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Bernardo Machado

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Por trás dos kits de Bolsonaro, há muita estratégia política

Segundo a Prefeitura de Itagi, a entrega em domicílio do "kit-covid" (foto) integra plano de combate à pandemia - Reprodução
Segundo a Prefeitura de Itagi, a entrega em domicílio do "kit-covid" (foto) integra plano de combate à pandemia Imagem: Reprodução
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Bernardo Machado

Bernardo Fonseca Machado é doutor em Antropologia Social pela Universidade de São Paulo. Desde 2018, trabalha como professor na Faculdade de Ciências Sociais da Universidade Federal de Goiás. Também foi Visiting Student Research Collaborator na Universidade de Princeton, nos Estados Unidos (2015-2016) e, em 2016, co-escreveu o livro Diferentes, não desiguais: a questão de gênero na escola pelo selo Reviravolta da Companhia das Letras. Desenvolve pesquisas acadêmicas como membro dos grupos Etnohistória e do NUMAS (Núcleo dos Marcadores Sociais da Diferença), ambos da USP.

Colunista do UOL

30/05/2021 04h00

O presidente Jair Bolsonaro gosta de kits ou, ao menos, lhe interessa mobilizá-los politicamente. Ainda em 2011, enquanto deputado pelo PP-RJ, ele empregou, em muitas ocasiões, o termo "kit gay" para desqualificar o programa Escola Sem Homofobia. Passada uma década, o combate à pandemia encabeçado pelo governo federal depende, em grande parte, do chamado "kit covid". Embora as habilidades de administrador público de Bolsonaro possam ser questionadas, considero fundamental assumir sua perspicácia política. Há inteligência em acionar a ideia de kit como ferramenta de comunicação política para sensibilizar as angústias da população.

A função do kit

Mas afinal, o que é um kit? Ele corresponde a um pacote que promete atender uma necessidade (qualquer que seja) em sua integralidade (ou em grande parte dela). Uma pessoa, munida de seus elementos, poderá solucionar os dilemas numa determinada seara.

Mas não é só isso. Um kit pressupõe uma curadoria, isto é, um pensamento. Alguém, teoricamente com mais experiência — um expert — define o que seria essencial incluir nesse pacote. Como efeito, quem adquire pode assegurar-se da eficácia do que é oferecido.

Por fim, a materialidade do kit é fundamental. Não se trata de um emaranhado abstrato de ideias ou palavras, mas de um conjunto de objetos que, manuseados da forma adequada, resolvem interesses.

De toda forma, a essência do kit reside em sua força sintética. Num país em que as condições de vida são precárias, em que as formas de sobrevivência são duras, um kit é, geralmente, bem-vindo. Ele garante a solução de um problema com eficiência e eficácia. Entretanto, não se pode desconsiderar as qualificações morais e os usos políticos atribuídos aos kits.

"Kit gay"

Atenção, pais de alunos de 7, 8, 9 e 10 anos, da rede pública: no ano que vem, seus filhos vão receber na escola um kit intitulado Combate à Homofobia. Na verdade, é um estímulo ao homossexualismo, à promiscuidade.

O discurso pertence ao então deputado federal Jair Bolsonaro. Ele reagia a duas audiências públicas realizadas no Congresso Nacional a respeito do planejamento do programa Escola Sem Homofobia, conforme conta Fernando Balieiro em artigo sobre o tema. Estávamos em novembro de 2010 e, no dia anterior, o parlamentar havia defendido, em rede nacional de televisão, a agressão física como solução para comportamentos homossexuais de crianças.

Passados alguns meses, em 11 maio de 2011, o deputado passou a distribuir panfletos contrários aos materiais didáticos de combate à homofobia criados pelo MEC (Ministério da Educação). Na época, outras forças políticas passaram a engrossar o coro: políticos vinculados às bancadas evangélica e católica.

A polêmica transformou o kit anti-homofobia no famigerado "kit gay". A estratégia foi eficaz por converter uma política de combate à violência em uma campanha de difamação. Poucos dias depois, em 26 de maio, sob pressão de críticas, o governo de Dilma Rousseff suspendeu a divulgação do material didático.

Nos anos seguintes, o "kit gay" se transformou em espécie de lenda urbana, reiteradamente evocada por Jair Bolsonaro. Em 2018, o então candidato à presidência levou o livro "Aparelho sexual e Cia" para entrevista no Jornal Nacional, alegando pertencer ao chamado "kit gay". Apesar do material não compor nenhum kit e tampouco ter sido comprado pelo MEC, o presidenciável surfou na onda e fez do ato um evento. Bolsonaro transformou o kit em ataque.

A narrativa falaciosa sobre o "kit gay" substancializava uma série de elementos que afetariam a moral da "família brasileira" — alegados livros e filmes com estímulo à pedofilia. O kit serviu como ardil para Bolsonaro, pois revelaria o pensamento dos experts do governo: "promíscuos" e "canalhas". Por fim, o maior risco residiria na eficácia do pacote — afinal, um kit prevê atender com êxito o que se propõe e, assim, poderia "converter" crianças em homossexuais.

Kit-covid

Passados quase dez anos do episódio "kit gay", vivemos a pior pandemia do século e o agora presidente decide negligenciar as orientações científicas, forjando uma solução para os dilemas pandêmicos. O chamado "kit covid" consiste num pacote que inclui os remédios cloroquina, azitromicina e ivermectina para a "prevenção à doença".

A campanha teve efeitos práticos. Em 2020, foram vendidos 6,38 milhões de embalagens de cloroquina, um aumento de 107% em comparação às vendas de 2019 (3,08 milhões). Já as vendas de ivermectina (usada contra piolhos e vermes) saltaram 74% — em 2019, foram 32,65 milhões de embalagens, enquanto em 2020 o número alcançou 56,8 milhões.

Em 2021, há relatos de gestores de capitais do país relatando a pressão sofrida por seus respectivos vereadores a adotar o chamado "kit covid", conforme levantamento feito pela FNP (Frente Nacional de Prefeitos). Por fim, segundo dados do Datafolha em maio de 2021, 23% dos brasileiros usou algum medicamento do pacote para "se tratar precocemente" e prevenir a covid-19.

O uso reiterado do termo "kit covid" pelo presidente Bolsonaro garantiu, num período de instabilidade e risco para o governo, algum capital político (ainda que controverso). Isso porque a terminologia simplificava as medidas sanitárias e desviava da árida expressão "protocolo sanitário".

O kit ofereceu às pessoas — mesmo que sob uma falácia — a chance de sobrevivência num pacote simples, um conjunto de três remédios. Sob uma base de premissas e dados falsos, o kit acolheu os temores por apresentar uma resposta aparentemente certa e convicta a um vírus incerto e traiçoeiro. Nesta dimensão reside sua potencia, afinal, um pouco de certeza sempre ajuda no naufrágio da insegurança.

A síntese

A política de Bolsonaro é lastreada numa retórica da simplificação — o mundo é dicotômico e as tecnicidades administrativas são meras formalidades. Se o "kit gay" é uma ameaça à família (como um todo), o "kit covid" é a solução para uma pandemia. Nesta forma de atuar, a obsessão por kits converte-se em estratégia. À medida em que Bolsonaro nomeia suas ideias, seus pressupostos e suas paranoias sob o nome de "kits", ele cria uma metonímia de seu mundo, uma forma de materializar o que lhe é caro. Vale atentar para os próximos kits que ele pretende fomentar para continuar suas ações políticas.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL