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Do desapego à crise econômica: como o minimalismo preenche o seu vazio

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O minimalismo ganhou força com a crítica ao excesso de consumo depois da crise global de 2008 Imagem: Arte/TAB

Luiza Pollo

Da agência Eder Content, em São Paulo

2019-02-20T04:01:00

20/02/2019 04h01

A imagem de uma casa tão vazia que chega a fazer eco, sem nenhuma decoração e com poucos móveis - todos brancos - virou até piada no site de Joshua Fields Millburn e Ryan Nicodemus, o The Minimalists. "É bem simples: Para ser minimalista, você precisa viver com menos de 100 coisas, você não pode ser proprietário de uma casa, um carro ou uma televisão, você não pode ter uma carreira, você precisa viver em lugares exóticos e com nomes difíceis de pronunciar, você precisa criar um blog, você não pode ter filhos, e você precisa ser um homem branco e privilegiado", ironizam.

Millburn e Nicodemus são dois dos nomes mais relevantes relacionados ao assunto. Em 2009, ambos tinham carros luxuosos, grandes casas e salários anuais que ultrapassavam as centenas de milhares de dólares. Parece até clichê de filme, mas em determinado momento eles perceberam que o sucesso era só aparente. Para além da ostentação, sentiam que não eram donos do próprio tempo.

Decidiram, então, mudar de estilo de vida, cada um à sua maneira. O objetivo era o mesmo: diminuir o consumo e entender o que realmente importava para eles. Venderam boa parte do que tinham, publicaram um livro e rodaram os Estados Unidos fazendo palestras sobre a experiência. Mais recentemente, Millburn e Nicodemus produziram "Minimalismo: Um Documentário Sobre as Coisas Importantes", disponível na Netflix.

As tais "coisas importantes" não são parte de nenhuma lista mirabolante e restritiva. São subjetivas e variam entre os indivíduos. "Minimalismo é um estilo de vida que ajuda as pessoas a questionarem quais coisas adicionam valor às suas vidas", explicam.

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Os interiores privilegiam os vazios e reduzem os objetos que formam a identidade e a memória do morador Imagem: Arte/TAB

O que substitui as "coisas"?

"Coisas que adicionam valor", coisas que trazem felicidade. Soou familiar? Então você deve ter assistido à série "Ordem na Casa", com Marie Kondo, na Netflix. A organizadora profissional, criadora do método KonMari e autora de quatro livros, ganhou ainda mais adeptos depois da série e virou até meme na internet. Sob o mantra "isso me traz alegria?", Marie leva organização com raízes japonesas aos lares abarrotados de algumas famílias norte-americanas.

A ideia é ter consciência dos objetos acumulados ao longo do tempo e manter apenas os que têm valor. Engana-se o leitor voraz que pensa que terá de jogar fora a maior parte de seus livros. Se eles têm significado e trazem felicidade, sem atrapalhar o dia a dia ou trazer dor de cabeça, devem ficar.

Do ponto de vista mental, o minimalismo faz todo sentido, afirma Giovana Del Prette, psicóloga, professora e supervisora clínica em Análise do Comportamento no Instituto de Psiquiatria da USP (Universidade de São Paulo). Não é o ato de se livrar dos objetos que traz felicidade, explica, mas sim "o que a pessoa vai fazer no lugar de acumular coisas."

O tempo gasto no consumo - desde as horas trabalhadas para ganhar dinheiro até a pesquisa de um produto, o passeio na loja e a compra em si - precisa ser substituído por outras atividades prazerosas, afirma Giovana. Não dá para doar uma pilha de roupas sem muita reflexão e achar que virou minimalista. No dia seguinte, você provavelmente vai querer comprar de novo.

"Pode criar-se um vazio na pessoa. Se ela costumava preencher com o consumo, perceber esse vazio pode fazer voltar atrás ou pode fazer progredir. E o progredir vai ser o que ela vai colocar no lugar do que fazia antes. É importante estabelecer metas com o tempo em que consumia", diz a psicóloga.

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Poucas peças para cada estação, e roupas com significado e praticidade formam o closet minimal Imagem: Arte/TAB

Um plano minimalista

"Era aquela coisa de ver o fim de semana como recompensa. Você trabalha muito a semana inteira e aí vai ao shopping comprar um monte de coisa porque 'eu mereço'", lembra a administradora Mirella Rabelo.

Em 2014, ela morava em um apartamento no Brooklin, bairro nobre de São Paulo, quando conheceu Rômulo Wolff. O também administrador tinha passado uma década fora do Brasil, trabalhando como especialista em tecnologia da informação e vendas. Quando voltou para cá, percebeu que seu lugar não era em seu apartamento no Itaim Bibi, outro bairro paulistano endinheirado. Ele queria conhecer mais do mundo.

Mirella topou embarcar com ele em uma viagem de dois anos da Argentina ao Alasca, de carro. Mas foi além. Ela criou uma estratégia para que o casal ganhasse dinheiro com a viagem. Nasceu o Travel and Share, blog e perfis nas redes sociais, em uma época em que blogueiros de viagem eram mais raros.

"A primeira coisa que precisamos fazer foi cortar os gastos antes de viajar. Vendi tudo que podia vender, fiz um bazar de roupas em Poços de Caldas (MG), onde minha família mora, e movimentou a cidade", relata Mirella.

O casal conseguiu uma picape por meio de patrocínio e quis aproveitar o espaço para fazer caber tudo que fosse possível. Além da barraca na qual eles pretendiam dormir quando não encontrassem acomodação gratuita em couch surfing, lotaram o carro com caixas cheias de roupas e utensílios.

Mas até isso começou a parecer exagero. O banco de trás estava abarrotado e as caixas não eram práticas. "Começamos a perceber que ter muita coisa, em vez de trazer conforto e alegria, trazia confusão", lembra Mirella. Com o banco de trás lotado, perceberam que não podiam dar carona a ninguém que viam pela estrada. Um dia, encontraram um homem em um local totalmente deserto e não conseguiram deixá-lo lá, sozinho. Depois da experiência com a primeira carona, eles abriram o espaço do banco de trás permanentemente, o número de itens se reduziu ainda mais, e o que já era uma vida mínima ganhou também sentido minimalista.

"O melhor que aconteceu foram as amizades que fizemos na estrada", diz Rômulo. "Nós praticamente não temos contato com os amigos de antigamente, estamos conectados pelas redes sociais mas nunca nos falamos." Após uma limpa nos grupos de WhatsApp dos quais participavam, viram que o tempo que passavam no celular também ficou mínimo.

O principal do minimalismo é preencher o espaço [antes repleto de objetos] com relacionamentos de verdade, mais tempo de convivência e não de isolamento

Giovana Del Prette, psicóloga

O plano de negócios de Mirella deu certo e o casal decidiu não voltar mais. Pelo menos não para ficar. São Paulo é um dos pontos de parada das muitas viagens que fazem juntos pelo mundo, agora a bordo de uma picape incrementada com um camper - uma estrutura montada sobre o carro que se assemelha a um trailer. O segundo livro - agora sobre o estilo de vida minimalista - deve sair ainda em 2019.

"Hoje a gente é muito grato por essa vida que leva e por ter uma casa tão pequena", afirma Mirella. "Eu não guardo coisas, mas guardo muitas histórias. E no final são elas que permanecem. O enfeite que eu tinha na estante do meu apartamento ou a blusinha que eu deixei para trás eu já nem lembro. Mas as histórias que o primeiro cara para quem eu dei carona contou, isso eu lembro", completa.

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Guardar histórias e não objetos é uma das regras da lógica minimalista Imagem: Arte/TAB

Menos consumo

Em tempos de informação imediata, conexão à internet em tempo integral e outros estímulos incessantes, não é estranho ver um movimento que se coloca exatamente como oposto.

Além do sucesso recente de Marie Kondo, Joshua Fields Millburn e Ryan Nicodemus em livros, palestras e até na Netflix, a internet facilitou o encontro e o compartilhamento de ideias entre os minimalistas. Nas redes sociais, hashtags como #minimalismo, #livewithless, #menosemais, #armariocapsula e #tinyhomes ajudam a reunir conteúdo sobre o tema.

A ideia do minimalismo não é nova. Vai e vem dependendo de para onde a sociedade está caminhando. Se vai para um lado, tem o outro para contrabalancear

Giovana Del Prette, psicóloga

A ideia do armário cápsula, por exemplo, foi o que fez deslanchar o blog Un-Fancy em 2014. Caroline Joy, autora do site, virou referência no assunto quando escreveu um post sobre como a redução no consumo e no número de peças que tinha no guarda-roupas a ajudou a "encontrar um estilo" e se desprender do consumismo. A rede de seguidores de Caroline ajudou a espalhar o modelo do armário com número limitado de peças que se combinam entre si - hoje bem mais fácil de encontrar em blogs e perfis de Instagram e Pinterest.

Minimize a crise

A palavra "minimalismo" costuma remeter ao movimento artístico que começou logo após a Segunda Guerra Mundial, principalmente entre artistas visuais dos Estados Unidos. Com uso predominante de formas geométricas e fazendo referência ao modernismo, "a arte não é mais uma questão de conteúdos (formas, cores, visões, interpretações da realidade, maneira ou estilo), mas de percepção", escrevem Marcelo Mocarzel e Angelina Accetta Rojas em estudo sobre o tema publicado em 2015.

Mocarzel, professor em estágio doutoral da Universidade Federal Fluminense, explica que o minimalismo como estilo de vida não tenta romper com a sociedade, como fizeram os movimentos punk ou hippie. "[O minimalismo] Tenta, dentro da sociedade, criar mecanismos de sustentabilidade. Não é uma ideia de sociedade alternativa, mas de uma com menos estresse, mais focada na qualidade de vida", define.

Por isso, viver com menos parece mais palatável a quem está cansado do ritmo de vida imposto pela sociedade atual, mas não pretende viver isolado dela. "A ideia do minimalismo é desvincular de coisas que possam ser confortáveis e te tornam dependente", avalia Giovana.

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No lugar de quintais e canteiros, a natureza minimalista prioriza a sustentabilidade e alimentos para cozinha Imagem: Arte/TAB

Parte das críticas ao movimento, e mais recentemente ao método KonMari, alega que o minimalismo é excludente porque não se aplica à população mais pobre. Mocarzel argumenta que, apesar de o 'rótulo' ser usado em contextos de classes média e alta, as ideias minimalistas vêm em parte de soluções criativas encontradas por pessoas que precisavam se vestir, comer e morar gastando pouco.

Reaproveitamento de materiais, grupos de trocas de roupas entre conhecidos e brechós são alguns dos exemplos citados por ele. "O momento de crise no Brasil também fez com que despertasse o interesse em economizar e consumir de forma consciente", observa. "Não vejo incompatibilidade [entre ter pouco dinheiro e ser minimalista], vejo um aprendizado com as pessoas que têm menos recursos. Elas são mais criativas e acham saídas interessantes."

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