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Trombadas

A roça encantada de Gil

Christian Carvalho Cruz/UOL
Imagem: Christian Carvalho Cruz/UOL
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Christian Carvalho Cruz

Christian Carvalho Cruz nasceu no Jaçanã, em São Paulo. É jornalista, trabalhou nas revistas Placar, Quatro Rodas, Época Negócios, no portal Pelé.Net, nos jornais Folha de S. Paulo e O Estado de S. Paulo, entre outros. É autor do livro ?Entretanto foi Assim que Aconteceu? (ed. Arquipélago Editorial), criador do projeto Trombadas e militante da revista eletrônica "Grama - O Futebol Utópico".

Colunista do TAB

24/03/2022 04h01

De manhãzinha eu abro esse portão e só pelo ruído dele, ouviu?, esse nheeeeeeein, só pelo som os quero-queros desabalam lá de riba e vêm ter comigo. Aí eu entro no campo e dá-lhe eles correrem atrás de mim. Não. N'é pra ferir não. Eles querem brincar. Eu corro, eles correm atrás. Eu corro, eles correm atrás. Igual criança. Nome tem não. É Quero e Quero Só, porque são dois: um casal. Gosto demais. Divirto com eles. E nessa corrida todo dia cedo já vou aquecendo pro serviço. Ôxi, faz tempo. Tá pra 30 anos que eu cuido desse gramado. Rua Javari, centidizessete. Estádio Conde Rodolfo Crespi. Esse. O campo do Juventus da Mooca. Famoso, viu. Mas vamos se picar ali pra arquibancada, que tá armando chuva grande.

Eita que tá bonito, hein. Daqui se vê bem que tá bonito. E olhe que teve jogo lascado ontem. Zero a zero. Os cabras castigaram o campo por demais. Até vai ser boa essa água de tempestade, que assim testa os ajustes que tô mexendo na drenagem. Vamos observar.

Olhe, eu vim foi da Bahia. Nova Canaã. Lá todo mundo trabalhava na roça. Feijão, milho, mandioca. Família muito grande. Meu pai casou duas vezes e teve 38 filhos. Tô mangando não. Trinta e oito. Uns tantos com a primeira esposa, outros tantos com a segunda e muitos tantos fora. Tem irmão que nunca vi, só sei de ouvir falar. Joza, por exemplo. Não conheço Joza. Oliveira. Ôxi! Conheço Oliveira não. Não conheço Aura. E mais um monte. Em nossa casa moravam 16 mais meu pai e minha mãe. Casa de taipa. É barro, mas fala taipa. Trabalhei puxado ali pisando barro pra subir as paredes, fazer o fogãozinho de lenha. Vida dura, roça você sabe como é. Sol danado, corpo que é dor nele todinho, dinheiro miúdo que dá pra comida de hoje e a de amanhã quem vai saber? É. Fiquei até meus 20 anos.

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Imagem: Christian Carvalho Cruz/UOL

Aí um dia um conhecido que vivia em São Paulo e tinha retornado pra ver a mãe me falou assim:

— O patrão lá de São Paulo me pediu pra levar um baiano pra trabalhar na fábrica. Tu quer ir não? Firma boa. Eu pago tua passagem.

— São Paulo, é? Trabalhar em fábrica? Nunca que pensei nisso não.

Ê Sumpaulo! Na Bahia a gente falava Sumpaulo. Não é? Deixei meus pais chorando e vim pra Sumpaulo. Eu era o primeiro dos 38 filhos de seu Zé Miguel na cidade grande.

-- Vai fazer o que lá, menino?, meu pai me questionou.
-- Vou trabalhar, fazer a vida.
-- Pois vá. Quem sabe seu destino é esse mesmo. Se não for, volte que estaremos aqui.

E era meu destino sim. Jamais voltei. Nem quando pai e mãe foram pro céu. A distância era muita, a viagem cara, a gente ganhava pouquinho, e tem aquele negócio: pobre morre hoje e enterra amanhã, porque não pode pagar a conservação do defunto pra esperar pelos parentes. Então não fui no enterro deles, essa é uma dor que eu levo. A vida é assim.

O que eu não imaginava é que meu destino em São Paulo ia ser na roça também. Uma roça diferente da Bahia, mas é roça. Ôxi, muito melhor aqui. No lugar da enxada, hoje eu vou de tratorzinho. No lugar de dois, três produtos pra trabalhar, um só: a grama. Fora o registro na carteira — ano que vou aposentar —, as inteligências que a gente adquire e mais o amor que pega no que faz. Eu amo esse trabalho. Digo verdade, nego não.

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Imagem: Christian Carvalho Cruz/UOL

Olhe que beleza. Muito boa a drenagem. Uma poçazinha no meio do campo só, mas é normal. Choveu foi de balde, daqui em pouco seca. Drenagem boa não é quando escoa ligeiro, é quando escoa no tempo certo. Se a água vai embora de corrida, leva embora tudo os nutrientes da grama. Aí ela queima e muda de cor pra amarelo. É quando a gente cobre as partes queimadas com tinta verde. Um truque nosso. Maquiagem que precisa fazer. Pode olhar em dia de jogo em qualquer parte do planeta. Se tem beque saindo do campo de shorts manchado de verde, pronto: drenagem ruim, maquiagem de tinta pra disfarçar o queimado da grama.

Mas é.

Empoçou também no lugar do goleiro, veja. Mas aí é à parte, não tem quem dê jeito. Dá problema no Boca Juniors, no Barcelona, no Liverpool. Tudo igual. É ponto de muito pisoteamento, muita esfrega. O chão fica duro e demora mais que o resto pra recuperar. Olhe, vou lhe contar uma coisa. Aqui no campo do Juventus tem uma diferença, parece até encantamento, quem dirá? O que fica pior é esse gol de entrada. No gol do fundo o estrago não é tamanho nem de longe. Difícil ali estar desgramado, feio, ou queimado. Tenho pra mim que é mágica. Por causa de Pelé. Foi naquela trave dali que ele marcou o gol mais bonito da vida dele. Ele no Santos, três chapéus nos nossos beques, mais um outro no nosso goleiro Mão de Onça, de cabeça e caixa! Golaço. Por isso tem estátua pra ele na entrada. Que é isso, Pelé ninguém não alcança não.

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Imagem: Christian Carvalho Cruz/UOL

Outra coisa que penso é no poder das cinzas também. Tem muito torcedor do Juventus que morre um pai, um tio, um avô e vem despejar as cinzas no campo. Pra você ver a importância de a grama estar sempre bonita e bem aparada. N'é só pra jogo não. Tem esse outro lado aí. Se a cinza melhora a grama eu não sei. Mas piorar não piora. O que estraga ela é o sal. Tempo atrás entrava um pessoal pra modo de visitar, conhecer o campo do Juventus da Mooca, turista. Aí a gente olhava de longe e pegava o cabra jogando sal grosso atrás do gol. Macumbinha, né? Coisa de adversário. Nunca tive atenção se dava resultado no jogo. Mas que queimava a grama, queimava.

Mas como eu ia lhe falando: quando cheguei em São Paulo, fui trabalhar na fábrica em São Bernardo do Campo. Fiquei quatro anos. Quando saí passei a vender peixe nas favelas de redor. Eu comprava peixe na beirada da represa e saía de isopor nas costas de porta em porta. Até que um cliente quis ajudar. Ele trabalhava aqui no clube e falou assim:

-- Rapaz, tão pegando gente na faxina lá no Juventus. Quer ir não?
-- Juventus é? E fica onde?
-- Na Mooca.
-- Tá bom. Vou.

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Imagem: Christian Carvalho Cruz/UOL

O serviço primeiro era limpar banheiro, vestiário e tudo mais. Só que já na segunda semana o administrador do estádio me mandou ajudar o engenheiro no campo. Pra encurtar pra você, aprendi todo o conhecimento da lida nessa roça de grama: os adubos, os venenos tudo, que grama tem raiz, caule e folha, tem broto também, aprendi a usar a adubadeira, o tratorzinho, ôxi, eu só conhecia enxada, mas fui prestando atenção. Eu tinha um gravadorzinho pretinho desse tamaninho assim. Ligava ele, prendia no cós da calça e gravava o que o engenheiro me ensinava. Quando chegava em casa à noite eu escutava tudinho. Uns tempos depois o administrador me chamou na sala dele e disse que eu estava dispensado. Tomei um susto. Ô, meu Jesus, me esforcei tanto, dei o meu melhor e vou ser mandado embora? Na verdade ele estava me dispensando da vassoura:

— Baiano, a partir de hoje você é o responsável pelo campo. Não tem mais engenheiro. O gramado é sua responsabilidade agora.

E tô aqui até hoje. O mais importante desse trabalho são duas coisas. A primeira é a água mesmo. Roça precisa de água. E a segunda é a precisão na aplicação dos produtos, as vitaminas pra planta. Se você dá de mais, enfraquece. Se dá de menos, não fortifica. Tem que ser a quantidade certinha. Mais irrigar e aparar. A única coisa que tive que aprender sozinho foi como matar os grilos. Tem um danado dum grilo que mora debaixo da terra e come a raiz da grama de pouquinho em pouquinho. Veneno nenhum dava certo nele e um dia eu pensei,"E se eu jogar detergente?". Testei e foi tiro e queda. Não sobra nenhum. Se vejo buraco de casa de grilo na grama, vou lá, despejo o detergente e na mesma hora o bicho pula pra fora já duro de morto. Falha não. Teve outro dia, eu tava nesse serviço e o treinador do time chamou os jogadores pra ver. Formou aquela rodinha e ele falou pro meninos prestarem atenção no carinho que eu tinha pra deixar o campo bom pra eles jogarem.

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Imagem: Christian Carvalho Cruz/UOL

Feliz demais, ôxi. Ouço bastante dessas coisas. Em dia de jogo eu gosto de assistir daqui da arquibancada. Que é pra ouvir o que os torcedores falam do gramado. "Hoje tá no capricho", ou "Tem uma falhazinha ali", ou "Olhe que a drenagem tá dando conta e sobrando". Uma vez, no intervalo de uma partida, a porta do vestiário do adversário tava aberta e eu ouvi o treinador deles dizer assim:

— Dá pra botar culpa no campo não. O menino que cuida da grama aqui no Juventus é bom. Tá um tapete. Voltem lá e joguem direito.

Eu dei foi muita risada, viu. Olhe, pra lhe ser sincero, eu assisto mais o gramado que o jogo. Por exemplo. Se cai um jogador lá do outro lado, eu já fico preocupado. Desço, contorno o campo e corro lá falar com o médico. Quero saber se foi em buraco no campo que ele pisou, se machucou grave. Deus o livre jogador torcer um tornozelo aí por causa de buraco no campo que eu passo os dias cuidando. Sempre que tem buraco eu fecho com areia. Aí trato até a grama brotar de novo na terra lá embaixo, atravessar a areia e vir forte pra fora. Assim ela fica mais resistente. Nesses 30 anos teve só um buraco que precisei deixar aberto: os quero-queros tinham botado quatro ovos nele. Se era dia de treino ou jogo, eu recolhia os ovinhos e escondia. Depois devolvia no lugar pros bichinhos chocarem. Três filhotes vingaram, ficaram aí correndo atrás de mim por uns tempos e um dia foram embora. Deixaram os pais sozinhos. Mas acho que é assim com todo mundo, né? Um dia os filhos pegam seu caminho e a gente precisa se confiar. É da natureza da vida.

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Imagem: Christian Carvalho Cruz/UOL

Ô, rapaz, agora você tocou num assunto que eu gosto. Sim, eu que pinto as linhas do campo tudinho. Tinta látex branca. Lateral, linha de fundo, grande área, pequena área, meia-lua, quarto de círculo, marca do pênalti. Que máquina nada. É na base do pincel, do rolinho e das matemáticas. Na escola eu não fui muito, mas pra pintar as linhas do campo precisa saber matemática. Elas têm que ter 12 centímetros de grosso, que é a mesma medida das traves. Fazer as retas é mais fácil. Eu estico uma linha bem esticadinha rente ao chão e venho com o rolinho seguindo ela. Nas curvas, complica. O círculo central, por exemplo. Uma ponta da linha medindo a metade do círculo eu cravo com uma estaca bem no meio. Estico ela até a borda e na outra ponta amarro o pincel. Venho vindo, vindo, devagarinho, como se fosse um compasso. Toda véspera de jogo tem que pintar as linhas. Mas nisso Maradona mexe não. É minha obra de arte, não deixo. Olhe Maradona. Ele é meu assistente. Bata uma fotografia nossa, faz favor. Maradona veio do Nordeste também, do Maranhão. Diga algo aí, Maradona:

— Jogo bem não. O apelido é porque a turma achou que minha aparência lembrava o falecido. Mas quem faz gol aqui é Gil. Ele é o craque. Sabe tudo de grama. Eu só tento não errar nos passes. Gil, tu contou pra ele de como ficou triste essa Javari na pandemia? Conte, Gil. Conte pra ele.

Ôxi, bote triste aí. Cinco meses de mato crescendo sem cuidado nenhum. Eu em casa sofrendo, andando de lá pra cá, daqui pra lá, sem poder fazer nada. O vigia me telefonava e dizia assim:

— Gil, tá feio. Um matagal só. Vai virar uma floresta. Melhor tu trazer uma cabrita pra ir comendo o mato enquanto tá nessa situação.

No dia que voltei precisei três turnos inteirinhos só pra cortar o mato. Fui baixando um pouco de cada vez, senão o tratorzinho esgoelava. Só depois do mato cortado é que fui recuperando a grama, dando vitamina, matando as pragas. Graças a deus ficou nos trinques de novo. Restou só esse pedaço perto do escanteio, vê, que uma grama invasora chamada batatais ocupou. Mas já tô liquidando ela e a boa vem vindo recuperando. A grama boa é a de nome bermudas, foi essa que o Palmeiras doou pra gente quando trocou no campo deles.

Então. É esse aí meu trabalho. Meu destino, como falou meu pai no dia que vim embora. Saí de uma roça que eu não gostava e caí noutra roça que eu tenho amor. Vai entender. Às vezes penso assim: Gil Juventus, Juventus Gil, tudo palavra começada igual, né? A explicação deve de tá aí.

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Imagem: Christian Carvalho Cruz/UOL

Gildásio Gonçalves do Nascimento, o Gil, 58 anos

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Histórias célebres de gente anônima: este é o espírito do projeto Trombadas. Nasceu sem destino, intenções, interesses ou desejos, nada além de conhecer e ouvir as pessoas que encontro nas ruas. Então eu saio, vou lá, paro -- é fundamental parar --- e escuto. Depois conto. No fim, é um mergulho. E um reencontro.