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Lockdown tenta afastar turista, mas nem população segue em casa na Baixada

Placa avisa que a Praia de Pitangueiras, no Guarujá, está interditada - Felipe Pereira
Placa avisa que a Praia de Pitangueiras, no Guarujá, está interditada Imagem: Felipe Pereira

Felipe Pereira

Do TAB

27/03/2021 04h01

Cidades turísticas montando barreiras sanitárias para impedir a entrada de forasteiros. Isto durante um mega feriado em São Paulo que coincide com um fim de semana de sol e com os estertores do verão no país. A pandemia criou situações surreais. Apesar de soar contraditória, a medida faz sentido quando analisado o sistema de saúde dos municípios da Baixada Santista, que estão em lockdown desde terça-feira (23).

O prefeito de São Vicente, Kayo Amado (Podemos), diz que a cidade tem 10 leitos de UTI, todos sempre lotados. Ele estranhou quando abriram seis vagas: foi informado que a causa era uma alta e cinco óbitos. O prefeito define a situação como uma "esteira de morte" e argumenta que não é o momento de receber pessoas de fora. "Como podemos aceitar quem venham turistas? A gente adora o turista, mas agora não é hora."

A combinação entre lockdown e barreira sanitária contra o turismo funcionou na Baixada Santista. As praias do Guarujá e de Santos, no litoral norte de São Paulo, estavam desertas na sexta-feira (26). Faltou a população colaborar. O monitoramento de isolamento social do governo de São Paulo mostra que, na última quinta-feira (25), dia do dado atualizado, 41% dos moradores de Santos ficaram em casa. A taxa é inferior a de quinta-feira da semana anterior, quando fechou em 42%.

No Guarujá, o isolamento ficou em 46% na quinta-feira (25) — um único ponto percentual acima da quinta anterior O lockdown não conseguiu manter a população em casa, mas as medidas que dificultam o turismo foram efetivas. O grande pilar foram as barreiras montadas na entrada das cidades da Baixada Santista. Quem não apresentasse justificativa, não pegava a balsa para o Guarujá, nem passava do trevo de entrada da cidade. O alvo das medidas eram os moradores de São Paulo, onde está em curso a antecipação de uma série de feriados, de 26 de março a 4 de abril.

Em Santos, uma barraca de apoio foi montada próxima ao cemitério do Saboó, no final do sistema Anchieta-Imigrantes. O trabalho de vigilância é feito por agentes da CET (Companhia de Engenharia de Tráfego) de Santos. Ontem (26), eles pediam para os carros de fora encostarem na pista da direita, que fica junto ao canteiro central. O motorista era abordado por um guarda municipal e recebia ordem de voltar para cidade de origem, caso não apresentasse motivo para entrar em Santos. Policiais militares estavam de prontidão se os turistas se recusassem a cumprir a ordem — algo que não ocorreu até agora.

Ponto de ônibus - Felipe Pereira - Felipe Pereira
Mesmo com lockdown, ponto de ônibus ficou lotado no Guarujá
Imagem: Felipe Pereira

Escolher qual veículo parar é simples, entre os carros com as placas tradicionais, mas as placas do Mercosul não indicam a cidade. O agente da CET explicou que o truque usado é ver se os faróis estão ligados, sinal de que o carro estava na rodovia.

Estar com a família é indício forte; ter os bancos cheios de tralhas é batom na cueca. Os agentes têm expertise, mas são poucos. Havia uma dupla da CET, uma dupla da Guarda Civil Municipal e dois soldados da PM. Veículos de outras cidades aproveitavam o descuido do sexteto, ocupado em abordagens e orientações, e aceleravam, dando um perdido na fiscalização.

A burocracia também jogava contra o trabalho. Em Santos, a Guarda Civil não é considerada agente de trânsito. Por isso, não pode abordar carros. Os agentes da CET precisaram sair para resolver a situação de um farol intermitente, na manhã de ontem. Durante a meia hora em que ficaram fora, não havia como parar veículos.

Além disso, esta é a única barreira e Santos tem outras duas entradas, ambas sem barreira. O calor também joga contra. Fazia 30°C e a umidade era tanta que a sensação térmica alcançava 34°C, no final da manhã de ontem. Cada meia hora de serviço exigia uma parada para enxugar uma garrafa de água. A pausa durava uns bons 10 minutos.

A esta altura, o boné estava com a borda molhada e a manga da camiseta com fator de proteção solar usada por baixo do uniforme mudava de cor, porque encharcara de suor. Pior era a sensação de trabalho inútil.

Os homens cumpriam a função porque era a "missão do turno", mas diziam se sentir enxugando gelo. No posto de combustível da calçada, a máscara era tão ineficaz quanto o capacete usado no cotovelo. Clientes e frentistas ficavam com ela no queixo. A ciclovia que passa no canteiro central tinha metade dos ciclistas sem máscara.

Barreira sanitária - Felipe Pereira - Felipe Pereira
Barreira sanitária em Santos exige justificativa para pessoas de fora entrarem na cidade
Imagem: Felipe Pereira

Praias vazias

Motoristas que apresentavam justificativa para ir a Santos tinham autorização de continuar viagem. Logo, eles estavam com o carro sacudindo ao passar pela linha da máquina, que é como os moradores da cidade chamam os trilhos de trem que cortam suas ruas.

Mas a vida em Santos não era das mais fáceis. A Baixada Santista está em lockdown, e neste sábado, até os supermercados estão fechados. Praia, nem pensar. Uma faixa zebrada esticada na linha do meio-fio, cerca de plástico ao final da ciclovia e grades de metal antes da areia impedem o avanço.

Os equipamentos de esportes náuticos, como canoas e caiaques, estão inacessíveis atrás das grades. A areia está tão vazia quanto aquela típica foto de catálogo de agência de viagem, tentando vender uma praia como selvagem. Mas o trânsito de Santos não combina com o esperado de uma cidade em lockdown. Havia até filas nas ruas que passam ao lado dos canais da cidade.

Praia vazia - Felipe Pereira - Felipe Pereira
Praia completamente vazia no Guarujá durante lockdown
Imagem: Felipe Pereira

Nos faróis, pessoas que não têm opção de ficar em casa erguiam cartazes. O pincel de tinta preta no papelão escreveu que a bala de goma custa R$ 1. O vendedor de água usava a garganta, mesmo. Mas o item mais oferecido pelos vendedores era pano de prato. Por R$ 10, o motorista poderia voltar para casa com meia dúzia deles.

Com suas particularidades, o Guarujá apresentava cenário semelhante. Muitas pessoas vão trabalhar de bicicleta na cidade e, cada vez que o sinal ficava vermelho para os carros no final da tarde, elas invadiam a avenida. No ponto de ônibus, não havia lugar para todos se sentarem.

A praia estava completamente deserta e pouca gente caminhava ou corria pela orla. No Guarujá, a fiscalização é feita por policiais militares que circulam de bicicleta. Eles tiveram muito trabalho, porque quase ninguém usava máscara. Os garis falavam o contrário. O serviço nunca foi tão fácil.

Temporada já era

O outono começou no sábado passado (20). Com a prorrogação da fase emergencial, os comerciantes do Guarujá declararam encerrada a época das oportunidades. Acabou a temporada.

Fernando Barbosa da Silva, 63, é dono de um quiosque na beira da praia. Estava no local para lavar os guarda-sóis, que estragam se ficarem guardados por muito tempo.

De havaianas, bermuda azul, sem camiseta e canelas cheia de areia, afirmou que sempre faz uma gordura financeira na temporada quente para pagar os impostos de começo de ano e sobrar uma quantia para o restante. Em 2021, o IPTU de R$ 11 mil será parcelado e vai ser suado para juntar o dinheiro. "Vou contar as moedinhas para dar conta."

Fernando  - Felipe Pereira - Felipe Pereira
Fernando vai contar as moedinhas para pagar o IPTU deste ano
Imagem: Felipe Pereira

Eduardo Jeronimo da Silva é gerente de um restaurante na beira da praia e não esconde o jogo. Ele tem feito tanta contabilidade que sabe os números de cabeça. O faturamento dos últimos seis meses foi R$ 4 milhões menor que o intervalo outubro de 2019 a março de 2020.

O restaurante tem 200 mesas e chegava a haver fila de espera. Hoje, Eduardo espera pela vacina. Com uma queda tão brutal, a folha salarial foi cortada quase a zero. Eram 70 funcionários antes da pandemia, agora ele comanda um cozinheiro, um ajudante de cozinha no turno do dia e uma equipe do mesmo tamanho à noite.

"Com o delivery, mantivemos uns 10% das vendas normais. Pelo menos temos uns clientes fiéis."

O sacrifício tem sido imenso e parece que não está surtindo resultado. Prefeito de Santos, Rogério Santos (PSDB) diz que o mais alarmante é o número de leitos de UTI da cidade subir de 90 para 360 e, mesmo assim, haver pressão no sistema de saúde.

"Agora é outra pandemia, com a prevalência da cepa P1. O vírus está mais rápido que nossa capacidade de abrir novos leitos, formar equipes, adquirir insumos."

Nada sugere que o cenário vá mudar no curto prazo. Pelas próximas semanas, o único movimento no mar das cidades da Baixada Santista será dos navios manobrando para atracar no porto.