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Bernardo Machado

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Filme 'Meu Pai' mostra como é difícil se colocar no lugar do outro

"Meu Pai" - Divulgação/IMDb
"Meu Pai" Imagem: Divulgação/IMDb
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Bernardo Machado

Bernardo Fonseca Machado é doutor em Antropologia Social pela Universidade de São Paulo. Desde 2018, trabalha como professor na Faculdade de Ciências Sociais da Universidade Federal de Goiás. Também foi Visiting Student Research Collaborator na Universidade de Princeton, nos Estados Unidos (2015-2016) e, em 2016, co-escreveu o livro Diferentes, não desiguais: a questão de gênero na escola pelo selo Reviravolta da Companhia das Letras. Desenvolve pesquisas acadêmicas como membro dos grupos Etnohistória e do NUMAS (Núcleo dos Marcadores Sociais da Diferença), ambos da USP.

Colunista do TAB

04/05/2021 04h00

A severidade dos tempos pode nos deixar refratários ao outro. As angústias pessoais nos agridem e eclipsam quem está para além de nossas precárias fronteiras. Como lidar com o diferente se mal conseguimos dar conta do nosso? Nessas ocasiões, algumas estratégias para exercer a alteridade emergem; correspondem ao esforço para alcançar o que parece distante. Este é o caso do uso da expressão "é preciso se colocar no lugar do outro". Embora a ferramenta seja carregada de boas intenções, ela pode impedir o que procura solucionar.

Para discorrer sobre o intrincado tema, certas obras oferecem bons exemplos. É o caso do filme "Meu Pai", dirigido pelo francês Florian Zeller e ganhador de duas estatuetas do Oscar — melhor ator e melhor roteiro adaptado. Fruto de uma peça de teatro escrita por Zeller, o longa conta a história de Anthony (o impecável Anthony Hopikins), um senhor de mais de 80 anos com sinais severos de esquecimento e confusão.

Nos primeiros minutos, vemos sua filha Anne (Olivia Colman) informar sobre a mudança para Paris, com seu namorado. Ela está aflita em deixar o pai naquela condição, sozinho em Londres, e ele inconformado com o destino da filha: "lá não falam inglês". Logo na cena seguinte, Anthony se depara com um homem estranho sentado em seu sofá. A conversa desconcertada sobre os motivos da presença daquele desconhecido é interrompida com a chegada de Anne, a filha, dessa vez sob o corpo de outra atriz (Olivia Williams). O pânico e a confusão embaralham-se tanto na expressão de Anthony quanto para quem acompanha a narrativa.

Sem pretender avançar em muitos spoilers, quero destacar que o filme promove uma inversão da perspectiva: coloca quem assiste no ângulo de percepção de quem está esquecendo. O deslocamento ocorre via o jogo das convenções estéticas tradicionais do cinema. Primeiro, a cronologia é embaralhada, segundo, as mesmas personagens são interpretadas por diferentes atrizes e atores — algo incomum em produções cinematográficas — e, por fim, o próprio espaço do apartamento ganha variados significados na medida em que avança, procedimento típico de encenações teatrais.

A riqueza da narrativa reside no fato de que ela reconhece a existência de uma forma de existir, uma experiência na qual o tempo, o espaço e as pessoas navegam numa lógica própria. Num labirinto em que nós, pessoas sem esquecimento severo, nos perdemos rápido.

Justamente neste ponto, a abordagem pode levar a algumas armadilhas da alteridade. Podemos seguir o raciocínio: "é preciso colocar-se no lugar do outro". Nesse caso, contudo, há dois riscos. Primeiro, porque a sugestão de "colocar-se no lugar do outro" costuma ser falaciosa: o corpo do outro — com suas experiências, suas dores e seus sabores — mora na fronteira do imponderável. Em nenhuma circunstância iremos realmente habitar outra carne.

Segundo, porque esse procedimento pode desaguar num discurso da "empatia" regado a certa autocondescendência. Quando uma pessoa diz "sou empática", o mecanismo alivia uma espécie de culpa e apazigua as inquietações. Nesse caso, expressar comiseração por alguém pode oferecer mais benefícios para "nós mesmos" do que para as pessoas em si, como destaca o antropólogo francês Didier Fassin. Isso porque essa "empatia" demonstraria para nós, e somente para nós, o quão humano realmente somos.

O potencial do filme está, em minha avaliação, em outro lugar: nas dúvidas que ele nos cria. De um lado, por fomentar questões sobre nossos afetos. "Minha mãe percebe o mundo como Anthony?", "Será que eu vivenciarei isto quando envelhecer?". De outro, a obra cria um efeito de confusão para quem acompanha a narrativa: "quem é esta atriz que apareceu?" "Esta cena aconteceu antes ou depois da anterior?".

As dúvidas não são banais, elas promovem um deslocamento. E, assim, o filme permite avançar em duas escalas de reflexão. Na primeira, discutir como podemos embarcar para a alteridade. Nesse caso, o antropólogo Claude Lévi-Strauss propõe: "para poder se aceitar nos outros, é preciso antes recusar-se em si mesmo". Aprender a recusar o que assumimos como nosso carrega o potencial de ampliar nosso escopo de sensibilidades e nos deslocar das bases que nos constituem.

Na segunda escala, podemos discutir os regimes sociais que nos impedem de exercer a alteridade, ou melhor, que reservam para alguns corpos o respeito e para outros a indiferença ou o ódio. Há alteridade possível numa estrutura social racista, misógina e lgbtfóbica? Como reconhecer o outro com prazos perversos e com o acelerado regime econômico?

A alteridade está em crise pela estrutura social na qual estamos imersos, pelo contexto sanitário-político que nos assoberba e pelos procedimentos inebriantes que faz com que optemos por soluções que tendem a nos satisfazer rapidamente, sem alcançar o propósito da reflexão. Ao negligenciar discutir esses procedimentos que nos marcam, o exercício da alteridade se torna árido.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL