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Trombadas

O joguinho de Bisteka

TAB Trombadas - Edvaldo Manuel Fabrício de Lima, o Bisteka - Christian Carvalho Cruz/UOL
TAB Trombadas - Edvaldo Manuel Fabrício de Lima, o Bisteka
Imagem: Christian Carvalho Cruz/UOL
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Christian Carvalho Cruz

Christian Carvalho Cruz nasceu no Jaçanã, em São Paulo. É jornalista, trabalhou nas revistas Placar, Quatro Rodas, Época Negócios, no portal Pelé.Net, nos jornais Folha de S. Paulo e O Estado de S. Paulo, entre outros. É autor do livro ?Entretanto foi Assim que Aconteceu? (ed. Arquipélago Editorial), criador do projeto Trombadas e militante da revista eletrônica "Grama - O Futebol Utópico".

Colunista do TAB

01/07/2021 04h01

Desde os meus 12 anos de idade que estou nessa atividade de jogo. Comecei no futebol e acabei na sinuca. Fui volante dos juniores do Sport Club do Recife, minha cidade, mas num treino me quebraram o joelho e tive que parar. Nós éramos onze irmãos, seis homens, cinco meninas, meus pais tinham uma ótica. Sem o futebol, resolvi ir pro Rio de Janeiro atrás de uma mulher e um emprego de balconista. Tinha 18 anos. Lavava copo, prato, chão, essas coisas, numa lanchonete chamada Jack in the Box. Foi aí que descobri que tinha o dom da sinuca. Vi uns sujeitos jogando num bar, numa mesinha pequena, e pensei: "Essa bola eu também mato". Esperei eles saírem, comprei uma ficha, espalhei as bolas e repeti a jogada. Matei na primeira. Matei na segunda. Na terceira também. Tinha o dom e não sabia. E o meu joguinho, que até aquele dia se resumia a um campo de futebol, virou uma tremenda jogatina no pano verde. É uma vida.

Um ano e pouco depois, em 1973, conheci outra mulher, mais velha de que eu, e vim pra São Paulo. Largamos da outra, não é? Foram 6 anos no Rio, então ficamos com esse sotaque dos esses puxados dos cariocas. Essa segunda, a mais velha, era cabeleireira, tinha um salão na rua Sete de Abril, mas fez concurso pra ser policial. Chegou a delegada. É, meu amigo. De-le-ga-da. Ficamos 21 anos com ela. Ela me bancava na sinuca. Mas desses 21 passei dez sem jogar. Me afastei porque abri um escritório de ouro. Voltamos a trabalhar, não é? Eu saía comprando ouro pelos bairros, fundia e fazia peças que vendia basicamente pra jogador de futebol. Como eu tinha sido atleta de sinuca do Palmeiras, conhecia todos eles. O Vanderlei Luxemburgo até me levou pra dar aulas na concentração da seleção brasileira uma vez. Sabe o primeiro gol do Ronaldinho Gaúcho contra Venezuela, Copa América de 1999? Eu estava na tribuna de honra do estádio em Asunción. É, meu amigo. A-sun-ción. O ouro que os jogadores daquela época têm fui tudo eu que vendi. Corrente, pulseira, anel, aliança.

Eu viajava o Brasil inteiro comprando ouro quebrado, amassado, de qualquer jeito. Tinha minha balança portátil e o ácido pra fazer o teste: você pinga o ácido e se não ferver é ouro. Pagava R$ 4 o grama e vendia a 8. Ouro bruto. O lapidado era mais caro. Vamos dizer assim: você vinha e me pedia "Bisteka, meu querido, quero uma corrente de 100 gramas". Na H. Stern custava 60 mil, eu te fazia uma igual por 40. Tempo muito bom. Mas a delegada morreu de câncer. E como eu não era casado com ela, era só juntado, não fiquei com nada. Nosso apartamento na avenida São Luiz, a aposentadoria dela, a poupança, foi tudo pro governo, porque ela era filha única, tinha só a mim. Tentei botar advogado, mas ele nem quis a causa. Sem uma conta conjunta no banco, uma luz ou uma água no meu nome, era muito difícil provar. Ficamos sem nada.

Aí eu arrumei outra mulher. Quer dizer, já tinha outra sem a minha delegada saber. Ela nunca soube, senão eu estava no cemitério e não aqui te contando isso. Com essa outra eu tive dois filhos, mas nos desentendemos, vendi a casa que tínhamos em Pindamonhangaba, gastei tudo e quebrei. Até um tempo atrás eu almoçava, jantava, tomava banho, dormia, morava, cuidava das coisa na Casa da Sinuca, rua da Glória, bairro da Liberdade. Mas, com a pandemia, fechou. Então nós estamos por aí, jogando sinuca e dando aula. Sempre duro de grana. Os amigos ajudam, fazem rifa de um taco, pagam a passagem de ônibus e nós vamos nos virando, ganhando 500 aqui, 600 ali.

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Imagem: Christian Carvalho Cruz/UOL

Ah, sim, ainda existe mercado para o jogador de sinuca. Isso pode diminuir, mas acabar não vai. Todo lugar que você chega tem um cara que não te conhece e aí você baratina ele. Baratinar é fingir que não sabe jogar. Porque eu sou profissional, se pegar um amador e matar as bolas de primeira, ele vai correr. Mas se eu perder duas partidas, errar umas bolas fáceis, aí ganhar duas, fazer aquele joguinho duro, ele não vai acreditar no meu potencial e vai dobrar o dinheiro. É onde nós entramos e mostramos que somos o Bisteka.

Se tem gente que cai nisso ainda? Ô se tem. É fácil demais: você chega em qualquer cidade de interior, pega o taco e diz "sou o próximo". Ninguém te barra. Não querem saber quem é você. É jogo de 10, 20 cruzeiro, tudo bem. Nessas você arruma 200, 300, 400 paus por noite. Quem ganha fica na mesa. Então eu ganho de você, ganho dele: R$ 40. Aí perco a próxima. Depois ganho mais duas, somo 60. E assim vamos indo, fazendo cálculo. Sou velho, não botam fé em mim. Ninguém sabe que sou profissional. Não fico dialogando sobre isso, nem dou detalhes ou intimidades. Também não pego bonito no taco, não mato bola difícil, só mato se estiver na boca. Quando a noite bate nos 300, 400 paus, eu devolvo o taco na taqueira e digo "Valeu, pessoal. Tô indo, que a minha mulher tá ligando. Outro dia a gente brinca mais".

Hoje em dia é isso que dá pra ganhar: no máximo uns 600 por noite. Antigamente ganhei até carro: um Dodge Dart. Ganhei 22 mil dinheiros da época e o carro do cara. Ele sabia que nós éramos o Bisteka, então eu lhe dei 20 pontos de frente. O jogo foi duro, 12 horas de duração, jogando de 1.000 e 2.000 mil por partida. Valor alto. Àquela altura eu tinha grana, minha delegada me bancava. Eu andava com 15 mil dólar no bolso da calça. Porque a boa sinuca só acontece com dinheiro em espécie casado na mão do dono do salão. Jogar sem apostar é como fazer sexo de camisinha. Duas coisas que não gostamos, tá certo?

Hoje em dia tô quebrado, mas pro dinheiro eu não ligo. Penso mais nos meus filhos. Faz anos que não vejo. Me sinto muito mal. Deito na minha caminha e não consigo dormir. Dá um nó aqui, sabe? É, meu amigo, um nó. Fico querendo saber se eles estão comendo bem, se vestindo bem, se estão apanhando do terceiro cara que a mãe deles arranjou. Porque o primeiro eu botei pra correr, no segundo deram seis tiros no peito e agora tem esse terceiro, que eu não conheço. Eu era um pai exemplar. Você pode ir lá em Pinda e perguntar pro dono do bar, o dono do açougue, no postinho de saúde. Todos vão dizer que nós éramos um bom pai. Até os parentes dela podem confirmar.

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Imagem: Christian Carvalho Cruz/UOL

Uma vez fui lá visitar o mais velho na escola. Conversei antes com a diretora, uma senhora muito boa, que entendeu a situação, e permitiu que eu o visse. Fui bem vestido. Terno, gravata e dentro da pasta levei uma bermuda, uma camiseta, meias, cuequinhas e R$ 50 pra ele. Quando a aula terminou, a diretora disse que eu o esperava. Ele apareceu com o boné de lado que nem o Neymar. Chegou a uns 20 metros, me viu, puxou o boné pra trás e correu. Fugiu sem falar comigo. Fiquei ali, de pé igual um palhaço. Não falei, não dei os presentes, não abracei nem beijei. Eu queria levá-lo pra tomar um sorvete daqueles de quilo. Pensei em ir atrás dele, mas podia piorar as coisas. Então, antes de voltar pra São Paulo, somente perguntei à diretora como o guri estava indo na escola e ela disse que era um aluno excelente, não dava trabalho. Ficamos feliz.

Não, não sou um homem 100% feliz. Já fui, mas não sou mais. E o problema nem é o dinheiro. Onde eu vou jogar eu tenho patrão, os caras que me patrocinam, me adiantam a grana e aí rachamos meio a meio o que eu ganhar. Tenho patrão na Bahia, no Maranhão, em todo lugar. Eu me viro. Meu problema é essa distância dos meus meninos. E ser 100% feliz é não ter problema. Mas vamos levando como dá, aprendendo e ensinando com a sinuca, a nossa escola.

Na sinuca aprendi que o importante primeiramente é respeitar. Com respeito você entra em qualquer lugar. Não desfazer dos outros porque você tem dinheiro, entendeu? Essa é a maior lição da noite. Já convivi tanto com bandido da alta periculosidade como com trouxa. Trouxa, na gíria nossa, é o cara que trabalha. Eu sei chegar em qualquer ambiente e ficar à vontade. Se chego no meio dos malandros eu desenvolvo. Se chego no meio de juiz de direito, médico, até psicólogo, desenvolvo também. O negócio é ter humildade. Não se joga sinuca de salto alto.

Antigamente, quando eu tinha um pouquinho de dinheiro, pra não dizer que tinha muito, porque sou humilde, eu sempre ajudei as pessoas simples. Trabalhador, bandido na cadeia. Mandava jumbo pra eles. Você sabe o que é jumbo? Vamos supor: um cara que você conheceu na sinuca, gente fina, mas foi preso e não tem ninguém no mundo ou, se tem, abandonaram ele. Você pega dois ou três pacotes de cigarro, vai na delegacia e pede pro polícia amigo seu entregar ao cara no seu nome. Chama-se jumbo. Fiz bastante isso. Tenho certo renome na cadeia. O pessoal me conhece. Quando eu estava com a minha delegada ela mandava o carcereiro levar o jumbo e avisava: "O Bisteka, meu marido, quem mandou". Pacotes e pacotes de cigarro. Pra dar um trago num cigarro desses na cadeia custa uma nota. Ja fui preso, sei como é.

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Imagem: Christian Carvalho Cruz/UOL

Aconteceu que conheci um cara, não era cabeça feita ainda, e errei. Fui com ele fazer compras com cheques clonados. Íamos às lojas, comprávamos uísque, tênis, perfumes, tudo com cheque clonado pra 30 dias, e revendíamos pela metade do preço. Fizemos muitas vezes e não fomos pegos. Levantamos mais de R$ 400 mil. Aí teve uma vez que o cara de uma loja no Tatuapé se ligou e chamou a polícia. Fiquei 30 dias no distrito até a minha delegada conseguir me soltar. Fui muito bem tratado. Tinha um cara lá na carceragem que me conhecia da noite e mandou um papagaio: "Ó, turma, o Bisteka é garoto nosso, pega leve com ele". Aí já me deram colchão, coberta, ninguém mexeu comigo. Por isso você tem que ter amizade com todo mundo. E se puder ajudar quem precisa, melhor ainda.

Arrependimento? Olha, tenho, sim. Eu queria não ter sido pai. Nunca gostei de ter responsabilidade com criança. Meu negócio é ser sozinho. Viajar. Não sou desse negócio de vínculo. Todo lugar que eu ia jogar tinha uma mulher me esperando. Fui mulherengo demais. Mas isso antigamente, não é? Agora somos um senhor de idade. Estou com meia-meia. Sou de 21 de junho, câncer do último decanato.

Tem noites que eu venho fumar aqui nessa janela e sinto saudade da boemia. Camisa de seda, abotoaduras, eu me vestia muito bem. Só usava seda pura. Duas, três horas da manhã, aquele ventinho gostoso na cara e as gatas do lado. Numa madrugada no Centro conheci o Nelson Gonçalves. Dei uma aula de sinuca pra ele e, quando terminou, ele me disse "Professor, agora vou te dar uma aula de voz". E cantou "A Volta do Boêmio" pra mim. Boemia, aqui me tens de regresso. Por um instante até esqueci que eu era o Edvaldo, aquele volante de joelho estourado e que se pela na bola branca grudada. Ali nós fomos Bisteka, o grande.

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Imagem: Christian Carvalho Cruz/UOL

Edvaldo Manuel Fabrício de Lima, o Bisteka, 66 anos

Histórias célebres de gente anônima: este é o espírito do projeto Trombadas. Nasceu sem destino, intenções, interesses ou desejos, nada além de conhecer e ouvir as pessoas que encontro nas ruas. Então eu saio, vou lá, paro — é fundamental parar — e ouço. Depois conto. No fim, é um mergulho. E um reencontro.