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O que a experiência do Lollapalooza diz sobre a tendência dos festivais

Público acompanha show de Sam Smith no Lollapalooza Brasil 2019 - Mariana Pekin/UOL
Público acompanha show de Sam Smith no Lollapalooza Brasil 2019 Imagem: Mariana Pekin/UOL

Letícia Naísa e Tiago Dias

Do TAB, em São Paulo

09/04/2019 04h00

O Lollapalooza chegou em sua 8ª edição no Brasil repetindo certos padrões. Com nomes como Kendrick Lamar e os Tribalistas, o festival foi mais uma vez alvo das mais diferentes críticas - do público elitista às bandas divulgadas em letras menores no line-up que ninguém nunca ouviu falar, passando pela clássica de que a música já não é mais o carro-chefe das experiências que um evento dessa magnitude poderia propor.

Apesar das discordâncias, a bilheteria mais uma vez não decepcionou. O público de mais de 240 mil pessoas nos três dias do Lollapalooza 2019 é um dos sinais de que o festival criou raízes fortes no país - e é prova cabal de que os brasileiros já estão fidelizados ao calendário de festivais musicais.

Um levantamento feito pelo Social Wave, plataforma que transforma fãs em embaixadores de shows, em parceria com o BRMC (Brasil Music Conference), com mais de 800 mil pessoas das regiões Nordeste, Centro-Oeste, Sudeste e Sul, mostrou que quase metade do público que tem interesse em festivais reservam tempo e dinheiro para ir a quatro ou mais eventos do tipo por ano. E, na maioria das vezes, eles fazem isso em grupos de quatro a seis amigos.

Arte/TAB
Imagem: Arte/TAB

Considerando que os valores gastos com festivais são maiores do que aqueles gastos em clubes e bares, é um negócio que salta aos olhos. Ainda mais quando a economia criativa no Brasil possui peso econômico muito significativo, correspondente a 2,64% do PIB, segundo informações do Ministério da Cultura em 2018.

Seja na frente do palco, na selfie caprichada no mural de lambe-lambes ou nas filas das ativações de marcas, que se multiplicam a cada ano, os jovens nunca foram tanto a festivais quanto agora - e os festivais nunca tiveram tantas atrações fora dos palcos. Mesmo com perrengues, shows cancelados e debaixo de chuva forte no sábado (6), o público se manteve fiel ao festival e aproveitou como pôde até a reabertura do Autódromo.

O jornalista Lúcio Ribeiro, curador do festival Popload, conta que nos anos 1990 o rolê era bem mais hardcore e sem registros. "Você passava vários perrengues, essa coisa da experiência não existia muito. Você ia a um festival por causa da música que ia tocar, era focado nisso. Quando os festivais viraram business nos EUA no começo dos anos 2000, a tal da experiência foi crescendo ano a ano. O festival hoje é um grande shopping center", afirma. Para ele, o negócio colou tão forte no Brasil que não tem jeito: o país já está na onda dos festivais estrangeiros.

"O festival representa o zeitgeist (espírito do tempo). Ir a um festival é uma experiência que vai proporcionar para você um contato com tudo que está acontecendo de relevante nesse espírito do tempo, ou seja, no comportamento e na moda ", diz João Anzolin, diretor de Comunicação do BRMC e criador do Subtropikal, festival de criatividade de Curitiba (PR), onde a música tem o mesmo peso de workshops e palestras.

Esse resultado passa pela diversidade de atrações - seja de Kendrick Lamar, rapper norte-americano ganhador do Pulitzer, que dificilmente viria ao Brasil se não fosse por meio de um festival, à pernambucana Duda Beat, que no ano passado capturou no seu som pop e brega certos dramas adolescentes. O culto, no entanto, não está mais restrito à música. É nos gramados artificiais do Rock in Rio ou nas curvas do autódromo de Interlagos, onde ocorre o Lollapalooza, que fica evidente também que o público quer experimentar o momento de outras formas - mesmo que o ingresso chegue próximo a um salário mínimo (a entrada para apenas um dia no Lollapalooza custava R$ 800).

"Há uma avidez que é nata dos millennials ou das gerações mais novas de ir a cada final de semana, ou quinzena, experimentar um lugar e uma sensação nova", diz Claudio da Rocha Miranda, diretor-geral da BRMC. "Tanto é que na esteira dessa avidez de novidades, estão aí os clubes que não se sustentam mais, porque o clube está lá igual toda semana. Não só os festivais, mas as festas que são mais volantes, a cada semana, apresentam uma nova experiência".

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Imagem: Arte/TAB

Nova diversão, nova receita

A chamada "experiência" é subjetiva, mas veio para ficar, inclusive para os organizadores. Viver de venda de ingresso é uma realidade que ficou para trás. "Hoje é só uma parte da receita, o festival não precisa estar lotado para dar certo", diz Ribeiro. "Fazer festivais no Brasil é difícil. Você pensa nas bandas, que tipo de público pode atrair, que tipo de ação você pode fazer com marca. Talvez o melhor modelo seja o de hoje, porque antigamente os festivais sumiram, eram muito atrelados a uma marca só. O Lolla, por exemplo, tem 20 marcas que apoiam e patrocinam", aponta.

O efeito direto da mudança é na receita e orçamento. "O público tira uma selfie em um espaço patrocinado, o que gera renda e pode refletir na banda que está em cima do palco. Com mais dinheiro, você paga bandas mais caras e mais gente compra ingresso. Isso é uma evolução das coisas", diz Ribeiro.

O segundo efeito está atrelado à mudança de comportamento do público. Para Gustavo Sá, produtor do festival Porão do Rock, de Brasília, o imediatismo proporcionado pelas redes sociais e a velocidade de compartilhamento de informações fez com que a experiência estivesse na linha de frente, como um headliner. "Os empresários e empreendedores não estão errados em investir na experiência, mas acho que o público fica superficial, é muita informação. A molecada é bombardeada por uma série de coisas no espaço e não consegue acompanhar tudo, isso encurta o espaço para música no festival", afirma.

Por conta disso, nem todo o mundo que vai a festivais vai para curtir o som. "Acho que isso é sinal dos tempos, não tem juízo de valor. Festival é uma grande balada de várias horas no mesmo ambiente, isso foi muito visto no Coachella, na Califórnia, e você vê no Rock in Rio. Você vai num festival e passa dez horas fazendo poses, postando foto e até ouvindo algum tipo de música. Mas você não passa mais dez horas na frente do palco", diz Ribeiro. "Isso pode até sugerir que a música tenha ficado de lado, mas acho que ela só dividiu espaço com a experiência."

Foi lindo o Coachella gente

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Onde fica a música?

Essa cena brasileira foi aquecida em 2012, com a chegada do Lollapalooza, um ano depois da volta do Rock in Rio como evento bienal e a ascensão da classe C. "Pela primeira vez, um público teve acesso à cultura, entretenimento, como teatro e cinema, e começou a expandir a fatia desse mercado", explica Miranda.

A crise econômica nos anos seguintes, no entanto, não fez diminuir o público, mas levou os eventos internacionais a um efeito dominó. Com a alta do dólar, esses festivais com estruturação e logísticas caras e complexas não conseguiram se sustentar. Foi nesse momento que o Tomorrowland, voltado para o eletrônico, e o Sonar, dedicado à música de vanguarda e à arte multimídia, não conseguiram se manter de pé, mesmo com o público já cativo.

Arte/TAB
Imagem: Arte/TAB

O Rock in Rio brilha de forma diferente nesse panorama. A marca brasileira cruzou fronteiras, teve edições em Portugal e nos Estados Unidos, ao deixar bem claro que é um projeto de comunicação, experiência e (só depois) música.

"É o mundo melhor, é a sustentabilidade", explica Miranda, responsável pelo novo palco de música eletrônica no festival, o New Dance Order, citando os lemas do evento.

O êxito da marca criada por Roberto Medina, quando o Brasil era mato (e muita lama) em termos de festivais, está intrinsecamente ligada à forma como eles impulsionaram o espírito da "experiência".

Em entrevista ao UOL, às vésperas de estrear a edição em Las Vegas, nos Estados Unidos, em 2015, Roberta Medina, filha do criador, explicou sua matemática básica: 50% do público tende a se importar mais com a experiência no evento do que propriamente com a música. "Elas vão de qualquer jeito, porque sabem que vai ser uma coisa boa", explica Roberta.

Para assegurar o restante, é necessário um grande nome como headliner, mesmo que seja figurinha repetida - na edição brasileira, em setembro, Bon Jovi, Nickelback, Iron Maiden são algumas das atrações que voltarão ao festival.

Roberta estava certa. No levantamento, 35% disseram comprar ingresso na primeira oportunidade, muitas vezes, antes mesmo do line-up ser revelado.

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Imagem: Arte/TAB

E o que compete com a música? Um festival colorido das ativações de marcas. Nada disso é novo, mas a cada ano que passa as empresas parecem se multiplicar na batalha pela atenção do público. Nesta edição do Lollapalooza, era possível fazer consultas de tarô e ser interpelado por um paredão com espirradas coletivas de desodorante. Um banco patrocinou uma ação de dar água dentro de um squeeze - o lugar era chamado de "Water station".

Distrações que na verdade conseguem chamar tanta atenção do público quanto os próprios palcos. Tem quem prefira ficar na fila por mais de 1 hora por um brinde da Adidas, gastar uma boa grana nas lojas oficiais ou caprichar na selfie na frente de um painel luminoso de um dos patrocinadores.

Em 2016, o jornal "The New York Times" avisou seus leitores que não estaria mais em festivais grandes como Coachella e Boonaroo, por achar que a música já não ganhava a devida atenção. O jornal norte-americano disse preferir focar em eventos menores.

Os brasileiros parecem seguir a tendência. No levantamento, o público disse prefere festivais com até 10 mil pessoas.

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Imagem: Arte/TAB

Nem tudo é Lolla

A questão do acesso, do valor do ingresso e a busca por um certo conforto podem ser decisivos para essa preferência - e mais do que os peixes grandes no cenário, a cena brasileira nasceu e se fortaleceu justamente nos eventos de pequeno e médio porte.

O Coquetel Molotov surgiu no Recife (PE) quando festival era sinônimo de um line-up com bandas de rock e público majoritariamente masculino, com camisetas pretas de bandas. Hoje, o evento é um dos mais prósperos e influentes na cena independente, mas a fundadora Ana Garcia enxerga uma função que pode explicar o sucesso e a força do Rock in Rio e Lollapalooza.

"Esses festivais menores são cada vez mais importantes, até para a plateia e as bandas que estão tocando nos festivais maiores", diz. Foi no palco pernambucano que a banda goiania Boogarins fez seu primeiro show fora do estado natal. Hoje, a banda é uma das que mais frequentam os line-ups dos festivais internacionais. A própria escalação nacional dessa edição do Lolla - com bons nomes que vão da paulista Luiza Lian e a carioca Letrux - ganharam dimensão nos festivais menores.

Na época que levantou o primeiro palco, a conversa sobre a "experiência" ainda não rolava, mas já estava empiricamente no processo de curadoria. "É uma questão de sentimento, de usar as sensações da música. Tinha a cultura independente, de zines, camisetas e discos. Foi muito natural. E não demorou para a gente entender que as marcas estavam de olho isso", explica Garcia.

Dois anos depois da primeira edição, o Coquetel também já experimentava as ativações de marcas. Mas ela pondera: "Sem a música você não tem nada."

O mesmo acontece com o Porão do Rock, tradicional festival de Brasília, que está em sua 21ª edição. O som ainda é a principal prioridade para a equipe do Porão. "Não podemos desconsiderar a experiência, tem um peso muito grande, mas tem uma inversão de valores. Eu, enquanto público, vou para ouvir música boa, acredito que tem público com essa visão. Mas festivais independentes como o nosso também têm uma dificuldade orçamentária. Meu foco principal é criar boa estrutura para bons shows. Se eu tiver grana para isso e outras experiências, eu vou investir nisso, mas o foco não é esse", afirma Sá.

Para Sá, a cena de festivais no Brasil tende apenas a crescer, e, se não houvesse festival, a cena independente brasileira estaria morta, assim como o rock.

Com foco maior na curadoria, o Coquetel tem expandido sua força fora do Estado, em Belo Horizonte, Salvador e São Paulo, onde chegou no ano passado.

A ideia é crescer sem deixar de instigar o público. Na edição pernambucana, a aposta do festival foi mesclar artistas mais experimentais, como Maria Beraldo, com um ídolo da periferia de Recife, MC Troinha. Ela pensa em intensificar o crossover musical como parte da experiência.

"Tenho a sensação que as experiências ficam todas parecidas [nos festivais]. Esse é o desafio da galera. Eu sei que cada um tem suas peculiaridades, e as pessoas sabem, mas eu acho que ainda falta ter algo mais impactante", diz.

Para Ribeiro, curador do Popload, festival que nasceu em 2009 em São Paulo, o grande desafio é manter o equilíbrio entre as origens do festival e o modelo de negócio. Na edição deste ano, o Popload firmou uma parceria com a T4F para dar conta do grande público. "Somos impulsionados a crescer ano a ano, mas não tínhamos braços para fazer isso sozinhos, então foi uma oportunidade de negócio que pode nos levar a crescer", afirma. "Nós éramos dois indiezinhos, eu e minha sócia, fazendo show numa salinha sobre bandas que a gente falava no site. Mas é um investimento, você quer um retorno."

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