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'Checagem de estabilidade' explica shoppings cheios de consumidores

Lucas Sankey/Unsplash
Imagem: Lucas Sankey/Unsplash
Michel Alcoforado

Michel Alcoforado Doutor em Antropologia, Michel Alcoforado se especializou em Antropologia do Consumo pela University of British Columbia, no Canadá, onde trabalhou prestando consultorias para agências especializadas em pesquisa de mercado, comportamento do consumidor e tendências de consumo. No Brasil, fez pesquisas sobre comportamento de consumidor on e off-line, especializou-se em Planejamento Estratégico de Comunicação e trabalhou como estrategista para grandes marcas. É pós-graduado em Comunicacão Integrada na ESPM e em Brand Luxury Management na London College of Fashion. Palestrante no Brasil e no Exterior, é membro do Instituto Millenium - um dos maiores think tanks brasileiros, colunista da revista Consumidor Moderno e Sócio-diretor da Consumoteca, uma boutique especializada no consumidor brasileiro. Atualmente, cursa um MBA na Berlin School of Creative Leadership/ Steinbeis University.

Colunista do UOL

18/06/2020 04h00

Faz 3 meses que não saio de casa. Não sinto falta da rua, do parque, dos botecos do bairro, de sobremesa de restaurante e nem de amarrar os sapatos. De vez em quando, até sonho com viagens. Nada de mais.

O mercado da aviação sofrerá com a retomada. Especialistas apontam que as companhias perderão até US$ 252 bilhões — uma perda de 44% no faturamento em relação a 2019. Os clientes sumiram. Por ora, não pensam em férias. E, num futuro próximo, também não viajarão a trabalho. O mercado de viagens corporativas representava 70% da ocupação dos voos domésticos no Brasil.

A cidade pouco importava. Eventos, feiras, congressos reuniam multidões alvoroçadas por brindes, comida gordurosa e pelos "palestrinhas". Videntes modernos, de vigorosa animação, com ajuda de diagramas simples vendiam um futuro proporcional às nossas ambições. "Só depende de você", gritavam, e a multidão aplaudia. A Covid-19 os deixou mudos nas redes sociais, nos livros e nos palcos. Os slides já não explicam nada. Eu não sei vocês, mas em tempos de pandemia, só sinto falta é dos palestrinhas e do mundo que cabia nas suas explicações.

Daniel Drezner, no livro "The Ideas Industry", analisa o mercado do pensar nos Estados Unidos. Para o autor, os "palestrinhas" (no original em inglês, thought leaders) fazem sucesso no mundo corporativo porque explicam com fórmulas simples e facilmente aplicáveis o inexplicável. Com a ajuda de histórias inspiradoras ou cases de sucesso, eles encorajam as massas a agir como se as revoluções dependessem do horário em que acordamos (o clube dos "5 da manhã"), da união entre corpo e mente (meditação) ou da descoberta da própria paixão.

Palestrinhas não veem contradições irreparáveis no sistema. Suas ideias são como sorvete em dia de sol. Descem rápido, refrescam por alguns segundos, dão esperança de que os problemas se resolverão em segundos — mesmo que o sol continue lá, a pino, queimando a moleira dos desavisados.

Diante da pandemia de Covid-19, o empresariado tem caído no bico doce dos palestrinhas no covil dos aplicativos de reunião. Tem muita gente com a garganta fresca e miolos queimados. Depois de Roberto Justus, Junior Durski e da preocupação com a morte dos CNPJs, a moda é acreditar que o futuro será o passado. Defendem que, com o fim das restrições ao comércio, os consumidores voltarão a comprar. E, como de costume, provam as previsões com cases ou matérias de jornal.

O caso da Hermès de Guangzhou, na China, não pode faltar. Por lá, os ricos invadiram as lojas e torraram mais de R$ 14 milhões em bolsas, lenços e penduricalhos de luxo num único dia. Foi um recorde. Na França, a classe média se apinhou na porta da Zara. Os curiosos desejavam ver o que o varejo tem a oferecer depois de meses parado.

Semanas atrás, a consultoria Boston Consulting Group publicou um estudo mostrando que 38% dos brasileiros, sem as restrições, voltariam rapidamente às lojas de produtos não essenciais. Dito e feito. Os shopping centers comemoram o retorno. As cenas nos jogam num abismo niilista e nos fazem duvidar se somos o centro da pandemia mundial como dizem os especialistas. Já era esperado.

Os palestrinhas, mais uma vez, se valem de termos em inglês para explicar o óbvio. Trata-se de um revenge buying, dizem. Com a suspensão da proibição legal, nós, como crianças pirracentas, colocamos nossos desejos acima de qualquer recomendação e vamos às ruas.

A vida é mais complexa. Mais de 44 mil pessoas já morreram no Brasil, Nova York fechou, as Olimpíadas foram adiadas, as mães enlouqueceram com os filhos em casa, os casamentos acabaram pela convivência. Não deu nem tempo de tentar uma nova lua de mel. O Mickey perdeu o emprego em Orlando e deve estar, a uma hora dessas, fazendo entregas no Rappi. E, ainda assim, tudo voltará a ser como antes? Será?

Pandemias reestruturam por completo a sociedade por onde passam. Queiramos ou não. Elas materializam o perigo das relações, revelam contradições, desafiam acordos e contratos de séculos, nos cobram decisões e mudanças. Quem não muda, morre ou sofre com os rastros da doença. O alto fluxo de pessoas nos comércios em nada tem a ver com vingança. Afinal, vamos entrar na maior crise econômica dos últimos 100 anos, comprando sem saber se poderemos pagar. No final das contas, estamos nos vingando de quem?

O retorno às lojas precisa ser entendido como checagem de estabilidade. Isto é, diante tanta imprevisibilidade, da suspensão da rotina e da insegurança, precisamos de âncoras que nos façam crer que o mundo ainda existe como conhecíamos. É o que explica a sana por rolos de papel higiênico e, agora, pela retomada do consumo.

Aqueles que não compreenderam a correlação entre papel higiênico e pandemia ou ânsia dos populares por uma peça de roupa falham em enxergar o mundo com os olhos dos outros. Nos dois momentos o que está em jogo é a busca pela manutenção do sistema de crenças e valores, de que as coisas ainda estão em seus lugares e que estamos preparados para qualquer terremoto, não importa a magnitude. Sem nenhuma experiência prévia em pandemias, o item básico do cuidado higiênico como náufragos buscam boias no mar revolto. É como se disséssemos a nós mesmos: apesar dos pesares, ainda somos humanos.

Paulo Roberto da Silva, 69 anos, e sua mulher, Soraia Abreu Alvez, de 60, não perderam tempo. No primeiro dia da alforria, foram ao Barra Shopping, no Rio, para ver as novidades. Comemoraram com uma selfie o retorno. Ele estava "realizado depois de tanto tempo de quarentena". Ela, feliz por relembrar "os muitos bons momentos que viveram ali".

É certo que classe, idade, consumo, mídia (sobretudo, acesso a imprensa) são os pontos fundamentais para definir a quais âncoras nos apegamos para continuar a viver. É o que diziam as pesquisas e o que vemos agora. Os mais pobres voltam mais às lojinhas. O comércio premium e de luxo continua à míngua. Os mais ricos se viram de outro jeito.

Em coluna recente na Folha de São Paulo, Nizan Guanaes, empresário e guru das elites, deu um veredicto e conclamou os seus. Reforçou que a Covid-19 mata. Fato. Depois, revelou que anda com tempo livre e preocupado com as finanças. Exagero. Mesmo assim, teve uma epifania.

Decidiu montar a árvore de Natal seis meses antes das festividades. Crê que o símbolo tem o poder de "tirar o coração do dia a dia das notícias, da crise, da crise, da crise. E todos vão lembrar que, a despeito da crise,(...) haverá Natal". Seu "check" de estabilidade. Diante de uma vida sem previsibilidade, com calendário suspenso e sem rituais, os mais ricos preferem crer no retorno do Papai Noel. Deus queira que a TV Globo não entre na onda e adiante a sua campanha de fim de ano.

Aqui, se você não acreditar em Papai Noel, não tiver árvore de Natal em casa e não quiser voltar ao comércio local, te sugiro buscar outra checagem de estabilidade na retomada. Por isso, só tenho um pedido: não acabem com os palestrinhas. Eles nos lembram que tudo continua do jeito que sempre foi.

Ai, que saudades!

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL