terceiro, R$ 1.000. O primeiro colocado poderá conhecer o centro administrativo da rede de lojas.