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Youtuber Felipe Neto foi alvejado pela ditadura da falsa maioria

Felipe Neto, em entrevista para o Jornal Nacional nesta quinta-feira (30) - Reprodução/TV Globo
Felipe Neto, em entrevista para o Jornal Nacional nesta quinta-feira (30) Imagem: Reprodução/TV Globo
Michel Alcoforado

Michel Alcoforado Doutor em Antropologia, Michel Alcoforado se especializou em Antropologia do Consumo pela University of British Columbia, no Canadá, onde trabalhou prestando consultorias para agências especializadas em pesquisa de mercado, comportamento do consumidor e tendências de consumo. No Brasil, fez pesquisas sobre comportamento de consumidor on e off-line, especializou-se em Planejamento Estratégico de Comunicação e trabalhou como estrategista para grandes marcas. É pós-graduado em Comunicacão Integrada na ESPM e em Brand Luxury Management na London College of Fashion. Palestrante no Brasil e no Exterior, é membro do Instituto Millenium - um dos maiores think tanks brasileiros, colunista da revista Consumidor Moderno e Sócio-diretor da Consumoteca, uma boutique especializada no consumidor brasileiro. Atualmente, cursa um MBA na Berlin School of Creative Leadership/ Steinbeis University.

Colunista do UOL

01/08/2020 04h00

Acredite se quiser, caro leitor.

Há mais de 50 dias, o Brasil é o país com a maior média de mortes diárias no mundo por causa da pandemia que sacudiu nossas vidas. Mas, mesmo assim, vira e mexe, somos obrigados a lidar com questões que, para qualquer gringo, pareceriam assuntos menores ou sem importância.

No país da beleza e do caos, os problemas pulam como sapos sem ao menos nos dar a chance estabelecer prioridades, metas ou planos. Onde falta o básico, tudo importa. Não há tempo para hierarquizações.

Dessa vez, o que nos tira o sono (para além da pandemia) não é desmatamento da Amazônia, a ameaça de taxação de livros e da cesta básica, os acordos com o centrão na calada da noite e muito menos o apagão do Fundeb (salvo pelo gongo em votação recente). Esses são problemas da semana passada. O bicho tá pegando é na internet. Querem cancelar de uma vez por todas o maior youtuber do país.

Felipe Neto é um dos primeiros influenciadores digitais. Seus números impressionam. São mais de 39 milhões de inscritos no seu canal do YouTube, outros 12 milhões no Instagram e uma multidão de seguidores no Facebook e no Twitter.

O sucesso veio do histórico de vídeos divertidos que criou nos primórdios do YouTube, no agenciamento de outros aventureiros do ponto.com e pelas suas opiniões sobre o Brasil, a política e o mundo. O garoto de cabelos coloridos, óculos e gestos teatrais cresceu e agora é capaz de analisar tudo. Vai de cenários e jornadas secretas nos jogos do momento aos dilemas da literatura russa. Sem deixar de lado a política e as questões nacionais. Felipe sabe da sua influência e da força das palavras que diz e das coisas que faz. Ele é uma máquina de reverberações.

De uns tempos pra cá, resolveu criticar os políticos. Expôs os desvarios de Dilma Rousseff, as derrapadas de Michel Temer e os abusos da santíssima trindade puritana formada por Crivella, Witzel e por Bolsonaro.

Deu no New York Times! Na última semana, o youtuber fez um vídeo-manifesto para o jornal norte-americano em que afirmava que Jair Messias Bolsonaro é o pior líder mundial no combate a Covid-19. O sucesso foi tamanho que sua análise ficou por horas em destaque na página do jornal mais importante do mundo. Foi chuva de clique!

Aí, não. Aí não pode. Foi longe demais — pensaram alguns.

Rapidamente, robôs, milícias digitais, financiadores de campanha, máfias do WhatsApp, tios de verde e amarelo se uniram para estraçalhar a reputação de Felipe Neto. O time de mídias sociais já observa o impacto sobre a imagem digital do influenciador. Pedófilo é o principal termo atrelado ao seu nome. O estrago está feito.

Isso tudo porque, por aqui, já não é possível discordar no campo das ideias sem colocar o dedo no olho do opositor. A máquina bolsonarista criou uma engenhoca para queimar gente viva. Assim como era nos tempos da Inquisição.

Resvala sobre o nome de Felipe um suposto tuíte em que o comunicador teria estimulado a prática da pedofilia. O youtuber negou a autoria. As agências de checagem comprovaram a maracutaia. Pouco importa. Ele já circula pelo Brasil com mais velocidade do que o novo coronavírus. Talvez, por culpa da ação voraz do financiamento de robôs, bots e afins.

Desde então, Felipe Neto sofre na vida on e offline. Nessa semana, bolsonaristas foram à porta de sua casa para protestar. Com vestimentas e falas cafonas, clamaram pelo nome do youtuber e o chamaram para a briga. Assim como na Idade Média, quando os conflitos eram resolvidos a tiro, porrada e bomba nos duelos.

Em 2020, o maior desafio do Brasil é chegar ao século 21. Quando a humanidade já sabe que sereias não existem, sacis pererês são mitos, cloroquina não funciona, a liberdade de expressão é um direito e uma conquista dos Estados democráticos e o direito individual termina onde começa o dos outros, por aqui, precisamos voltar ao beabá.

O Brasil pós-2018 não conhece os conceitos de democracia, igualdade e liberdade. Não sabe que a vida democrática não pode existir sob a batuta da ditadura da maioria (ainda que robotizada e comprada) e com desrespeito às liberdades individuais.

Só pra ficar claro: Felipe Neto tem direito de falar o que quer, o que pensa e com quem quer quer que seja, sem medo de represálias. E, todos nós, cidadãos de bem, precisamos defender o direito dele, mas para que também defendam o nosso de falar, pensar e existir. Se nem isso nos for garantido, é melhor fazer como mandam os técnicos da informática: tira da tomada, deixa desligado, espera 15 segundos e, quando ligar de novo, reza para funcionar. É o jeito.

Dito isto, voltemos ao que importa.

Cuidem-se. Usem máscara e, se possível, fiquem em casa.

Até a próxima.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL