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Por que tantas crianças e jovens morrem nos conflitos entre Israel e Hamas?

Menino palestino em um dos campos de refugiados, em 14 de maio; famílias tiveram de deixar suas casas por causa dos bombardeios israelenses à Faixa de Gaza - Mohammmed Abed/AFP
Menino palestino em um dos campos de refugiados, em 14 de maio; famílias tiveram de deixar suas casas por causa dos bombardeios israelenses à Faixa de Gaza
Imagem: Mohammmed Abed/AFP

Leda Balbino

Colaboração para o TAB

25/05/2021 04h01

Depois de 11 dias de conflito, Israel e o movimento radical islâmico Hamas, que controla a Faixa de Gaza, iniciaram um cessar-fogo na madrugada de sexta-feira (21). A onda de violência, a pior desde 2014, deixou 13 mortos em Israel, incluindo um menino de 5 anos e uma adolescente de 16. Do outro lado, o Ministério da Saúde de Gaza registrou ao menos 248 mortes. Segundo a ONU, ao menos 124 deles são civis, incluindo 66 crianças e adolescentes com menos de 18 anos. Mas a alta média de menores mortos — seis por dia — não é exclusividade do conflito deste ano.

Na guerra de 2014, que durou 50 dias, dos 2.104 palestinos mortos, 1.462 eram civis, incluindo 495 crianças e adolescentes, ainda segundo a ONU. Já a ONG de direitos humanos Defesa para Crianças Internacional-Palestina (DCI-Palestina) contabiliza um número maior de vítimas entre menores. Segundo um relatório, os confrontos deixaram 547 mortos, incluindo 535 em ataques diretos de Israel. Desse total, 68% eram crianças com menos de 12 anos.

As informações sobre crianças e adolescentes vítimas da violência voltaram a chamar atenção no conflito que começou em 10 de maio. Israel passou a bombardear Gaza após combatentes do Hamas lançarem foguetes contra Jerusalém. Por sua vez, o Hamas disparou os foguetes após dias de choques entre manifestantes palestinos e policiais israelenses no complexo da Mesquita de Al-Aqsa, conhecido pelos muçulmanos como Nobre Santuário e pelos judeus como Monte do Templo.

As tensões cresceram na área por causa de intervenções policiais israelenses no complexo e da ameaça de despejo de dezenas de famílias palestinas por colonos judeus no bairro de Sheikh Jarrah, em Jerusalém Oriental, que os palestinos reivindicam como capital de um futuro Estado.

Criança palestina anda pelos escombros após o cessar-fogo entre Israel e Hamas - Majdi Fathi/NurPhoto via Getty Images - Majdi Fathi/NurPhoto via Getty Images
Criança palestina caminha pelos escombros após o cessar-fogo entre Israel e Hamas
Imagem: Majdi Fathi/NurPhoto via Getty Images

Durante as hostilidades, Israel realizou centenas de ataques aéreos contra Gaza, enquanto o Hamas disparou mais de 4,3 mil foguetes. Mais de 600 deles caíram em campo aberto, enquanto 90% foram interceptados pelo sistema de defesa antiaéreo Domo de Ferro, segundo o Exército de Israel. Nesse cenário, as crianças e adolescentes palestinos são especialmente vulneráveis por alguns fatores.

Qual é a principal razão? A demografia particularmente jovem de Gaza tem um papel central. Segundo o Instituto de Estatísticas da Palestina (PCBS), dos 2,1 milhões de habitantes do território, 41% têm entre 0 e 14 anos. Em Israel, essa faixa etária responde por 27% da população; no Brasil, 21%, segundo o CIA World Factbook. A idade média do território é de 18 anos, enquanto a mundial é de 30. Apenas em pouco mais de dez países da África esse índice é menor, chegando a 14,8 no Níger. A juventude da população se explica pelo índice de fertilidade de 3,9 crianças por mulher, segundo dados do PCBS. Esse indicador vem gradualmente caindo desde 1991, quando a média em Gaza era de mais de oito nascimentos por mulher, segundo o estudo "O Recente Crescimento na Fertilidade Palestina: Permanente ou Transitório?", de Marwan Khawaja. Mas ainda é alto. Segundo a ONU, cerca de metade da população mundial vive em países cujo índice de fertilidade é de 2,1 filhos por mulher.

Destroços voam e fumaça sobe após ataque aéreo israelense em Khan Younis, no sul da Faixa de Gaza - IBRAHEEM ABU MUSTAFA/REUTERS - IBRAHEEM ABU MUSTAFA/REUTERS
Destroços voam e fumaça sobe após ataque aéreo israelense em Khan Younis, no sul da Faixa de Gaza
Imagem: IBRAHEEM ABU MUSTAFA/REUTERS

E por que tantos filhos? "Acho que parte da população considera que nunca se sabe quem vai sobreviver na família, então ter apenas um filho seria muito arriscado", afirma ao TAB Karl Schembi, consultor de mídia para Oriente Médio do Conselho Norueguês de Refugiados (CNR), ONG que ajuda 75 mil estudantes de 118 escolas na Faixa de Gaza a lidar com eventos traumáticos. Ele também aponta para a característica cultural das populações árabes em geral, não só palestina, de "amar ter famílias grandes". "Não dá para generalizar, mas se vê na região uma tendência a ter famílias maiores do que na Europa e Américas."

