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O sêmen é só uma descarga de energia, diz superdoador paulistano de esperma

A ideia de ter filhos desconhecidos espalhados pelo país — talvez pelo mundo — não perturba o engenheiro paulistano Maurício*, 44, que em 2015 se tornou doador voluntário no Pro-Seed — o maior banco de sêmen do Brasil, com 33 anos de atividade e mais de 7 mil amostras analisadas.
"Já faz tanto tempo que eu comecei a doar, não é agora que vou me arrepender", diz.
Maurício afirma que pensou muito antes de se tornar voluntário, e que hoje o que pode acontecer, a partir da doação, não faz parte de suas preocupações.
"Se eu fosse uma mulher, não doaria óvulos. Para uma mulher, a fecundação é uma centelha divina. A maternidade é sagrada. Para o homem, o sêmen é só uma descarga de energia."
No Pro-Seed, Maurício é considerado um "superdoador". Desde 2015, 26 doações dele foram efetivadas. O termo indica que as amostras estavam dentro dos parâmetros para o congelamento. "Já temos relatos de seis crianças nascidas a partir das doações dele", diz Vera Fehér Brand, sócia-diretora do banco. Eles trabalham com clínicas cadastradas, que realizam o tratamento de fertilização.
Nariz alongado
Com 1,85, 80kg, "nariz alongado" e pelos regulares ("não sou liso como um nadador olímpico, nem peludo como o Tony Ramos"), o engenheiro se autodefine um homem "metódico, organizado, controlador e obstinado". Seu signo é libra, ele toca violino e adora viajar. Para dimensionar essa paixão, diz que já esteve "até no Nepal".
Pergunto a Vera como o banco pode se certificar a respeito das informações subjetivas fornecidas pelo doador. E se houver uma distorção da autoimagem, por excesso de autoestima, ou um transtorno de personalidade não declarado?
Ela parte do princípio de que a generosidade do voluntário suplanta qualquer eventual devaneio dele. "O perfil do doador é altruísta. Ele não ganha nada para omitir informações."
Limite demográfico
No Brasil, a resolução 2.168/2017 do CFM (Conselho Federal de Medicina) proíbe a remuneração de doadores de gametas (óvulos e espermatozóides) e embriões, e determina um limite de crianças de sexo oposto nascidas em determinada região, ou o equivalente a 1 milhão de habitantes. O objetivo é prevenir casamentos entre irmãos.
"Se em Campinas, por exemplo, eu tenho o relato de um menino e uma menina nascidos, bloqueio o envio de sêmen deste doador para a região." Vera afirma que Maurício ainda não atingiu esse limite.
De que forma pode se prever que uma criança nascida em Campinas vá permanecer em Campinas até o fim da vida? "Vivemos a globalização, a migração é intensa. Não se pode garantir que uma pessoa morra no lugar onde nasceu. O que a gente pode fazer é estabelecer esse máximo, por região."
Proprietário de uma clínica, o ginecologista Adelino Amaral, membro da Sociedade Brasileira de Reprodução Assistida, reconhece que o controle é difícil. "As clínicas devem se reportar aos bancos de sêmen, informando cada fertilização que gerou gravidez. Isso depende do acesso que cada uma tem à paciente e da monitoração sobre os resultados do tratamento", explica.
Por lei, quem deve regulamentar, monitorar e fiscalizar os serviços dos centros de reprodução humana assistida é a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária). A assessoria de imprensa da agência afirma que tem "o objetivo de criar padrões mínimos de boas práticas para assegurar que todas as etapas do processo, desde a triagem até a transferência de embriões, sejam controladas e fornecidas de acordo com padrão de qualidade apropriado a seu uso". O trabalho é realizado em conjunto com as vigilâncias sanitárias locais — estadual, municipal ou distrital.
Filho surpresa
Nos Estados Unidos e Europa, onde homens podem receber remuneração em troca do sêmen, o valor gira em torno dos 100 dólares e 100 euros, respectivamente. Caso a mãe brasileira prefira usar sêmen de um estrangeiro, vai pagar mais caro do que isso no Brasil. Existe um intercâmbio entre os bancos daqui e os de lá. De qualquer maneira, o tratamento terá de ser feito pelas vias oficiais. Vera explica que, se a reprodução assistida não obedece a resolução do CFM, o "doador espontâneo" é considerado pai da criança.
"Ele pode ser surpreendido mais tarde por um filho batendo a sua porta, atrás da herança da família."
Maurício diz, rindo, que isso não tira seu sossego. "Não sou rico nem famoso, não corro esse risco."
Caráter pragmático
Ele conta que a ideia de se tornar doador veio da dificuldade que sua primeira mulher enfrentou para engravidar. "Eu queria muito, fizemos vários tratamentos, mas não aconteceu."
Os dois acabaram se separando ("a relação já estava desgastada") e, depois de 13 meses de noivado, ele se casou de novo. A relativa rapidez é justificada com a "experiência": "Não era meu primeiro relacionamento, já estava descolado nisso. É questão de encaixe e de fé".
Diz que escolheu uma mulher parecida com sua mãe. "A atração é natural." (Na conversa com o engenheiro, infere-se que ele tem um caráter bastante pragmático).
Com uma filha de 4 anos, Maurício revela que faz a doação no banco de sêmen "escondidinho" da mãe da menina. "Ela soube da primeira vez, mas a reação não foi boa, então não falei mais no assunto."
Os números
Com cerca de 480 clínicas cadastradas, o Pro-Seed registra uma procura de 300 pacientes por mês; 30% delas estão solteiras, 40% em relacionamentos homoafetivos e 30% em relacionamentos heterossexuais. O tipo físico do doador mais procurado, segundo Vera, é o "caucasiano". "Tem o biotipo do brasileiro: pele branca média morena, olhos e cabelos castanhos."
Ela diz que a orientação sexual do doador não é relevante para os casais que procuram o banco de sêmen. Não existe registro de recusa a doadores homossexuais.
Dependendo da clínica escolhida, o preço do tratamento costuma ir de R$ 3 mil a R$ 30 mil. O sêmen pode ser adquirido no banco, ou estar embutido no serviço da clínica. O valor da amostra varia de R$ 3 mil a R$ 5 mil.
Vera explica que os custos do serviço que o banco oferece são altos. "A gente faz recrutamento do doador, triagem, coleta, armazenamento, colhe informações a respeito do voluntário e faz a distribuição." O ginecologista Adelino Amaral alega que a responsabilidade técnica é enorme. "E tem o custo da sobrevivência da clínica."
Muita disposição
Para estar dentro dos padrões exigidos pelo banco, o voluntário tem de se submeter a pelo menos dez exames laboratoriais. Para Vera, essa disposição (a troco de nada) já diz muito sobre a personalidade da pessoa. "Primeiro, ele vai agendar a coleta de esperma; depois, manter abstinência sexual por pelo menos três dias; na data marcada, tem de se apresentar no laboratório do banco às 8 da manhã." A coleta é realizada por masturbação, pelo próprio doador, em sala isolada.
Em uma segunda fase, o voluntário é examinado por um urologista, responde a um questionário e assina o termo de doação de sêmen, que garante seu anonimato. As pacientes que utilizam o banco assinam um documento similar ali e nas clínicas de fertilização cadastradas. Cada parte fica com uma cópia do termo de consentimento.
O material genético do doador — uma gota de sangue — fica armazenado para a eventualidade de uma doença grave da criança, ou em caso de vida ou morte. "Isso só é usado em situações específicas, com indicação médica", explica Vera. Ela diz que nunca aconteceu.
Na última etapa do processo, seis meses depois da coleta e congelamento do sêmen, o doador volta ao laboratório para repetir os exames sorológicos para anti-HIV I e II; hepatites B e C, sífilis, anti-HLTV I e II; e anticorpos para o zika vírus.
Natureza desencanada
Pelo que se vê, o voluntário precisa estar muito seguro da decisão — ou ter uma natureza desencanada. Maurício se mostra tranquilo em relação ao destino das crianças que ajudou a gerar. "Se tem a ver com dinheiro, acho que não será problema. Quem pode pagar uma reprodução assistida, certamente tem recursos para prover o feijão, a educação e o médico", diz.
Em pelo menos três momentos da entrevista, Maurício demonstra seu apego ao dinheiro. Ele confirma: "Sou pão-duro".
Ao responder, por exemplo, que nunca foi fumante, ele prefere alegar o motivo financeiro a falar da preservação da saúde. "Como bom engenheiro, faço as contas. Se fumasse dois maços por dia, gastaria R$ 420 por mês [considerando o preço médio de cada maço como R$ 7] , ou cerca de R$ 50 mil em dez anos."
Atualmente, Maurício trabalha em um banco na avenida Paulista, na região central de São Paulo, e mora em um bairro nas redondezas. "Pelo IBGE [Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística], eu faço parte da classe A ou B. São os brasileiros que têm renda mensal acima de R$ 5 mil."
Super-homem
Em suas conversas com um grupo de amigos homens, Maurício comentou que fazia doações — e se arrependeu. "Um deles cismou que queria ser doador, eu indiquei o banco, ele não passou nos testes. Não tinha perfil de doador."
Inconformado, o tal amigo "encheu o saco". "Ele associou a doação à virilidade, à capacidade de gerar bebês saudáveis. Existe uma espécie de orgulho de macho em doar esperma. Historicamente, as pessoas se matam para garantir a continuação da própria espécie."
Trata-se de um sinal de que pode haver mais do que mero altruísmo na disposição de um homem de doar seu sêmen.
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