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De cartazes a memes, como o design interpreta o caos político e social

See Red Women
Imagem: See Red Women's Workshp

Adriana Terra

Colaboração para o TAB

23/11/2018 04h00

Fazia menos de 24 horas da notícia de que mestre Moa do Katendê, capoeirista e compositor baiano de 63 anos, havia sido assassinado com 12 facadas após uma discussão sobre política e eleições em Salvador quando uma arte em sua homenagem, feita a partir de fotografia do rosto altivo do artista, já circulava pelas redes.

A morte da vereadora Marielle Franco (PSOL-RJ), executada aos 38 anos com nove tiros quando saía de um evento em março de 2018 no Rio de Janeiro, ainda não foi esclarecida, mas desenhos nos muros de diversas cidades do país não deixam esquecer sua trajetória e o ocorrido. São frases, ilustrações em estêncil, cartazes em lambe-lambe que seguem sendo espalhados nos últimos seis meses, como “memes analógicos”. "Marielle vive", diz uma das artes. Um ato no dia 14 de outubro no Rio distribuiu placas simbólicas com o nome da vereadora, após uma outra placa, colocada também simbolicamente na praça Marechal Floriano, ter sido arrancada e rasgada por deputados do PSL.

Da mesma forma que os memes são a linguagem que corre nas redes e no WhatsApp assim que um fato impactante vem a público — tendo se tornado, também, o principal suporte de boatos e mentiras —, o design tem dado respostas estéticas rápidas aos ocorridos políticos e sociais dos últimos tempos.

"As lutas políticas tendem a provocar respostas artísticas interessantes", lembra o historiador Rafael Cardoso, autor de "Design para um Mundo Complexo" (ed. Cosac Naify, 2012). "O design gráfico, até pelo perfil, tem uma agilidade de confecção e replicação, por isso é muito presente enquanto ativismo", acredita a arquiteta e editora Bebel Abreu, do estúdio Mandacaru, que representa no Brasil o projeto What Design Can Do?, iniciativa de cunho social que surgiu na Holanda como uma reação à crise econômica de 2008.

Segundo pesquisa do professor Rafael Tadashi Myiashiro, publicada no livro "O Papel Social do Design Gráfico" (ed. Senac, 2011), a relação mais íntima entre design e ativismo começou no século 19 na Europa, e tinha como foco reconfigurar as condições de trabalho e consumo, criando uma sociedade mais harmônica. No começo do século 20, envolveu os movimentos modernistas insatisfeitos com as desigualdades do sistema de produção industrial.

Toda atividade profissional tem sua dimensão política porque vivemos em sociedade, e as sociedades se organizam por meios políticos. Mesmo quem diz que não tem posição ou não faz política, está adotando um posicionamento. Se você não faz, deixa o campo livre para que os outros façam
Rafael Cardoso, historiador

Exemplo clássico do impacto do design na produção de imaginário político e social, o movimento de Maio de 1968 na França teve produção ampla e diversa de cartazes, feitos nas universidades, nos chamados ateliês populares e no CMDO, o Conselho pela Manutenção das Ocupações. "Para as jornadas de maio-junho de 68 na França, eles adquirem uma importância singular: por sua qualidade, seu modo de criação e produção, sua difusão e seu impacto. São, mesmo para os que conhecem pouco sobre esse evento, parte do imaginário sobre a luta travada naqueles dias", escreve a cientista social e tradutora Maria Teresa Mhereb no livro "68: Como Incendiar um País" (ed. Veneta, 2018).

Já a luta por igualdade racial dos Panteras Negras nos anos 1960 e 1970 nos EUA tem no artista gráfico Emory Douglas — cujos cartazes ganharam grande exposição em 2017 em São Paulo — seu mentor estético. Em comentário ao Sesc sobre a mostra, Renata Felinto, professora adjunta de Teoria da Arte da Universidade Regional do Cariri, no Ceará, disse: "Essa conjunção com as artes gráficas é a forma mais veloz de identificar uma bandeira".

Na Argentina, durante a crise econômica de 2001, um coletivo chamado El Fantasma de Heredia se tornou referência por seus cartazes. "O papel social não é do designer gráfico, mas das pessoas", disse a artista Anabella Salem, uma das fundadoras do grupo.

Não é por acaso que, voltando ao Brasil, designers vêm se reunindo nos últimos anos para produzir material pensando nas reivindicações contemporâneas. Frente a uma eleição orientada por declarações de preconceito do presidente eleito Jair Bolsonaro — cujo rosto também estampa camisetas (e até botas) Brasil afora —, um grupo que já se configurava informalmente desde 2011 se organizou sob o nome Design Ativista, puxado pelas plataformas de comunicação IdeaFixa e Mídia Ninja.

Para nós, o design é uma ferramenta importante demais pra ficar na mão somente de grandes corporações. Ele deve estar a serviço do interesse comum e das pessoas
Design Ativista

Além deles, ações individuais e de outros coletivos passaram a usar hashtags para organizar esse conteúdo que aborda, principalmente, a defesa dos direitos humanos e da democracia, temas que tiveram destaque no debate público dos últimos anos e passaram a ser relativizados, quando não atacados, frente a um discurso de repúdio a pautas ligadas a minorias sociais.

Narrativas estéticas

Em seu início, este texto faz uma diferenciação de cartazes e memes. Mas estes também não são uma representação visual dos tempos em que vivemos? As questões culturais hoje na sociedade têm uma transposição estética, seja em propagandas oficiais ou no ativismo? O design ativista é sempre humanista? Foi o que o TAB perguntou para dois pesquisadores.

Para o professor e pesquisador Rafael Tadashi, mesmo o meme que carrega desinformação ou mensagens que incitam posturas de ódio "é político e ativista, da mesma forma que tivemos propagandas nazistas". Isso nem sempre fica evidente porque o "design é [visto como] uma qualidade, adjetivo. Esse é um debate antigo na área", diz ele.

O historiador Rafael Cardoso acredita não se tratar exatamente de uma batalha estética. "Talvez seja um pouco o contrário: a desqualificação de qualquer valor estético ou ético, o esvaziamento do objeto de design, de comunicação, até virar abjeto. O enunciado como degradação da linguagem. As fake news são isso: a deformação da informação até virar desinformação, ou seja, lixo. Será que o lixo pode ser ou ter design? Por um lado, acho que não, porque design é um processo de atribuir significado, sentido. O lixo, ao contrário, é a matéria esvaziada de qualquer significado. São polos opostos. Por outro lado, quando vamos avaliar historicamente as peças de propaganda geradas pelos regimes mais sórdidos, sempre há algumas que se salvam como enunciado artístico. O caso emblemático é o 'Triunfo da Vontade', de Leni Riefenstahl, que consegue ser um bom filme muito embora a serviço de uma causa hedionda como o nazismo", pontua.

Para ambos, o design que se propõe gerador de reflexão está enfrentando, hoje, a dificuldade de uma guerra de informação onde vence quem joga mais sujo. Algo parecido quando pensamos na comunicação de modo mais amplo. "O que vemos é uma pulverização completa de meios, mídias, linguagens, atores", diz Rafael Cardoso. "Me parece que tem que ser pensado melhor como atingir o outro", acredita Tadashi.

Será que o lixo pode ser ou ter design? Por um lado, acho que não, porque design é um processo de atribuir significado, sentido. O lixo, ao contrário, é a matéria esvaziada de qualquer significado. São polos opostos
Rafael Cardoso, historiador

A arquiteta e editora Bebel Abreu percebe que, nesse campo minado, "memes da fofura são menos viralizáveis". "O conteúdo violento é mais sedutor", diz ela. Lembro de uma entrevista que fiz com a cientista social Esther Solano para o TAB sobre discurso de ódio em que ela frisava: "o ódio é um afeto político potente".

Pra onde todas essas imagens vão?

Sejam memes feitos sem grande apuro ou cartazes mais trabalhados, como esse monte de imagens sobre os tempos que vivemos vai sedimentar? O que vai ser relevante no futuro?

"Há uma superprodução de imagens hoje", diz Rafael Cardoso. "Como elas vão envelhecer é uma ótima pergunta. Nunca uma imagem valeu tão pouco, foi tão descartável. Se a gente for tirar pelo passado, vai ficar muito pouco. Somente o que é realmente excepcional", acredita, citando a cultura do selfie e do Instagram de comida como exemplos — o cineasta alemão Wim Wenders disse recentemente achar que a fotografia de celular deveria inclusive ter outro nome, por representar outra coisa: 'phoneography' é sua sugestão.

"A primeira coisa que me vem em mente hoje talvez seja o acúmulo de imagens e o excesso de informação. O que esse acúmulo produz? Eu pensaria em manipulação. Você olha, talvez não veja direito, mas seu cérebro processa de alguma forma", acredita o professor e pesquisador Rafael Tadashi.

No ensaio "Mundo-Imagem", a crítica de arte norte-americana Susan Sontag (1933-2004) parte do pensamento do filósofo alemão Ludwig Feuerbach para dizer que "uma sociedade se torna 'moderna' quando uma de suas atividades principais consiste em produzir e consumir imagens, quando imagens que têm poderes excepcionais para determinar nossas necessidades em relação à realidade e são, elas mesmas, cobiçados substitutos da experiência em primeira mão se tornam indispensáveis para a saúde da economia, para a estabilidade do corpo social e para a busca da felicidade privada".

Essa produção de imagens em larga escala não é, portanto, inesperada. O desafiador, diante disso, talvez seja o modo como organizamos as ideias, damos sentido lógico a elas. Em suma, o papel — também social e político — do design.

Em seu livro de 2012, Rafael Cardoso diz que o conflito entre informação demais e conhecimento de menos é um dos paradoxos da atualidade. "À medida que o mundo vai ficando mais complexo, parece que as pessoas se dispõem cada vez menos a tentar fazer sentido das coisas."

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