Qual o papel da densidade demográfica? Com uma área de apenas 365 km², a Faixa de Gaza tem 5.771,9 pessoas vivendo por km². "Quando você ataca Gaza, arrisca a vida dos civis", diz Schembi, que viveu no território entre 2009 e 2013. "É uma área densamente povoada, cheia de prédios residenciais, e nenhum lugar para escapar", afirmou. Além de não terem abrigos antimíssil para se refugiar dos ataques, os palestinos estão impedidos de fugir da Faixa de Gaza pelo bloqueio terrestre, aéreo e marítimo imposto por Israel em junho de 2007, quando o Hamas tomou o controle do território. O fechamento, que também é implementado pelo Egito em sua fronteira terrestre, restringe a circulação de mercadorias, serviços e pessoas. "O bloqueio afeta todos os direitos das crianças, como o de ter um padrão adequado de vida, o direito à saúde, educação, entre outros. Essa situação militar extrema é muito difícil para elas", opina Ayed Abu Eqtaish, diretor do Programa de Responsabilidade da DCI-Palestina.

Qual a tática empregada por Israel nos ataques? Segundo Eqtaish, o alto número de vítimas civis deriva das táticas militares de Israel. No confronto de 2014, relatou, Israel empregou a Doutrina Dahiya, estratégia militar de guerra assimétrica primeiramente aplicada na Guerra do Líbano de 2006. Ela prevê a destruição de infraestrutura civil para impossibilitar seu uso por combatentes e "para forçar a população que vive nessas áreas a pressionar os grupos de resistência a se renderem", disse. Neste ano, bairros residenciais, ruas e estradas foram destruídos, principalmente na Cidade de Gaza e no norte do território, desalojando dezenas de milhares de palestinos, afirmou Eqtaish. "Muitas famílias acabaram ficando sem teto. Vi imagens de crateras enormes no meio das ruas, o que dificultou o acesso de ambulâncias, por exemplo, às pessoas soterradas", completou Schembi, que fica baseado na Jordânia.

Bombardeio aéreo israelense atinge prédio na Faixa de Gaza onde funcionavam escritórios de duas agências de notícia, dm 15 de maio - Mahmud Hams/AFP - Mahmud Hams/AFP
Bombardeio aéreo israelense atinge prédio na Faixa de Gaza onde funcionavam escritórios de duas agências de notícia, dm 15 de maio
Imagem: Mahmud Hams/AFP

Como Israel responde às críticas? Especialistas acusam Israel de uso desproporcional da força, por ter um dos Exércitos mais poderosos do mundo e atacar um grupo armado apenas com foguetes, cuja maioria é interceptada pelo sistema de defesa. Israel rejeita as acusações, afirmando que adota precauções para evitar mortes de civis e que tem o direito de se defender da ameaça representada pelos disparos contra cidades e vilas israelenses.
"Israel não vai de maneira nenhuma pedir desculpas por ter sistemas de defesa avançados, em que morrem menos israelenses", afirmou Roni Kaplan, porta-voz das Forças de Defesa de Israel, numa coletiva online com jornalistas latino-americanos em 17 de maio.

O que Israel diz sobre a morte dos civis? Israel acusa o Hamas de usar os palestinos como escudos humanos e instalar túneis, lançadores de foguetes e infraestrutura militar perto de escolas, mesquitas e casas. Também afirma que foguetes palestinos caem em Gaza, deixando vítimas. "Por alguma razão que me escapa, certos setores acham que aquele que tem mais mortos é o mais frágil e, portanto, inocente. Incluso num caso como o do Hamas, em que são deliberadas as vítimas civis próprias e alheias", disse o embaixador Edwin Yabo, do Ministério de Relações Exteriores de Israel.

Qual a reação às justificativas? Para Eqtaish, as explicações de Israel têm como objetivo convencer o público interno de ganhos militares, proteger a imagem do país em nível internacional e tirar atenção de suas ações. "Um dos princípios da lei humanitária internacional é o princípio da proporcionalidade, distinção e necessidade", afirma Eqtaish. "Então, se o ganho militar é menor do que os riscos aos civis, o ataque não deve acontecer", disse. Schembi considera problemático que o Hamas dispare indiscriminadamente foguetes a partir de Gaza, argumentando que colocam em risco tanto israelenses quanto palestinos. "Não são mísseis guiados como os de Israel, então não se sabe aonde vão cair", afirmou. Mas ressalva que o bloqueio obriga os civis de Gaza a viver no mesmo território que combatentes do Hamas e de outros grupos armados. "Quem os transformou em escudos humanos? Foi o bloqueio", disse. "As famílias que conheço, a maioria absoluta, querem oferecer um futuro a suas crianças, não se preocupar se vão ter eletricidade, se vão ser bombardeadas. Apenas viver uma vida normal."

O cessar-fogo é a volta à normalidade? Para Schembi, enquanto a comunidade internacional não pressionar pelo fim definitivo da violência, assim como pelo levantamento do bloqueio "para que os palestinos vivam com dignidade", o cessar-fogo é apenas uma solução temporária. "Não há normal em Gaza, e é por isso que sempre volta a acontecer", afirmou. "É ótimo que os governos forneçam fundos a Gaza, mas eles têm que se posicionar. Não faz sentido ajudar a reconstruir o território e esperar que seja destruído de novo." Nos últimos 12 anos, já houve quatro conflitos entre Israel e Gaza: em 2009, 2012, 2014 e 2021. Isso significa que a população local de até 14 anos já passou pela experiência traumática de ao menos um deles. Por causa da violência e do bloqueio, muitos sofrem com ansiedade extrema, transtorno pós-traumático e têm pesadelos violentos com muita frequência, "o que é anormal para crianças dessa idade", disse Schembi.