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Michel Alcoforado

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Por que seguimos achando que o vigente ano é o pior de nossas vidas?

Profissional do Samu aguarda atendimento com paciente com covid-19 dentro de ambulância, na frente do Hospital e Pronto Socorro 28 de Agosto, em Manaus (AM)  - Edmar Barros/Estadão Conteúdo
Profissional do Samu aguarda atendimento com paciente com covid-19 dentro de ambulância, na frente do Hospital e Pronto Socorro 28 de Agosto, em Manaus (AM) Imagem: Edmar Barros/Estadão Conteúdo
Michel Alcoforado

Michel Alcoforado Doutor em Antropologia, Michel Alcoforado se especializou em Antropologia do Consumo pela University of British Columbia, no Canadá, onde trabalhou prestando consultorias para agências especializadas em pesquisa de mercado, comportamento do consumidor e tendências de consumo. No Brasil, fez pesquisas sobre comportamento de consumidor on e off-line, especializou-se em Planejamento Estratégico de Comunicação e trabalhou como estrategista para grandes marcas. É pós-graduado em Comunicacão Integrada na ESPM e em Brand Luxury Management na London College of Fashion. Palestrante no Brasil e no Exterior, é membro do Instituto Millenium - um dos maiores think tanks brasileiros, colunista da revista Consumidor Moderno e Sócio-diretor da Consumoteca, uma boutique especializada no consumidor brasileiro. Atualmente, cursa um MBA na Berlin School of Creative Leadership/ Steinbeis University.

Colunista do TAB

14/02/2021 04h01

Voltei.

Queridos leitores (se é que me resta algum para além dos haters costumeiros), depois de semanas afastado dessa seara por causa das dezenas de rabanadas, coxas de peru, fatias de tender com fios de ovos, colheradas no pudim preferido, voltei. Para tristeza de alguns, dessa vez, para ficar.

Desde já, peço desculpas porque, apesar da longa ausência, não trago boas notícias: os próximos 365 dias serão terríveis.
Nem mesmo a possibilidade de fazermos um combo com vacina de Oxford, da China ou de Marte, ou a expectativa de impeachment do dito-cujo, será capaz de revigorar as nossas expectativas. 2021 promete ser o pior ano de nossas vidas.

Não há com que se preocupar. Há pelo menos uma década, temos a certeza de que o ano vigente conta com os dias mais abomináveis da história do planeta.

É certo que o ano de 2020 teve lá suas razões para merecer o título. O mundo parou. Mais de 2 milhões de pessoas morreram por complicações provocadas pelo novo coronavírus. A economia global tombou num abismo de problemas e a promessa de um futuro marcado por altas taxas de desigualdades sociais e desemprego, e também pelo acirramento das contradições da geopolítica internacional, virou realidade (ou, o novo normal, como preferem alguns).

No entanto, antes mesmo da chegada da invasão viral, já tínhamos reservado a terrível alcunha à 2019. Maísa, a apresentadora e influenciadora digital, viu um simples tuíte viralizar de uma hora pra outra quando, ainda em fevereiro de 2019, decretou que aquele ano era pior que o anterior.

Milhares de seguidores compartilharam o tuíte, endossando a posição da jovem.

Jogo duro de aceitar para quem viveu um 2018 capaz de jogar no lixo qualquer otimista desavisado. O ano foi tão ruim que ganhou até uma biografia.

Mário Magalhães, jornalista e biógrafo, afirmou que o período merecia uma biografia porque tinha a certeza de que, depois de 1968, estávamos, mais uma vez, diante de um ano sem fim. A sucessão de eventos surpreende. O jornalista abre "Sobre Lutas e Lágrimas" com a descrição do Réveillon da vereadora Marielle Franco e termina com a posse de Jair Messias Bolsonaro. De um ponto a outro, vamos do assassinato da vereadora à prisão de Lula (ex-presidente), passando pelo incêndio no Museu Nacional, facadas, epidemia de fakes news, surtos de febre amarela e muito mais.

Uma pesquisa do Sebrae com empresários mostrou que a tempestade afetou até os negócios. Para 46% dos entrevistados, 2018 foi o pior ano para fechar negócios das últimas décadas.

No entanto, alguém precisa lembrá-los que muitos deles já tinham dado o título de pior ano de suas vidas a 2017. Afinal, o período foi marcado pelos fantasmas vistos por Michel Temer no Palácio do Alvorada, pela garçonnière baiana com 50 milhões de dólares de Geddel Vieira Lima e pelas malas de dinheiro nos Jardins, bairro chique de São Paulo, nos braços de um homem próximo ao presidente.

Seguindo essa toada, não é preciso lembrar dos acontecimentos de 2016 para provar que foi pior do que 2015, este pior que 2014, e assim por diante.

A confusão se espalhou e invadiu os muros da Universidade de Harvard. Depois de uma longa investigação, os cientistas vaticinaram que o pior ano da humanidade foi no século 6. Em especial, no ano de 536. Segundo o historiador Michael McCormick, o planeta foi tomado pela erupção de um vulcão na Islândia que cobriu o céu do Hemisférico Norte de cinzas. De uma hora para outra, os dias viraram noite. E o pior, por meses.

A mudança abrupta nas condições climáticas (qualidade do ar, umidade, luminosidade, queda de temperaturas, entre outros) bagunçou o calendário das colheitas. Foi quando a fome se espalhou pelos países europeus e a mortandade começou.

Como um tempero adicional, dois terremotos sacudiram as igrejas, as casas, palácios e destruíram a já combalida infra-estrutura de esgoto, fornecimento de água e o fluxo de mercadorias. As péssimas condições de higiene e alimentação abriram brechas para o surgimento de uma nova peste que ceifou a vida de milhões de pessoas.

Em um cenário tão calamitoso, fica difícil defender que lockdown, distanciamento social, uso de máscaras e álcool, um presidente desmiolado e um ministro general incapaz de comandar até mesmo tropas de seringas estão à altura das maldades do tenebroso ano de 536. Não estão. Falta a 2020 toneladas de desgraças para ganhar o título.

No entanto, a pergunta se mantém: por que, há anos, seguimos achando que o vigente ano é o pior ano de nossas vidas? A resposta é simples: nada mais está garantido e ninguém se garante mais. A quebra contínua dos nossos planos e projetos de vida, da lógica cotidiana e cobrança por um novo plano a cada solavanco do destino é a causa de um mal-estar gigante e agrava nossa percepção negativa sobre o momento. São as rupturas com aquilo que esperamos que nos fazem crer que estamos diante do pior período.

2020, com todas as suas mazelas, foi apenas mais um exemplo de um ano que ceifou nossos planos e nos obrigou a ajustar a rota. Infelizmente, com pouco mais de 40 dias, 2021 não promete ser diferente. O carnaval foi suspenso e nem feriado será. Quem planejou ser vacinado logo já entendeu que faltam insumos, boa vontade, logística e a espera pelo remédio será longa. A economia patina. O presidente grita. O ministro da Saúde mente e sua colega da pasta da Mulher, Família e Direitos Humanos reza. Nada segue o esperado da normalidade e da obviedade.

Diante de tal cenário, não há outra solução. Enquanto não nos acostumarmos à ideia de que não há mais normal, nada mais é óbvio e viver no caos é a regra, o jeito é segurar o rojão, agarrar-se ao álcool em gel e seguir. Sorte a nossa que chegou o carnaval:

"Chorei. Não procurei esconder.
Ali onde eu chorei, qualquer um chorava.
Dar a volta por cima que eu dei quero ver quem dava.
(...)
Reconhece a queda, mas não desanima.
Levanta sacode a poeira e dá a volta por cima."

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL