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Do medo à vacina em Israel: como fui em queda livre rumo à vida pós-covid

A jornalista brasileira Laura Capelhuchnik, no trem que liga Tel Aviv a Haifa: ainda é obrigatório o uso de máscara em transporte público em Israel - Laura Capelhuchnik/UOL
A jornalista brasileira Laura Capelhuchnik, no trem que liga Tel Aviv a Haifa: ainda é obrigatório o uso de máscara em transporte público em Israel Imagem: Laura Capelhuchnik/UOL

Laura Capelhuchnik

Colaboração para o TAB, de Tel Aviv

30/04/2021 04h01

Faz tempo que minha lista de prioridades na vida pós-pandemia está pronta. A primeira delas era — ainda é — abraçar e beijar meus avós. Os demais sonhos são um pouco mais inusitados e menos higiênicos, talvez porque atravessar tudo isso nos dê um senso de urgência sobre prazeres que nem sabemos que são prazeres, como tatear corrimões ou suar coletivamente numa festa abarrotada. Pensava que sairia do isolamento rumo a um hedonismo sem fim e sem tanto rigor sanitário. Por enquanto, sigo profundamente envolvida com o meu algoz.

Explico. No final de 2020, ganhei uma bolsa para um estágio num podcast israelense, o Israel Story. Deixei meu trabalho no Brasil, fiz as malas, e tive de desfazê-las logo em seguida. As fronteiras do país foram fechadas em janeiro — e seguem com restrições — e eu só consegui entrar no país dois meses depois, em abril.

Se em 2020 Israel já despontava como um dos países mais competentes no combate à pandemia, quando cheguei aqui, o contraste com o Brasil era ainda mais acentuado. Em pouco menos de 24 horas, fiz uma viagem no tempo, menos pela diferença de fuso horário do que por me sentir vivendo no instante em que a maior crise sanitária do século é momentaneamente superada. Viver num tempo em que o medo da morte não é mais o centro da rotina é como poder experimentar o futuro.

Ruas cheias na região do Shuk Levinsky, em Tel Aviv - Laura Capelhuchnik/UOL - Laura Capelhuchnik/UOL
Ruas movimentadas na região do Shuk Levinsky, em Tel Aviv, na sexta (23)
Imagem: Laura Capelhuchnik/UOL

Sinto que fiz uma travessia, ou entrei em queda livre, para um mundo completamente novo: em lockdown voluntário há mais de um ano no Brasil, fui vacinada imediatamente após a quarentena para os que chegam e liberada para circular nas ruas de Tel Aviv praticamente ao mesmo tempo em que as máscaras deixaram de ser obrigatórias em ambientes abertos. Não consegui ainda me desfazer delas, não só porque estou entre as duas doses da vacina, mas porque me ver rodeada de pessoas sem proteção ainda me dá alguma vertigem.

É um constrangimento semelhante ao que se tem num daqueles pesadelos em que você se vê, de repente, nua no espaço público. Com a diferença de que não sou eu quem está sem roupa, mas todos os outros.

A ocasião em que fui vacinada foi ainda mais emocionante, porque foi também o meu primeiro passeio ao ar livre depois de dez dias em isolamento. Fui a pé até uma clínica vinculada ao meu plano de saúde, em uma caminhada de cerca de meia hora pela região central de Tel Aviv, com duas colegas também estrangeiras. Na fila, aliás, não havia nenhum israelense — provavelmente porque boa parte deles já tomou as duas doses há algum tempo —, e a profissional que nos aplicou a vacina disse que, naquele dia, só tinha imunizado novos residentes de outros países.

A jornalista Laura Capelhuchnik, tomando a primeira dose da vacina da Pfizer contra covid-19 - Laura Capelhuchnik/Arquivo pessoal - Laura Capelhuchnik/Arquivo pessoal
A jornalista Laura Capelhuchnik, tomando a primeira dose da vacina da Pfizer contra covid-19
Imagem: Laura Capelhuchnik/Arquivo pessoal

Quando mandei o registro do momento para meus amigos e familiares, recebi da minha mãe um comentário emocionado, seguido de um puxão de orelha: "Por que você não está usando a N95?". Foi a primeira vez em muito tempo que saí na rua com uma proteção menos reforçada, e ela reparou. Retomei o uso de máscaras robustas para evitar mais preocupações do outro lado do mundo.

Da vacina, fomos direto andar na areia, ver o mar e, é claro, desviar de pessoas desprotegidas. Aqui já nos aproximamos do verão. Em certos dias, a temperatura já alcança os 35ºC. Aos finais de semana, quando há sol, todo mundo está de volta às praias, sem muito pudor em relação à proximidade das pessoas e cadeiras. O mesmo acontece nos parques: é comum ver alguns idosos ainda de máscara ou mais distantes, mas os jovens aparecem aos montes nas tardes do Rothschild Boulevard, uma das áreas mais famosas da cidade, fazendo piqueniques e passeando em grupos grandes, sem muito receio. Eles também já planejam viagens para as férias de verão, ao menos dentro do país. Passeando por lá dá até para esquecer por alguns instantes que, há poucos meses, estávamos todos isolados em casa.

Moro em Tel Aviv, e uma vez por semana vou a Jerusalém a trabalho, além de fazer trajetos esporádicos entre outras cidades para acompanhar entrevistas. Ainda é obrigatório usar máscara em locais fechados e também no transporte público, então geralmente o ponto de ônibus é o lugar ao ar livre onde você mais encontra pessoas de máscara. E por isso é onde também, ironicamente, tenho me sentido mais segura quando estou fora de casa. Só que não é todo mundo que respeita essa regra, sobretudo entre os jovens, que combinaram tacitamente que o dress code adequado para se deslocar pela cidade é o da máscara no queixo ou, pior, entre a boca e o nariz.

Nessa minha ainda curta estadia, criei algumas inimizades entre os membros do grupo da meia-máscara. Ainda não domino o hebraico, mas além de "por favor", "com licença" e "obrigada", rapidamente incorporei ao meu vocabulário a frase "Ani mevakeshet shetasim et Hamasecha bevakasha?", que em português significa: "Você pode colocar a sua máscara, por favor?" É o que eu tenho dito para quem senta do meu lado no trem. O lado bom é que eu ainda não entendo o teor dos resmungos de resposta.

Estou reaprendendo a entrar no transporte público sem adotar uma postura enrijecida e vigilante. É como se, depois de um ano de isolamento, eu tivesse que, num sobressalto, reconfigurar meu HD para que ele abandone de vez a sensação constante de iminência de catástrofe.

Boulevard Rothschild, em Tel Aviv - Laura Capelhuchnik/UOL - Laura Capelhuchnik/UOL
Boulevard Rothschild, em Tel Aviv, na sexta (23)
Imagem: Laura Capelhuchnik/UOL

Embora o país ainda esteja se preparando para vacinar os menores de 16 — e por isso, também, as restrições e cuidados continuam rigorosos em espaços fechados —, o medo da contaminação já não é mais o assunto que mais se pesca em conversas de bares, mercados, restaurantes. É claro que há a preocupação com as variantes, com as crianças de volta à escola, mas também é muito presente a esperança de uma flexibilização cada vez maior a partir de maio. A covid-19 vira assunto nos espaços de socialização quando você conta que é estrangeiro — logo vai haver curiosidade sobre em que pé está a pandemia no seu país natal. Quando conto que sou do Brasil, não preciso explicar muita coisa. A maioria sabe, ao menos superficialmente, que a situação é a pior possível, me pergunta sobre amigos e familiares, e se eu já agendei a segunda dose da vacina.

Um lado meu já se sente preparado para novos desafios, como ir a uma festa ou, num futuro promissor, lamber uma maçaneta, mas outro não se desliga nem por um minuto do que se passa no Brasil. Recebi a primeira dose da vacina antes da minha mãe, que tem 64 anos. Eu faria qualquer coisa para trocar de lugar com ela. Sinto o mesmo pelos meus amigos professores, pelos meus colegas jornalistas, e por todas as pessoas que, diferentemente de mim, não podem ficar em casa e não se expor ao vírus.

É triste e irônico observar os laços entre Brasil e Israel que o bolsonarismo forja, tentando se associar ao Estado israelense e aos seus símbolos, mas ignorando tudo o que, no país, não condiz com sua agenda. Enquanto o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu colhe os frutos de três lockdowns rigorosos e uma campanha consistente de vacinação — da qual inclusive foi garoto-propaganda —, que já imunizou mais da metade da população, Bolsonaro minimiza a importância do distanciamento social e permanece impávido diante das centenas de milhares de brasileiros mortos. A Israel pela qual o presidente brasileiro é aficionado é muito pouco pragmática: trata-se de um país imaginário, que corresponde às suas demandas políticas, como define o historiador Michel Gherman, mas não à realidade. A Israel que vejo é outra.

Mas a realidade aqui também tem muitos tons. O programa de vacinação mais bem-sucedido do mundo esconde uma catástrofe, fruto da segregação. Não muito longe deste perímetro paradisíaco, há quase cinco milhões de pessoas na Faixa de Gaza e na Cisjordânia que ainda estão expostas à contaminação e vendo o número de casos aumentar diariamente. Entre outras iniciativas, contudo, alguns grupos de cidadãos palestinos já foram vacinados pelo Estado judaico: residentes de Jerusalém Oriental, trabalhadores de Israel e de assentamentos na Cisjordânia.

Restaurante Mayaan Habira, em Haifa (Israel): à exceção das máscaras nos atendentes, clima é de normalidade - Laura Capelhuchnik/UOL - Laura Capelhuchnik/UOL
Restaurante Mayaan Habira, em Haifa (Israel): à exceção das máscaras nos atendentes, clima está próximo da normalidade
Imagem: Laura Capelhuchnik/UOL

A máquina do tempo que peguei do Brasil a Israel anda gerando seriíssimas negociações entre cérebro e coração para se adaptar à nova realidade e retomar as atividades de que tanto sentia falta. Já fui à praia, já encontrei familiares, já tomei minha primeira cerveja numa mesa de plástico em um ano e dois meses. Por alguns lugares ainda não posso circular — é necessária a apresentação do "passaporte verde", comprovando a imunização completa, para poder ir a shows e espaços fechados de bares e restaurantes. Confesso que, se agora tivesse esse passaporte em mãos, talvez não me sentisse preparada, mesmo sabendo que o risco de infecção e hospitalizações despencou desde o último lockdown, em fevereiro.

Os dias vão passando e o pesadelo da multidão sem roupa se dissipa. É como se eu tivesse vagarosamente tirando a cabeça do inferno e olhando em direção a um restrito Éden. Espero, dentro de alguns dias ou meses, aceitar a nudez sem culpa.