PUBLICIDADE
Topo

Michel Alcoforado

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Plantão BBB: por que o público não entendeu o conceito de fama de Luciano?

Luciano ganha estrela na "Calçada da Fama" do BBB 22 - Globoplay/Reprodução
Luciano ganha estrela na 'Calçada da Fama' do BBB 22 Imagem: Globoplay/Reprodução
Conteúdo exclusivo para assinantes
Michel Alcoforado

Michel Alcoforado Doutor em Antropologia, Michel Alcoforado se especializou em Antropologia do Consumo pela University of British Columbia, no Canadá, onde trabalhou prestando consultorias para agências especializadas em pesquisa de mercado, comportamento do consumidor e tendências de consumo. No Brasil, fez pesquisas sobre comportamento de consumidor on e off-line, especializou-se em Planejamento Estratégico de Comunicação e trabalhou como estrategista para grandes marcas. É pós-graduado em Comunicacão Integrada na ESPM e em Brand Luxury Management na London College of Fashion. Palestrante no Brasil e no Exterior, é membro do Instituto Millenium - um dos maiores think tanks brasileiros, colunista da revista Consumidor Moderno e Sócio-diretor da Consumoteca, uma boutique especializada no consumidor brasileiro. Atualmente, cursa um MBA na Berlin School of Creative Leadership/ Steinbeis University.

Colunista do TAB

28/01/2022 12h15

Sorte a nossa que o "Big Brother Brasil" está de volta. Em tempos de caos e contínuas rupturas, qualquer sinal de repetição organiza o cotidiano e nos ajuda a compreender o início de um novo ciclo. Sem previsão de Carnaval ou vuco-vuco por culpa do persistente vírus, é bom aceitarmos de uma vez por todas que os tempos são outros. O ano só começa depois de descobrirmos quem é o novo milionário do show business nacional.

O programa mais assistido da televisão brasileira, com altos níveis de faturamento publicitário e responsável pelo pagamento do salário de muita gente (não é, Tiago Leifert?), estreou com o jeitinho de sempre. Mobilizou os amantes e os haters nas redes sociais, atiçou o jornalismo de celebridades e os fãs de gente desconhecida, ressuscitou adormecidos grupos de WhatsApp e nos fez entender que, apesar dos pesares, a vida segue a normalidade. Sem dúvida, nesse momento, deve ter algum fã tresloucado fazendo uma tatuagem com a cara deformada de algum participante do reality.

O sucesso mora na aposta em uma fórmula simples. O "Big Brother Brasil" se apoia em um conjunto de regras já conhecidas do grande público (líder, anjo, paredão, imunidade, xepa x vip, prova de resistência, brigas) desde a primeira edição, mas, a cada ano, ganha cara nova pela capacidade que tem de se misturar às pautas e aos assuntos borbulhantes da sociedade brasileira. É justamente sobre o caldeirão entre aquilo que já se conhece e o que tem que se aprender: acostumados aos personagens clichês e aos com a cara e os conflitos do Brasil, somos arrebatados pela narrativa do programa.

O enredo de uma boa novela, a maneira como reproduz a competição, o senso de disputa e descartabilidade dos humanos, inerente aos tempos modernos (como defende a socióloga Silvia Viana), e a publicização, em rede nacional e para uma vasta audiência, de tudo que é intimo e privado (como já analisou Paula Sibília) nos mobiliza a acompanhar o desenrolar do programa até seu desfecho. Se não faltam análises e razões para o sucesso, uma outra pergunta se impõe. O que leva alguém a participar de um jogo como esse?

Luciano Estevan, participante do BBB 22, respondeu: fama!

O público e seus colegas de confinamento rechaçaram a resposta e ele foi o primeiro eliminado da edição.

Com 28 anos, Luciano é uma coleção de clichês dos novos tempos. É modelo, ator, sonha ser apresentador. Nasceu em uma família pobre de Santa Catarina, vive um relacionamento aberto, é bissexual, começou a dançar hip-hop na periferia de Florianópolis, onde descobriu um genuíno sonho de vida: ser rico e famoso ao ponto de não conseguir andar nas ruas do mesmo jeitinho da sua "ídola", a diva norte-americana Beyoncé.

Assim que revelou suas reais intenções no programa, virou alvo de chacota dos outros participantes e do público, que se apressaram em lhe ensinar que fama é consequência de trabalho duro. Os escolhidos, diante da realização do chamado e da concretização de um propósito de vida, deixam um legado e são reconhecidos como especiais. É a capacidade de se diferenciar, de se mostrar quem é através da obra (como previu Nietzsche, em "A Genealogia da Moral"). São os feitos que inventam os homens. Não o contrário.

Chico Barney e eu não entendemos a homilia. Afinal, o que levou os outros nove anônimos da pipoca e a coleção de semifamosos a se jogarem na arena pan-óptica se não foi a vontade de ser conhecido? Ou seremos obrigados a acreditar que a milionária Jade Picon e o herdeiro Tiago Abravanel foram para a casa por conta do R$ 1,5 milhão prometido como prêmio?

Há muito tempo ninguém fica famoso só por grandes feitos. O intenso processo de digitalização da vida bagunçou ainda mais a régua de avaliação de quem tem direito de ser reconhecido como tal. A força da onda viral que varreu o mundo, jogou bilhões dentro de casa, nos fez abrir mão dos rituais cotidianos de tal maneira que nos tornamos incapazes de diferenciar quem é quem na cena brasileira, quem é famoso ou anônimo, "vipinho" ou "vipão".

Presos à própria rotina, acessando uma realidade mediada por telas (celulares, TV, computador), o mundo se mostra mais asséptico e sem graça. Quase qualquer coisa que nos tire da letargia é capaz de nos mobilizar, atrair nossa atenção. O novo, o inusitado, o diferente reverbera, desperta a atenção e o interesse dos outros e faz gente comum virar famosa da noite para o dia.

Ao contrário do mundo das celebridades do passado, que se definiam pelo fato de serem conhecidos por mais gente do que conheciam (como bem definiu o sociólogo norte-americano Wright Mills) ou do tempos dos grandes feitos, hoje é a capacidade acionar, mobilizar, reverberar, afetar os outros que determina quem é quem na fila do pão. Mesmo que você não tenha feito nada além de provocar ondas de cliques, visualizações e compartilhamentos.

Não é mais a obra ou o legado que definem quem é o protagonista e, por consequência, despertam o interesse das multidões. Agora, é a habilidade em mobilizar os outros (muitas vezes com nada) que abre portas.

Juliette, a ganhadora da última edição do reality show, deixou o programa com mais de 30 milhões de seguidores e recordes de engajamento nas redes, capazes de deixar a família Kardashian com inveja. Foi sua habilidade de gerar conversa e interações ao redor de seu nome que lhe deixou multimilionária, lhe fez cantora, modelo, dançarina, amiga da Anitta, contratada da Globo e objeto de disputa no mercado publicitário. Se há algum legado, ele virá depois da fama.

Luciano foi mal interpretado. Quando afirmou que queria ser famoso, ele o disse sob o ponto de vista da nova lógica da fama. Esperava atrair o interesse do Brasil para a coleção de clichês que carregava consigo, conquistando milhões de seguidores e ganhando dinheiro com os negócios, oportunidades e trabalhos advindos da fama.

Não deu. Querendo ser famoso, ele deixou o programa só como chato, mesmo.