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Cristãos sobre Bolsonaro na maçonaria: 'Só estranharia se levasse um passe'

Um dos memes que circularam nas redes, após vídeo de Jair Bolsonaro em loja maçônica viralizar - Twitter/Reprodução
Um dos memes que circularam nas redes, após vídeo de Jair Bolsonaro em loja maçônica viralizar Imagem: Twitter/Reprodução

Daniele Dutra

Colaboração para o TAB, do Rio

13/10/2022 04h00

O vídeo do presidente Jair Bolsonaro numa loja maçônica pegou de surpresa uma parcela dos seus eleitores. Feito em 2017, quando ele ainda era deputado federal, o registro mostra o presidente falando sobre corrupção e questões ideológicas.

O vídeo circulou em todas as redes sociais e a repercussão levou Bolsonaro a se explicar. "Fui sim a uma loja maçônica, acho que aquela foi a única vez. Eu era candidato a presidente, pouca gente sabia disso. Fui convidado por um colega, fomos em uma loja em Brasília, fui muito bem recebido, todos me trataram muito bem. Eu sou o presidente de todos e ponto final. (...) A esquerda faz um estardalhaço. Quero o apoio de todos aqui no Brasil", disse Bolsonaro em sua live semanal de 5 de outubro.

O vídeo fez lideranças evangélicas opinarem. Algumas, como o pastor André Valadão, condenaram quem frequenta maçonaria. Outras, como Silas Malafaia, relativizaram a visita do presidente. Os posicionamentos traduzem a divisão: para boa parte do eleitorado, a atitude do candidato à reeleição não fere a "ótica cristã".

Isso para quem de fato acessou o vídeo — segundo apuração da reportagem, passada uma semana, a notícia acabou circulando mais entre grupos de esquerda que entre os de direita e religiosos. Cleide Nascimento de Lima, 40, eleitora de Bolsonaro, desconhecia o conteúdo.

"Eu e o meu marido não vimos o vídeo, só ouvimos falar. Nós evangélicos ficamos com os princípios em que se baseiam seu governo: Deus, pátria e família. Bolsonaro é cristão mas não é enraizado em nenhuma denominação", defende a dona de casa, membro há 13 anos da Igreja Ceifa Universal em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense do Rio.

Cleide Nascimento de Lima, eleitora de Jair Bolsonaro e evangélica - Arquivo Pessoal - Arquivo Pessoal
Cleide Nascimento de Lima conta não ter recebido o vídeo de Bolsonaro na maçonaria, mas refuta a importância da visita
Imagem: Arquivo Pessoal

'Todo tipo de gente'

Evangélico desde criança, o cuidador Filipe de Farias, 38, ficou um tempo fora da igreja e retornou para a Metodista do Grajaú há 8 anos. Para ele, a ida de Bolsonaro a uma loja maçônica foi apenas uma visita protocolar para ele falar sobre seus projetos e ideias para o país.

"Como se tratava de um pré-candidato a líder da nação, ele tem que conversar com todo mundo. Assim como ele vai à igreja evangélica e católica, ali era mais um lugar onde ele estava falando de Brasil", disse Farias ao TAB. "Me espantaria se ele estivesse tomando um passe, uma bebida preparada por pai de santo, colocando guia no pescoço e depois fosse à igreja evangélica, dobrasse os joelhos para receber a oração do pastor. Uma pessoa que tem ambição de ser líder da nação tem que estar aberta para conversar com todas as religiões e cultuar aquela com que se identifica."

Filipe, que afirma não ter se vacinado contra a covid-19, acredita que Bolsonaro foi eleito por pessoas de diferentes religiões e que tudo que circula sobre ele é "informação velha", mais do mesmo. "O eleitorado dele tem todo tipo de gente, macumbeiro, bruxos — poucos né? — católicos, evangélicos e ateus. Nessas horas a gente pensa o que ele fez pelo Brasil e o que ele pode fazer. Os resultados estão aí", diz o evangélico.

Luciano Velloso, eleitor de Bolsonaro e evangélico da Igreja Metodista - Arquivo Pessoal - Arquivo Pessoal
Velloso, da Igreja Metodista, diz que muitos evangélicos demonizam maçonaria por falta de conhecimento
Imagem: Arquivo Pessoal

'Nenhum cristão deve viver isolado'

Pastor na Igreja Cristã Metodista em Saracuruna, bairro do município de Duque de Caxias, na Baixada Fluminense do Rio, Luciano Velloso, 50, explica que a maçonaria não é uma religião, mas sim uma sociedade que conta inclusive com padres e pastores.

"Maçonaria é uma sociedade que há muitos anos se dizia secreta, mas hoje não é mais. Hoje participam padres, pastores e vários líderes espirituais e religiosos. Para participar de uma loja maçônica é necessária aprovação da família e ter uma religião. O principal estudo deles é sobre a palavra de Deus, a Bíblia", explica Velloso ao TAB.

Eleitor de Bolsonaro, o pastor explica que muitos evangélicos tendem a demonizar a maçonaria por falta de conhecimento e negou que Bolsonaro tenha relação com a sociedade.

"Muitos pastores da Igreja Presbiteriana participam, inclusive. Há 11 anos um pastor fez um vídeo dizendo que a loja maçônica trabalhava para o mal, e isso ficou na cabeça de muitos evangélicos que não estudam", disse Velloso.

Para o funcionário público Nestor de Almeida Neto, 44, cristãos não devem viver isolados do mundo. "Jesus andava em festas e com gentios. Não se deve fazer parte do mundo, mas vivenciar o Evangelho nele", afirmou o membro da Igreja Cristã Maranata há 10 anos.

Almeida Neto disse ainda que ele e os cristãos de seu convívio acreditam que esta eleição desenha um duelo não apenas entre pessoas, mas entre conceitos e valores. "Hoje vemos um embate entre aqueles que estão ao lado dos valores ditos conservadores e os que tentam aniquilá-lo — ou seja, Bolsonaro x Lula. Todos que conheço sabem bem o posicionamento do presidente e estarão com Bolsonaro até o fim."