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Trombadas

A metafísica de Anna Maria

TAB Trombadas - Anna Maria Bittencourt - Christian Carvalho Cruz/UOL
TAB Trombadas - Anna Maria Bittencourt
Imagem: Christian Carvalho Cruz/UOL
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Christian Carvalho Cruz

Christian Carvalho Cruz nasceu no Jaçanã, em São Paulo. É jornalista, trabalhou nas revistas Placar, Quatro Rodas, Época Negócios, no portal Pelé.Net, nos jornais Folha de S. Paulo e O Estado de S. Paulo, entre outros. É autor do livro ?Entretanto foi Assim que Aconteceu? (ed. Arquipélago Editorial), criador do projeto Trombadas e militante da revista eletrônica "Grama - O Futebol Utópico".

Colunista do TAB

12/08/2021 04h01

Deus me livre de ser normal. Credo! Ahhhh, hoje eu sei: normal é quem não faz perguntas, aceita tudo como é. Por medo. Ou hipocrisia mesmo. E, nesse ponto, olha, vou te dizer: ter 81 anos é uma maravilha. Tenho essas chorumelas de idade, né? Num dia o coração, noutro dia a perna, aí a gente já espera a coluna, pega a bengala e assim vai indo. Mas, por causa dessas coisas que me podam os movimentos, a cabeça tá a mil.

Outro dia descobri o Mia Couto. Geeeente, o que é aquilo?! Estou fascinada. Olha esse trecho do "Vozes Anoitecidas": "Desculpa: mais peregrino que o rio não conheço. As ondas vão, vão nessa ida sem fim". Que tal? É tão bom pensar, sentir. Sinto que além das perguntas que fiz a vida inteira, e só pra umas poucas obtive resposta, agora me pergunto por que tantas perguntas. Por quê? Essa pergunta, aliás, "por quê?", é a mais perigosa de todas. E eu sou chegada num perigo.

Pesado? Imagina! Bom, espera. Pode ser pesado, sim. Mas pior seria não ter questionamento nenhum. Que tipo de questionamento? Os que importam, oras: o que é a vida?, a felicidade existe?, e o destino?, depois da morte vem o quê?, onde está o amor?, essas coisas. Eu sempre falei pro meu filho e agora digo pro meu neto: se você quer levar uma vida bege, fuja das perguntas. Se quer uma vida colorida, questione. Mas, cuidado, porque começou, dançou. É como o rio: uma ida sem fim.

Pra mim começou na Igreja Católica. Sou de uma família tradicional, ou melhor, que se considerava tradicional e dava importância pra esse tipo de coisa. Por parte de pai, antepassados cariocas que viraram nome de rua. Por parte de mãe, fazenda, imóveis e carolice. Minha mãe ia bem cedo à missa pra pegar o melhor lugar. Mas teve um dia que ela voltou da igreja e disse "Chega! Não vou mais! Aquelas velhas beijam a mão do padre no domingo e passam a semana falando mal dos vizinhos. Pra mim deu".

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Imagem: Christian Carvalho Cruz/UOL
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Imagem: Christian Carvalho Cruz/UOL

Sei que parece uma bobagem, um negócio simples. Mas o simples não é simplório. E aquilo me marcou profundamente. Morávamos na Vila Mariana, meu avô tinha uma porção de casinhas lá, e frequentávamos a capela do Colégio Arquidiocesano. Eu estudava desenho, piano, balé. Então, minha mãe virou pra mim assim: "Eu não vou mais à igreja, mas você vai". Danada, ela. Eu ia, porque já tinha uns namorinhos, né? Eram duas horas no domingo de manhã que eu podia ficar sem vigilância. Só que um dia liguei os pontos e comecei a perguntar "por que" na igreja. O que eu estou fazendo aqui? Por que é assim que deve ser pra uma menina de família? Ih, pera lá: o que deus tem a ver com isso? E esse padre aí dizendo coisas em que eu mal presto atenção?

Menino, foi como se um véu me caísse da frente dos olhos. Acho que esse é o marco zero dos meus questionamentos. Daí pra diante, acreditando que a vida podia ser maior, com muito mais cores, fui procurar respostas em outros lugares: no espiritismo, na ioga, candomblé, astrologia, hinduísmo, filosofia, antroposofia, budismo. Uma busca deliciosa. Às vezes tudo ao mesmo tempo, por que não?

Teve só um período em que parei de procurar. Foi no comecinho do meu casamento com o Chaves. José Chaves. Nós éramos sócios num escritório de arquitetura e design, tínhamos nosso filho pequeno, mais duas filhas que vieram no pacote do Chaves, que era desquitado, morávamos na Bela Vista. Eu estava com vinte e poucos anos, muito trabalho, uma vida ótima, apaixonadíssima. Pensei: "Quer saber? Vou largar mão um pouco. Melhor tocar minhas coisas e ver no que dá, que esse negócio de questionar, questionar, questionar exaure a gente". O que aconteceu? Aconteceu que eu não precisava mais perguntar. O Chaves era as minhas respostas. Um homem interessantíssimo. Gaúcho, arquiteto, calmo, lindo, dez anos mais velho, muito culto. E negro. A-ha! Sim, senhor. Negro. Nós formamos um casal interracial no começo dos anos 1960 nas barbas da dita elite paulistana. Foi um sururu. Pros outros, nunca pra nós.

Conheci o Chaves no Iadê, o Instituto de Arte de Decoração. Eu estudante, ele professor. À certa altura, como eu era boa aluna, ele me convidou pra trabalhar no escritório dele. Sentíamos uma enorme atração um pelo outro, sejamos claros, vai. Mas por um bom tempo não passou disso. Primeiro professor e aluna, depois colegas de trabalho e amigos. Eu era namoradeira, tinha meus casos. Ele, uma relação complicada com a ex-mulher. Então conversávamos um bocado sobre nossas vidas, era uma afinidade enorme.

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Imagem: Christian Carvalho Cruz/UOL

Nessa época eu namorava um carinha, o Zeca, que queria de todo jeito casar. E eu, hummm. Gostei muito dele, foi o primeiro cara que eu tive. Só que num ano ele aprontou no Carnaval. No ano seguinte, falei: "Agora é a minha vez". Fui pro Rio e lá conheci o Ernesto. Alto, bonitão, de praia, fazia cálculos matemáticos pra apostar no Jockey Club e sabia tudo de cinema, um assunto que eu também adorava. Não aconteceu nada entre nós, nadinha. Mas voltei pra São Paulo e falei pro Zeca: "Olha, gostei de outra pessoa e não acho justo ficar com você". Isso acabou com ele. E comigo também. A única coisa que me salvava ali era que eu estava sendo honesta com nós dois.

Então deixei o Zeca e passei a ir toda hora pro Rio. Só que eu chegava lá e o Ernesto se punha a falar de uma outra mulher com quem ele era enrolado. Aquilo me aborrecia de um jeito. Um dia nos encontramos na praia de Niterói, de roupa de passeio porque já começava a fazer um friozinho, e ele disse: "Anna, me espera aqui que eu vou ali fazer uma fezinha". Fiquei olhando ele atravessar a rua, olhando, olhando, e aí subi no primeiro ônibus que passou. Nunca mais nos vimos. O Ernesto apostou no cavalo errado.

O engraçado é que minha mãe sempre me acompanhava nessas idas ao Rio pra ver o Ernesto. E também sabia do Zeca. Ela nunca me censurou. Nunca, nunca, nunca. Conversava, instruía, ficava do meu lado. Meu pai não se metia. Ele achava que educação era incumbência da mulher. Um jeito fácil de os homens se eximirem da responsabilidade de educar, né? De todo modo, eu gozava de liberdade e tinha apoio dos meus pais, o que é fundamental pra qualquer filho em qualquer época.

Mas aí apareceu o Chaves. Ficamos sócios no escritório e o primeiro trabalho que eu trouxe foi o projeto do hall de um edifício na Alameda Campinas onde meus tios moravam. Meu tio, músico, pianista e síndico do prédio, achava o hall muito estéril, inadequado pros moradores receberem as visitas. Ele queria vida ali, queria mais impacto. Então, num aniversário da minha prima, eu e o Chaves fomos lá fazer o levantamento, tirar as medidas do espaço, tudo isso. O Chaves de terno, gravata e a trena pendurada no cinto. Você não pode imaginar. Hahaha. A família reunida naquele apartamento enorme com seus convidados músicos, intelectuais, jornalistas e outros metidos. Aí chego eu com o negão. A Terra parou de girar. Não se ouvia um garfo encostando no prato. Um silêncio profundo, total, absoluto. E na cara de todo mundo aquela expressão de "deus do céu, o que a Anna tá aprontando?!".

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Imagem: Christian Carvalho Cruz/UOL

Eu e o Chaves descemos pra ver o hall. Trocamos ideias do que poderia ser feito, tomamos notas e quando entramos no elevador pra voltar pra festa veio aquele lascão de beijo, o nosso primeiro, a coisa mais maravilhosa do mundo. Chegamos de novo no apartamento e o ódio daquelas pessoas tão distintas dava pra pegar com a mão. A presença do Chaves incomodava, aqueles olhares não saíam de nós, era tão ostensivo que eu pensei: "Já foi tão bom, mas agora é que eu vou gostar pra valer". Minha mãe, que já estava com o coração na mão, ficou pê da vida. Depois, em casa, fez um escândalo. "Você quer me matar, ele já foi casado, tem filhas pequenas, as pessoas vão falar". Pois é. Sabe aquela mãe apoiadora, questionadora, que deixou a igreja por causa das carolas hipócritas? Desapareceu como num truque de mágica. Claro que o problema ela não tinha coragem de pronunciar, jamais admitiria. Porque o problema era a cor da pele do Chaves. Minha mãe tinha se tornado uma pessoa normal.

Meu pai fazia cara de paisagem, fingia que não era com ele. Imagina a dondoquinha dele, envolvida com um negão desquitado? Mas teve um dia que o Chaves foi me levar em casa, umas duas da manhã. O táxi parou e quem estava no portão? Meu pai. Desci, dei "boa noite, papai", e ele: "Suba nas pontas dos pés, porque tua mãe está uma fera". Eu tentei. Só que em nossa casa, um sobrado, tinha uma maldita escada de madeira que rangia. Pisei no primeiro degrau e ela apareceu lá no alto. Fez outro escândalo, se jogou no chão, uma coisa horrível, constrangedora. Eu fiquei brava como nunca tinha ficado e como nunca mais voltei a ficar. Descasquei ela: "Olha aqui, você não gosta de dizer que é de família de bandeirante, valente, desbravadora? Então tá fazendo o que aí no chão? Deixe de fingimento. Eu gosto do Chaves e ele gosta de mim. A gente tem um monte de coisas em comum. Isso não basta?!" Passei por cima dela e fui pro meu quarto. No dia seguinte avisei pro Chaves: "No fim do ano me mudo pra sua casa". Olha, não foi bolinho, viu.

Outra coisa marcante foi quando engravidei. Fomos ao médico, aquela grã-finada na sala de espera. Ali adiante o consultório tinha dois espaços separados por uma porta. Num deles o médico conversava, no outro fazia os exames. Quando entramos, ouvimos do lado de lá uma senhora falando "Nossa, doutor, essa moça com esse rapaz. Que corajosa, não é?". A voz dela salivava falsidade. Me deu um calafrio e senti muito medo. E comecei a me fazer perguntas bem diferentes das que eu costumava fazer. Como vai ser? Vamos ter paz? Seremos felizes? Mas aí o médico disse cinco palavrinhas que jamais esqueci: "Lindo casal. Torço por eles". Foi um alívio tão grande, tão grande. Foi uma resposta! Eu, sempre tão envolvida com as questões filosóficas da vida, do ser humano, orgulhosa de minhas dúvidas peremptórias, tive enfim a minha certeza: o amor que eu sentia era a minha verdade, nada me derrubaria. Eu e o Chaves nos abraçamos, choramos e, saindo dali, fomos comemorar no Il Cacciatore.

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Imagem: Christian Carvalho Cruz/UOL

Faz trinta anos que o Chaves morreu. Era um homem criativo que experimentava a vida, se arriscava, não gostava de passar incólume. Combinávamos totalmente nisso. A diferença é que ele resistia às questões da alma. E eu voltei a mergulhar de cabeça nisso quando conheci a ioga. Fui me envolvendo, estudando, praticando, até que um dia acabei sendo surpreendida pelo meu pai de santo, que me disse: "Você vai pra Índia porque estão te chamando. Vá lá". Eu fui. Sete vezes. E, de todas as minhas experimentações, de todas as minhas procuras, foi no hinduísmo que consegui mais respostas. Sempre que fui à Índia senti uma alegria indescritível, fortíssima, como se fosse criança. Aquelas viagens me marcaram como uma possibilidade real de viver esse sentimento. Não a felicidade em si, mas saber que sou capaz de experimentar essa condição em toda a sua plenitude. Saber que ela existe, sim, e é possível.

Aliás, a gente vive um tempo de angústia e precisa vigiar pra que essa sombra não tome conta. Não é o nosso estado natural. O nosso estado natural é a plenitude. Como se alcança a plenitude? Ai, ai, ai, agora é você que tá fazendo perguntas demais. Mas vamos ver. Essas coisas são individuais, né? Pra uns, plenitude é fazer rachadinha, cobrar propina em vacina, ou aplaudir esse tipo de coisa. Pra outros, é tomar um picolé, passar uma tarde com a netinha no quintal ou tocar no violão uma obra do Villa-Lobos, como meu filho Breno faz divinamente. Pra não estender demais, eu acho que a gente alcança a plenitude pela simplicidade. Acumular só experiências. Toda vez que largo a bengala ali no canto eu lembro disso. O bom é experimentar e tentar viver com simplicidade.

Saudade? Olha, de uns tempos pra cá ando meio saudosa de uma época bem específica da minha vida: de quando eu saía com o Tião pra experimentar uns passos de dança no Club Homs. Tião foi um cacho que tive depois da morte do Chaves. Malandro que só ele. E excelente dançarino, você tinha que ver. Mas no fim esse é o fim, né?, tudo vira saudade. Pobre de quem não tem do que sentir saudade. Eu tenho! O que não me impede, veja bem, de levantar da cama toda manhã pensando "que novo será que eu provar hoje? que perguntas eu vou fazer?" E, tirando comida apimentada, que aí não há metafísica que resista, eu topo tudo.

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Imagem: Christian Carvalho Cruz/UOL

Anna Maria Bittencourt, 81 anos

Histórias célebres de gente anônima: este é o espírito do projeto Trombadas. Nasceu sem destino, intenções, interesses ou desejos, nada além de conhecer e ouvir as pessoas que encontro nas ruas. Então eu saio, vou lá, paro — é fundamental parar — e ouço. Depois conto. No fim, é um mergulho. E um reencontro.