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Trombadas

A casinha centenária de Bruno e Ana

Christian Carvalho Cruz/UOL
Imagem: Christian Carvalho Cruz/UOL
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Christian Carvalho Cruz

Christian Carvalho Cruz nasceu no Jaçanã, em São Paulo. É jornalista, trabalhou nas revistas Placar, Quatro Rodas, Época Negócios, no portal Pelé.Net, nos jornais Folha de S. Paulo e O Estado de S. Paulo, entre outros. É autor do livro ?Entretanto foi Assim que Aconteceu? (ed. Arquipélago Editorial), criador do projeto Trombadas e militante da revista eletrônica "Grama - O Futebol Utópico".

Colunista do TAB

23/06/2022 04h01

O portão estava só encostado. A porta pesada de madeira, no alto dos degraus de caquinhos, aberta, escancarada. E uma das janelas também, sem grade. Da calçada dava pra ouvir a rotina lá dentro. A louça adormecida batendo na pia, o acendedor automático do fogão, uma vassoura passada com preguiça de segunda-feira, embora fosse sexta. Tudo parecia tão novinho. Que senhora caprichosa deve morar nessa casa. Como as outras da vila, ela tem mais de cem anos, porém, ao contrário da maioria, atravessou o tempo sem plástica, (des)harmonização ou maquiagem demais. Falo da casa, não da senhora, que, aliás, era coisa da minha imaginação. Porque lá vem o Bruno, o verdadeiro morador, de bermudão, camiseta e chinelos, me resgatar desse devaneio matinal:

— Opa, bom dia. Claro! Pô, que legal! Entra. A Ana acabou de assar um pão. Só não repara na bagunça. Casa com bebê, sabe como é.

É uma delícia estar, caminhar e imaginar coisas na Vila Maria Zélia, a vila operária construída entre 1912 e 1917 pelo industrial Jorge Street para os 2 mil empregados da sua Companhia Nacional de Tecidos de Juta. A gente imagina que não está em São Paulo, ou que está numa São Paulo ressuscitada dos livros de Alcântara Machado. Imagina que belezuras foram os prédios do armazém, da Escola de Meninas, a Escola de Meninos (construções simétricas, idênticas, uma de frente pra outra), da farmácia, do açougue, antes que o abandono os transformasse em ruínas.

Imagina que belezura maior seria se algum bilionário dessa cidade de bilionários orgulhosos de seus bilhões bancasse o restauro dos edifícios comunais, incluindo a Capela de São José, o único ainda funcional, todos propriedade do INSS. A gente imagina, ó glória!, o Luizinho Pequeno Polegar brilhando no lendário time de várzea local antes de virar ídolo do Corinthians nos anos 1950. Imagina que esse enclave operário no Belenzinho, uma mistura de descaso, realidade fantástica e resistência, seria um pouco mais mágico se o tombamento tardio, em 1992, tivesse chegado a tempo de resguardar as características originais de todas as 171 casas remanescentes. E, a além de imaginar, a gente pode perguntar:

TAB Trombadas - Bruno Botosso e Ana Karina Fazza Botosso - Christian Carvalho Cruz/UOL - Christian Carvalho Cruz/UOL
Imagem: Christian Carvalho Cruz/UOL

Por que vocês moram aqui? Eu achei que só velhinhos herdeiros dos antigos funcionários da fábrica vivessem na Vila Maria Zélia.

