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Michel Alcoforado

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Fim do meme da Glória Pires: por que ninguém mais faz a egípcia nas redes?

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Michel Alcoforado

Michel Alcoforado Doutor em Antropologia, Michel Alcoforado se especializou em Antropologia do Consumo pela University of British Columbia, no Canadá, onde trabalhou prestando consultorias para agências especializadas em pesquisa de mercado, comportamento do consumidor e tendências de consumo. No Brasil, fez pesquisas sobre comportamento de consumidor on e off-line, especializou-se em Planejamento Estratégico de Comunicação e trabalhou como estrategista para grandes marcas. É pós-graduado em Comunicacão Integrada na ESPM e em Brand Luxury Management na London College of Fashion. Palestrante no Brasil e no Exterior, é membro do Instituto Millenium - um dos maiores think tanks brasileiros, colunista da revista Consumidor Moderno e Sócio-diretor da Consumoteca, uma boutique especializada no consumidor brasileiro. Atualmente, cursa um MBA na Berlin School of Creative Leadership/ Steinbeis University.

Colunista do TAB

17/09/2021 04h01

Pode parecer fofoca de jornal de quinta categoria, mas a recente cobrança para que artistas e celebridades se posicionem sobre os problemas do mundo é uma aula sobre a gestão da privacidade e da intimidade nos tempos modernos.

Aos menos afeitos às polêmicas do Brasil real, eu explico. A radicalização da política, as peripécias do governo de Jair Bolsonaro e a gravidade dos problemas sociais, ambientais e econômicos tem obrigado gente que até ontem só se preocupava com a quantidade de seguidores a se posicionar, com clareza, sobre os dilemas da vida contemporânea.

Hoje, não há entrevista descompromissada, caixinha de perguntas no Instagram ou interação com fãs nas redes sociais que não coloque os influenciadores na encruzilhada do posicionamento.

É coxinha ou mortadela? Lula ou Bolsonaro? Pelo garimpo ou pelos indígenas? Pela vida ou pela economia? É Coronavac ou Pfizer? Calça justa ou apertada? Com glúten ou gluten free? Urna eletrônica ou voto impresso? Pelas florestas ou pelo agronegócio? Pelo veganismo ou pelas vacas? Pelos machos ou pela diversidade? A velha desculpa do "eu não sei", "não entendo esses assuntos", "guardo a minha opinião para os meus", "não sei nem o que dizer" não cola mais. Acabou o "gloriapirismo" (o momento, transformado em meme, que a atriz Glória Pires disse não saber opinar sobre o melhor filme de 2015, na transmissão do Oscar 2016).

A culpa não é só da bagunça que o mundo virou. Os problemas estão por aí desde sempre (talvez, em menores proporções — é verdade) O problema está na nova concepção de intimidade das pessoas públicas.

O impasse provocado pela atriz Samantha Schmütz, logo após a morte de Paulo Gustavo, é simbólico do momento.

Impressionada com a falta de comprometimento de alguns colegas com o furdunço que o país virou, desde a chegada do Sars-Cov-2, Schmutz decretou o "fim da brincadeira". Numa postagem numa rede social, disse que "não adianta a gente usar a nossa voz para fazer dancinha no TikTok", "não adianta fazer mutirão para reality show da vida dos outros", "não dá para postar look do dia, não dá para sensualizar mais, não tem mais o que fazer, a não ser ser contra o que tá acontecendo". Cobrou que seus colegas fizessem "publis" não só de produtos e serviços pelos quais são pagos para vender, mas também deixassem claro a própria posição sobre os problemas do mundo.

Juliana Paes, que faz fortuna com posts patrocinados, vestiu a carapuça, entrou no debate e se defendeu dizendo que "não é obrigação de nenhum artista ter uma posição política pública".

Não era, agora é. A culpa pela virada é dos próprios artistas. O conceito de intimidade mudou.

Antes, como bem definiu Tércio Ferraz, jurista e professor da Faculdade de Direito da USP (Universidade de São Paulo), intimidade era

(i) o respeito à vontade de estar só
(ii) o direito ao sigilo
(iii) a autonomia de decidir livremente sobre a própria vida

Só que, nos últimos tempos, com a disseminação das redes sociais e a onipresença das câmeras, surgiu uma nova camada de significados para os limites do público e do privado na vida dos famosos.

Nos acostumamos a ver a lives de artistas nos banheiros da própria casa, votar em enquetes para saber qual coloração devem aplicar no cabelo, participar de debates sobre quais roupas devem usar. Com a noção de que o fim da privacidade é uma realidade para todos, chegamos à conclusão de que algo tão comum, rotineiro e público não se trata mais de intimidade.

A nova intimidade se define mais pela forma do que pelo conteúdo. Nos interessa saber, como as outros reagem, pensam e se sentem em relação aos problemas do mundo.

As aulas de Anitta sobre política com Gabriela Prioli, a briga da Samantha Shmütz com Juliana Paes, a sequência de tuítes com Paolla Oliveira rebatendo uma fake news sobre prostituição — e se posicionando contra o abuso infantil — gera burburinho não pela política em si, mas pelo nosso interesse em saber como as pessoas públicas convulsionam suas emoções, aprendem, discordam, se emocionam, se enfurecem e reagem ao cotidiano.

O último bastião da intimidade das grandes celebridades está na maneira como vão expor ou esconder suas emoções para o mundo. Se o que comem, bebem, assistem já não é segredo e não os fazem diferentes de nós, interessa saber o que pensam, refletem e como reagem à vida.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL