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Trombadas

As sombras de Reginaldo

Christian Carvalho Cruz/UOL
Imagem: Christian Carvalho Cruz/UOL
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Christian Carvalho Cruz

Christian Carvalho Cruz nasceu no Jaçanã, em São Paulo. É jornalista, trabalhou nas revistas Placar, Quatro Rodas, Época Negócios, no portal Pelé.Net, nos jornais Folha de S. Paulo e O Estado de S. Paulo, entre outros. É autor do livro ?Entretanto foi Assim que Aconteceu? (ed. Arquipélago Editorial), criador do projeto Trombadas e militante da revista eletrônica "Grama - O Futebol Utópico".

Colunista do TAB

27/01/2022 04h01

Vem com o papai, vem. Isso. Assim. Não, não, não. Ainda não tá na hora do lanche, seus safados. Calma. Já, já. Vem cá, meu amiguinho. Vem cá. Isso. Assim. Peixinho mais lindo do papai. Ói, tá vendo? Tem essa de estressar o bicho, não. Peixe também é pet. E se é pet eu faço carinho neles. Só não apertar e não agitar demais que tudo bem. Vixe, é muito peixe, não dá pra dar nome pra todos. Só dois têm nome. Esse aqui, tá vendo?, coitado, ele tem um probleminha de bexiga natatória que afeta a flutuabilidade dele. Passa dias no fundo. Eu chamo ele de Titanic. E aquele ali atrás, cabeçudinho, tá vendo?, ali, ali, com a manchinha vermelha na boca. Viu? Aquele é o Batonzinho. Mas é peixe demais, não dá pra nomear todo mundo. Não sei quantos tem, não. Lebiste, acará-bandeira, neon, beta e os kinguios, meus preferidos. Aquário são dez, contando os dois vidros de palmito e uma bacia no quintal. Queria montar mais um, só que infelizmente me falta espaço. A Nega disse que, pra entrar outro aquário em casa, preciso sair eu. Aí já viu, né? Então vou ficando com esses dez. São cinco na sala, três no nosso quarto e dois no quarto do meu filho. Não me vejo mais sem ter aquário em casa. Esses bichos salvaram a minha vida, sou grato demais. Fiquei muito apegado.

Rapaz...

Eu mergulhei no hobby do aquarismo em 2016. E de lá pra cá eu sou outra pessoa. É que você não me conheceu antes pra comparar. Ah, como posso dizer? Eu estava passando por momentos estressantes. Tinha dia que tava legal, tinha dia que tava péssimo. Tinha dia que tava alegre, tinha dia que era uma dinamite só esperando uma faísca pra explodir. Nem eu me aguentava. Mas a treta começou bem antes, em 2009. Um belo dia, acordei de madrugada sentindo falta de ar, o coração acelerado e aquele negócio de eu vou morrer, eu vou morrer, eu vou morrer. Um sentimento de desespero. Até então eu nunca tinha tido nada, nem unha encravada. Foi de repente. E, quando aconteceu, o meu primeiro impulso foi pegar meu filho no colo, ele era um bebezinho ainda, abraçar ele e começar a chorar. Ai, meu deus, eu vou morrer, eu vou morrer, eu vou morrer e não vou ver meu filho crescer. Ai, meu deus, eu vou morrer. Eu abraçava ele e chorava. Eu tinha certeza que ia morrer. Mas aí não morri. Coloquei o moleque de volta no berço e fui tomar um banho gelado. Eram três da manhã. Quando amanheceu, corri no clínico, que na mesma hora me encaminhou pro neuro. Ele preencheu uma receitinha com ansiolítico e me disse:

TAB Trombadas - Reginaldo Pereira Sousa - Christian Carvalho Cruz/UOL - Christian Carvalho Cruz/UOL
Imagem: Christian Carvalho Cruz/UOL

— Síndrome do pânico, transtorno de ansiedade. Saindo daqui você para na primeira farmácia. Compra esse remédio e começa a tomar hoje. HOJE, Reginaldo. HOJE. Porque você tá surtando.

Não tenho ideia de como começou, não. No tratamento com o neuro eu tentei identificar qual foi o gatilho, mas não consegui. O ponto onde tudo destrambelhou, sabe? Não consigo achar. Vai ver não tem. Acho que foi o conjunto da obra mesmo. É estranho até, porque a minha mãe sempre gostou de dizer que eu fui uma criança calminha, de boa. Ela conta que, quando eu era pequeno, nem parecia que tinha criança em casa, de tão sossegado que era. Às vezes eu tava brincando, fazia aquele silêncio, ela ia olhar e eu tava dormindo quietinho no chão. Mas aí um dia, sem que eu percebesse, virei esse cara insuportável. Pensa num cara chato. Era eu. Irritado, estressado, um pedacinho de C4, sabe C4, o explosivo dos filmes? Ninguém queria ficar perto. Eu era desagradável. Meus namoros nunca passavam de seis meses. Uma vez fiquei casado só oito meses. E com a mãe do meu filho casei e descasei cinco vezes, antes de separar em definitivo.

Nessa época em que acordei achando que ia morrer eu trabalhava como montador de móveis. O cliente comprava a casa inteira, cama, sofá, rack, mesa da cozinha, cadeiras, tudo. Aí a loja mandava o besta aqui ir lá só com o guarda-roupa. "O resto vai depois." Ah, falou, diz isso pro cliente. Meu irmão, o pessoal não queria saber, não. O cliente fechava a cara, trancava a porta da casa e mandava:

— Você só sai daqui depois de entregar e montar tudo o que eu comprei. E eu quero HOJE.

Fora os gritos e outras grosserias. Aí você junta trânsito pra ir, trânsito pra voltar, meta pra cumprir, supervisor te buzinando, gerente te buzinando, todo mundo te buzinando. Claro que a minha saúde mental já era zoada, mas parece que as pessoas fazem de tudo pra piorar a vida da gente, né? Ninguém facilita. Os caras transformam o trabalho, o dia a dia, que devia ser um negócio simples, pô, vou lá, trampo, ganho meu dinheiro honestamente e beleza, os caras transformam isso num inferno. Quem aguenta um dia inteiro no inferno? Eu vivia 24 horas no estresse.

TAB Trombadas - Reginaldo Pereira Sousa - Christian Carvalho Cruz/UOL - Christian Carvalho Cruz/UOL
Imagem: Christian Carvalho Cruz/UOL

Passei anos desse jeito. Aí mudei de emprego, fui trabalhar numa empresa de manutenção e reparos domiciliares, onde estou até hoje. Foi uma bênção. Sabe por quê? Um dia eu fui chamado numa casa em Alphaville pra consertar uma coisa que nem lembro mais o que era. Eu ali trabalhando normal e o cliente de pé só me observando. Ele andava pra lá, pra cá, me rodeava, espiava dentro da minha mala de ferramentas, só sacando o meu jeito de trabalhar: minhas chaves de fenda todas organizadas por tamanho, cor, eu tirava uma, usava e devolvia no lugar antes de pegar outra, os alicates, tudo certinho, a bolsa cheia de caixinhas, tudo arrumadinho.

Quando terminei o serviço ele me chama:

— Vem aqui um pouquinho comigo.

Entramos no escritório dele, ele me mandou sentar. Enquanto ele dava a volta na mesa pra sentar também eu já tava ajeitando os lápis dele dentro do potinho: pondo todos virados pra cima, que era pras pontas não quebrarem. Ele sentou e me deu um susto:

— Eu sabia! Sabia! Você tem TOC! E seu TOC é grave. Tem que cuidar disso.

Ele era psicólogo e quis me ajudar. Me atendeu duas vezes por semana sem cobrar nada. As sessões aconteciam numa sala onde ele tinha um aquário grande, lindão. Foi me falando dos benefícios do aquarismo, que me faria bem e tal e eu embarquei. Calhou de nessa mesma época o meu filho ganhar de presente um aquariozinho pequenininho com seis kinguios. Os bichinhos cresceram, eu precisei mudar eles pruma casa maior e foi assim que a cura começou. Nós encerramos o tratamento e o gosto pelos peixes ficou. Calmante, cara. Tranquilizante. Todos os dias eu chego em casa do trampo e vou direto pra poltrona antes de qualquer coisa. Nem troco de roupa. Fico uns 15 minutinhos sentado, olhando. É tanta paz que eu durmo. Não penso em muita coisa, não. Penso nos bichinhos, mesmo. Em alimentar, verificar a temperatura da água, o sistema de filtragem, melhorar a qualidade de vida deles. É uma terapia muito envolvente.

Ó a Nega aí. Vem cá, mor, dá o seu depoimento também. Maria. O nome dela é Maria. Vem, mor, tamos só jogando conversa fora, pode participar.

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Imagem: Christian Carvalho Cruz/UOL

— Não, não. Não conheci esse Reginaldo nervoso do passado que ele tá falando. Ainda bem. A gente tá junto faz o quê, mor?, quatro anos? Quando a gente se conheceu, o que eu gostei nele foi a calma. Achei ele bonzinho, tranquilo, ah, e tinha esses olhos verdes, né? Os aquários? Nossa, eu amo! Adoro o barulhinho que faz à noite, durmo melhor. Esses dias ele mexeu não sei no quê aí, diminuiu o barulho e eu reclamei. Precisa voltar, mor.

É que eu troquei um filtro por um modelo que é mais silencioso. Vou ver o que dá pra fazer. Sim, hoje eu manjo bastante de aquarismo, modéstia à parte. Pesquiso, me informo e até tento ajudar as pessoas. Só que, como não sou psicólogo, ajudo pelo Instagram. Criei um perfil chamado RPS Aquarismo Sem Dinheiro e passo umas dicas. O mais importante? Bom, o mais importante é saber que não é só pegar uma caixa de vidro, encher de água e jogar os bichinhos dentro. Peralá! Tem que primeiro montar a vida biológica do aquário. Preparar. Saber se o peixe que a gente vai soltar ali é de água mais ácida, mais neutra ou mais alcalina. Ver se o sistema de filtragem é suficiente pra quantidade de peixes e o mais adequado praquelas espécies. São muitas variáveis. Cuidar disso tudo também é terapêutico, mas o bom mesmo é ficar olhando. Cara, você não faz ideia.

Muita gente olha prum aquário e pensa "pô, que treco besta". Não é besta, não. Tem muita coisa acontecendo ali. Não é só peixe nadando. É um ecossistema gigante. Tem bactéria, tem vírus, tem planta. Um aquário é um lugar cheio de vida. Eu acho que olhar prum aquário é igual olhar pro céu. Tá ligado astronomia? Aquarismo é parecido. São microvidas, microacontecimentos, micro-histórias rolando ali. E uma coisa que eu saquei nesses anos vendo os peixinhos foi que a gente tem mais a aprender com a natureza do que com outro ser humano. Tô te falando. Por isso nunca mais eu vou ficar sem um aquário na minha vida. Se deus o livre eu tiver que morar num cômodo, num barraco, pelo menos um copo de requeijão com um betinha eu vou ter. Porque tem um outro lance. Um aquário é aquário, céu e pode ser espelho também. Hoje, quando eu sento ali na minha poltroninha pra curtir os bichinhos eu faço um balanço da minha vida nesses últimos cinco anos. A conclusão que eu chego não é bem uma conclusão. É uma sensação. Eu sinto que em algum momento eu deixei de ser eu. Quer dizer, era eu, mas não o eu que eu nasci pra ser, entendeu? Tipo como se eu fosse só a minha sombra. Aí veio o aquarismo e eu reencontrei o Reginaldo verdadeiro. Né, mor?

TAB Trombadas - Reginaldo Pereira Sousa - Christian Carvalho Cruz/UOL - Christian Carvalho Cruz/UOL
Imagem: Christian Carvalho Cruz/UOL

— Que bonito, mor.

Eu nunca tive uma recaída do transtorno de ansiedade, sabia? Vou me monitorando. Se tem uma gaveta aberta e eu não ligo é sinal de que tô legal. Se aquilo me irrita, é sinal de que preciso ficar mais tempo vendo os peixes. Vou te mostrar como é agora a minha bolsa de ferramentas. Tenho mó orgulho dela, porque ficou igual a de todo mundo: uma puta bagunça. É até no trampo, cara. Esse que eu tô hoje às vezes é mais complicado do que montar móveis. Eu faço serviço de elétrica, hidráulica e telhado. E também mexo com merda, vamos falar a verdade. Fossa, caixa de passagem, ralo, privada, desentupimentos em geral. Mas isso é bem tranquilo. Com o cheiro a gente se acostuma. O que não dá pra se acostumar é com o ser humano, sempre ele. Outro dia uma cliente quis que eu puxasse um fio da tomada, passando por fora da parede, por baixo do cooktop pra ligar um forno elétrico. Gambiarra cabulosa, né? Não fiz, claro. Perigosíssimo. Ia dar incêndio. Aí começa:

— Tô pagando, você tem que fazer.

— Não posso, dona. Não é assim. Risco alto de incêndio. A senhora tem que instalar uma tomada independente pro forno.

— Pode fazer assim mesmo. Eu não conto pra ninguém.

Bom, não fiz, a cliente ficou uma fera, me enxotou do apartamento. Eu de boa, tranquilinho, pensando nos meus peixes enquanto esperava o elevador e, de repente, bum!, sinto uma cacetada na cabeça. Quando virei pra olhar, a mulher estava fechando a porta. Ela tinha me dado uma vassourada, cara! Bem aqui, atrás da cabeça. Porra se doeu. E ainda se despediu me chamando de lixo. "Seu lixo". Na época nem contei isso pra Nega. Tá sabendo agora. Cê vê, mor, como são as coisas?

— Que horror, mor. Nem sei o que foi pior, a vassourada ou te chamar de lixo. Que horror.

Mas foi bom, sabia? Ali eu saquei que nesse tempo nosso ninguém tá bem da cabeça, não. Todo mundo precisando ver peixinho nadando. Por outro lado, naquele dia eu também tive certeza que o Reginaldo dinamite já era. Já pensou como eu reagiria se tivesse no estresse 24 horas? Vixe, nem quero pensar. Sou mais eu desse jeito agora, o Regicarpa. Carpa, sabe carpa? Carpa é o peixe mais zen que existe. Até tatuei uma na perna, ó. Um dia vou ter um lago lindo de carpas. Um dia ainda vou ter.

É isso aí, meu. Esse sou eu, a Nega e nossos bichinhos. Agora cê me dá licença que vou pôr o lanche deles, ver como é que tá a temperatura da água e fazer uns videozinhos pro Instagram. Comprei esse kit de lentes pra câmera do celular, pra imagens ficarem mais nítidas. Vão sair bonitos no filme os lindinhos do papai. Né, meus amiguinhos? Isso. Podem vir. Calma. Calma. Ô minhas lindezinhas...

TAB Trombadas - Reginaldo Pereira Sousa e sua tatuagem de carpa - Christian Carvalho Cruz/UOL - Christian Carvalho Cruz/UOL
Reginaldo e sua tatuagem de carpa
Imagem: Christian Carvalho Cruz/UOL

Reginaldo Pereira Sousa, 40 anos

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Histórias célebres de gente anônima: este é o espírito do projeto Trombadas. Nasceu sem destino, intenções, interesses ou desejos, nada além de conhecer e ouvir as pessoas que encontro nas ruas. Então eu saio, vou lá, paro -- é fundamental parar -- e escuto. Depois conto. No fim, é um mergulho. E um reencontro.