Bruno: Cara, no nosso caso foi uma escolha. Primeiro uma escolha minha, porque comprei a casa escondido da Ana. Estava caindo aos pedaços. Tinha buracos no telhado, chovia dentro, o assoalho, o forro, as portas, as janelas, tudo que era de madeira parecia imprestável. Mas estava originalzinha, como tinha sido projetada e construída. Quando eu parei aí na frente pela primeira vez, na calçada, como você parou, antes de entrar eu soube que a nossa vida seria aqui. Eu nasci e cresci no Belenzinho, numa casa com grade pra todo lado que fica numa rua movimentada pra cacete. Meu pai chegava do trabalho à noite e era uma operação de guerra: dá volta no quarteirão pra ver se não tem perigo, abre rápido o portão, entra rápido com o carro, fecha rápido o portão. Aí eu vinha passear na Vila Maria Zélia e pensava: como pode um lugar tão perto ser tão diferente? A vila sempre me encantou. Meio filme, meio sonho, misteriosa, parada no tempo. Você anda por aí e sente isso. Porta aberta, janela aberta, carro aberto, bicicleta só encostada no muro, sem cadeado. Todo mundo se conhece, se respeita, quer saber se está bem, precisando de alguma coisa. É muito louco esse lugar. Aí, quando comecei a juntar dinheiro pra comprar uma casa, eu escolhi aqui. Foi em 2015. É estranho, né? O mais comum é a gente querer comprar um apartamentinho financiado em Pinheiros, Moema, com play, pool, power station pra carro elétrico, essas paradas todas. Sei lá, eu prefiro as coisas antigas, com história, com a passagem do tempo marcada nelas. E também não queria só morar num lugar. Eu queria viver num lugar. É diferente.

Ana: Gente, vamos abrir espaço na mesa prum lanchinho? Ó, tem pão australiano, manteiga, bolo de maçã com canela e café. Tudo caseirinho, hein. Faço bastante que é pra levar pros vizinhos, conversar um pouco com eles e me enturmar. A minha relação com a vila é diferente. A minha bisavó morou aqui, com os pais dela, meus tataravós, que trabalharam na fábrica. Mas aí a família cresceu, as casas eram pequenas e eles se mudaram. Eu nunca desejei morar aqui, pelo contrário, porque pra mim a Maria Zélia era isso: lugar de bisavó. Eu era total vamos casar e comprar apartamentinho novo, sim, e ficar pagando até morrer. Hoje eu não mudo da vila por nada. Mas no começo foi difícil pra mim. Eu era bem padrão. O Bruno que é fora do padrão. A primeira vez que a gente saiu ele me levou num show do Hamilton de Holanda & Yamandu Costa. Chegou uma hora que eu falei: Bruno, eles não vão cantar, não? Vão ficar só nesse violão aí?

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Imagem: Christian Carvalho Cruz/UOL

Bruno: Depois, pra se vingar, ela me levou naquele Eataly. Primeira e última vez. Nunca mais. Aquele lugar é o símbolo de tudo o que eu não acredito. A gente comeu um pãozinho e gastou 90 reais, cê tá maluco.

Ana: Bom, um belo dia ele chegou com a surpresa: Comprei uma casa pra gente, vamos lá conhecer. Quando eu cheguei e vi os escombros, minha mãe do céu!, fiquei em choque, caí em desespero. Nem chorar eu consegui.

Bruno: Eu animadão, afastando o mato pra ela entrar, querendo mostrar como ficaria. Olha, Ana, aqui vai ser o nosso quarto, aqui a gente pode abrir a cozinha, trazer a porta do banheiro pra cá, olha!, a fachada precisa ficar original, o pé-direito é tão alto que cabe um mezanino, e ela só reclamava: Não vai dar, Bruno, por que você fez isso? Eu eu: mas eu vou reformar tudo, Ana, fica tranquila. Sobrou dinheiro pra reforma, Bruno? Não, mas eu vou fazer sozinho.

Ana: Aí eu surtei de vez. Sozinho?! Quanto tempo a gente vai ter que esperar? Dez anos? Vinte anos? Você só pode tá brincando com a gente. Eu quero casar, morar no nosso canto, viver com você. Mas a gente vai morrer antes de conseguir tornar esse lugar habitável. Isso não é uma casa, Bruno. É uma ruína.

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Imagem: Christian Carvalho Cruz/UOL

Bruno: Eu eu gostava justamente por isso, por ser uma ruína. Pra mim a vila toda tem essa pegada de queda do Império Romano. Eu adoro. Um dia a gente trouxe os pais da Ana pra conhecer. Meu sogro só me deu uns tapinhas nas costas e não falou nada. Mas foi como se dissesse Que cagada você fez, hein? Aí eu comecei a reforma. Sozinho. É que antes de me formar em violão clássico na USP eu estudei no Liceu de Artes e Ofícios, sempre gostei de mexer com obra, carro, solda, marcenaria, serralheria. Comecei pelo telhado, que era pra parar de chover dentro. Aí tirei todo o assoalho de peroba-rosa e levei prum marceneiro em Atibaia passar na plaina. Madeira com mais de cem anos, linda!, ficou novinha outra vez, dá uma olhada. Teve uma vizinha até, a Elis, que queria tirar o assoalho da casa dela, de pinho-de-riga, imagina!, pra pôr cerâmica no lugar. Depois de ver o nosso ela desistiu. Chamou o mesmo marceneiro e recuperou o piso original. É maravilhoso. Bom, aí, as janelas, que também eram originais, estavam muito danificadas. Encomendei réplicas. As ferragens, dobradiças, trincos, tudo original, eu restaurei peça por peça e reinstalei. Trabalhão lento, às vezes dava certo, às vezes tudo errado, mas gostoso de fazer. Eu sou professor de música e nessa época dava aula só na parte da tarde. Então eu vinha todas as manhãs e trabalhava na casa das 6h às 11h.

Ana: Aí eu comecei a me animar. A gente saía à noite, nossos pais achando que era pra barzinho, cinema, mas a gente ia catar entulho em caçamba pra aterrar e nivelar o piso antes de reinstalar o assoalho de madeira. Virei mó caçambeira. Só que chegou num ponto que a gente brigou e se separou. Tinha o que, Bruno?, uns três anos de obra? Ah, resumindo, porque ele interrompeu a reforma da casa pra recuperar a bendita caminhonete dele, que tinha caído no mar num dia que a gente foi buscar um barco que ele comprou com o pai dele. O carro virou um submarino. O que o Bruno fez? Parou a obra da casa pra consertar o carro. Desmontou inteirinho, todos os parafusos, motor, bancos, tudo. Desesperador. Ele ficou um ano só nisso e aí eu pensei: já era, não vai ter mais casa, casamento, filhos, nada. Comecei a questionar tudo. Que futuro eu tenho aqui? O Bruno é muito do presente. Eu, do futuro. Ele gosta de viver o agora, uma coisa de cada vez. Diz que não dá pra ter controle sobre o amanhã. Eu sou o contrário: penso lá na frente, quero prevenir, evitar sofrimento, deixar tudo preparadinho. E ele lá consertando uma caminhonete velha que nem tinha lugar pra cadeirinha de bebê. A gente brigou e se separou.

Bruno: Eu terminei a caminhonete, vendi e comprei outra igual, mas de cabine dupla. Aí fui cuidar da parte elétrica da casa, dei um gás na reforma e liguei pra Ana, pra gente conversar. Ela me marca um encontro naquele bar Skye, no hotel Unique. Eu nem sabia como entrar.

Ana: Ele chegou pistola. Mas falou que queria voltar pra casar. Dias depois eu vim na casa e ele tinha feito uma caça ao tesouro complicadíssima, cheia de palavras secretas. Quando achei o envelope, tinha duas alianças de coco que ele fez e esse bilhetinho de pedido de casamento, que eu emoldurei e pendurei na parede do nosso quarto. A cerimônia de casamento dava um livro. A gente recuperou também um terreno aqui na vila que estava cheio de mato, cercado e o pessoal jogava entulho. Fizemos tudo nós dois, juntos. Os vizinhos acharam que a gente era louco. Chamamos os amigos, parentes, um juiz de paz e casamos ali. O Bruno até se fantasiou: pôs fraque, gravata borboleta, sapato, tava lindo.

Bruno: Pra você ver como essa casa é mágica. Eu falo que tem uma coisa especial aqui, sei lá. Eu e a Ana somos muito diferentes em várias coisas, você já deve ter notado. A gente se encontra mais nos valores, nos princípios, não nos gostos. Mas a casa, cara, a casa transformou a gente. O processo todo de viver aqui facilitou o nosso encontro e também os desencontros. Da minha parte acho que eu passei a ser mais tolerante, pelo menos. Entendi que eu não preciso gostar das mesmas coisas pra compreender e respeitar as pessoas. Que nem tudo precisa ser do meu jeito. Aprendi a ceder também.

Ana: A minha transformação foi maior, eu acho. Porque o Bruno sempre esteve inserido nessa vida de vila. A alma dele é assim. Eu tive que aprender, ou descobrir isso em mim. Claro que eu tô feliz! Tem sido maravilhoso. Vir morar aqui trouxe umas coisas, uns desejos que sempre foram nítidos pro Bruno mas meio embaçados pra mim. Ah, tipo viver mais simples, mais devagar, mais no presente, ter menos pra viver mais. Eu sou neuropsicopedagoga, dou aula, cursos, faço atendimento, e aí optei por trabalhar o suficiente, sem cair na loucura da correria, do excesso. Porque a casa me mostrou isso, que viver, digamos, fora do padrão não é um sonho, uma utopia. Foi a casa! Aqui eu entendi que abrir mão não é perder, é ganhar. E é tão bom, mas tão bom quando a gente consegue colocar isso em prática. Pra você ver: por dois anos seguidos a gente se inscreveu num concurso da prefeitura que coloca plaquinhas explicativas em imóveis históricos da cidade. O nosso texto pra plaquinha diz "Construída em 1917 e completamente restaurada em 2019, preservando as características originais do projeto, esta casa faz parte do conjunto de moradias destinadas aos operários da extinta Companhia Nacional de Tecidos de Juta". Mas a prefeitura indeferiu, não entendi o motivo. Tcho aproveitar então, né?: ô, prefeitura, olha nóis aqui, a gente merece uma plaquinha! Mas voltando à nossa programação normal: tem uma coisa importante que eu sinto e queria dizer. É provável que, num apartamentinho novo com play, eu e Bruno, a gente já tivesse se separado pra sempre. Mas estamos aqui, cada vez mais firmes, felizes e intensos na nossa casinha centenária. Nunca uma escolha foi tão acertada na minha vida. Nas nossas, né, Bruno? Ano passado nós tivemos uma filha, a Catarina, e já planejamos ter mais. Certeza absoluta que é aqui que a gente vai ficar até morrer. Se debruçar na janela e ver as crianças brincando na rua, se sentindo protegidas pela comunidade, pelos vizinhos, os amigos, e não por grades e portões altos.

Bruno: Esse é o meu maior desejo também. Fazendo uma concessão ao futuro, que, vai, tudo bem, é melhor que ir ao Eataly, eu quero só isso aí: que a gente possa viver com menos medo e mais esperança. Aí, daqui cem anos, quando um jornalista bater na nossa porta, os nossos bisnetos vão convidar pra entrar, oferecer um café, pão com manteiga, e começar a contar a história da família assim: Era uma vez uma casinha de operário na Vila Maria Zélia...

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Imagem: Christian Carvalho Cruz/UOL

Bruno Botosso, 37 anos, e Ana Karina Fazza Botosso, 39

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Histórias célebres de gente anônima: este é o espírito do projeto Trombadas. Nasceu sem destino, intenções, interesses ou desejos, nada além de conhecer e ouvir as pessoas que encontro nas ruas. Então eu saio, vou lá, paro — é fundamental parar —- e escuto. Depois conto. No fim, é um mergulho. E um reencontro.