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No Sunday Service, Kanye West e a nova música pop andam de mãos dadas

Kanye West durante performance no último dia do Coachella 2019 - Rozette Rago/The New York Times
Kanye West durante performance no último dia do Coachella 2019 Imagem: Rozette Rago/The New York Times

Amanda Cavalcanti

Colaboração para o TAB, em São Paulo

23/04/2019 04h00

No último domingo (21), Páscoa, finais de Campeonatos Estaduais e emenda de feriado, Kanye West chamou toda a atenção do mundo do entretenimento para si durante uma apresentação única na história do festival Coachella, na Califórnia. Às nove da manhã do horário local, Kanye juntou centenas de artistas e espectadores numa espécie de missa de páscoa a céu aberto em que, além de apresentar clássicos do gospel negro norte-americano, também foram tocadas versões mais jazzy e cantadas de suas próprias músicas.

O espetáculo, intitulado Sunday Service, não foi estreado no festival. Se tratam de ensaios que Kanye vem realizando desde os primeiros meses do ano, e que são, ao mesmo tempo em que exaustivamente exibidos nos stories do Instagram e tweets de quem os frequenta (principalmente pela mulher de Kanye, Kim Kardashian), fundamentalmente misteriosos. Ninguém entendeu de cara qual o motivo para aqueles encontros artísticos semanais, que já foram encarados como celebrações dos 15 anos do primeiro álbum do artista, "The College Dropout", ensaios para uma turnê de seu duo com Kid Cudi, Kids See Ghosts, e sessões de gravação de um possível álbum novo (talvez "Yandhi", anunciado por Kanye em setembro). Esses ensaios culminaram na apresentação do Coachella, mas o mistério continua: o Sunday Service continuará acontecendo após ontem? As músicas novas apresentadas por Kanye farão parte de "Yandhi"?

Parece incomum que um artista do tamanho de Kanye West se afaste da concepção rápida de um outro disco e das declarações polêmicas de redes sociais que lhe renderam tanta atenção para concentrar-se em apresentações semanais fechadas e profundamente inspiradas por jazz, música gospel e até house, mas o feito se encaixa perfeitamente com o tamanho de sua ambição e trajetória até aqui.

Ao longo das duas décadas de carreira que o levaram de produtor de pequenos rappers de Chicago a um dos maiores artistas de sua geração, Kanye construiu e desconstruiu sua musicalidade e artisticidade em vários momentos, bem em frente aos olhos e ouvidos atentos de seus espectadores.

Sua figura como rapper de camisa polo cantando sobre estar na faculdade foi uma surpresa para o gangsta rap mainstream do começo dos anos 2000, tal como foram seus samples de soul e jazz em batidas boom bap. A partir daí, Kanye seguiu em permanente contato com o que acontecia na indústria e cultura em que começava a se inserir, mesmo que para rejeitá-la. Se os beats sintéticos de "Graduation" (2007) foram uma maneira de acompanhar os rappers da bling era, como Lil Wayne, T-Pain e 50 Cent, que explodiam hits após hits no meio dos anos 2000, "808s & Heartbreak" (2008) introduziu o sentimentalismo, instrumentais atmosféricos e letras cantadas - ao invés de rimadas - que invadiria o pop rap na mão de Drake, Kid Cudi e Big Sean em alguns anos. No lendário "My Beautiful Dark Twisted Fantasy" (2010), toda a sua megalomania moldou projetos ambiciosos que tomam o hip hop até hoje, e em "Yeezus" (2013) ele foi procurar referências no underground para popularizar batidas abrasivas e barulhentas.

Kanye West pouco cantou, mas liderou a performance em uma colina no Coachella - Rozette Rago/The New York Times
Kanye West pouco cantou, mas liderou a performance em uma colina no Coachella
Imagem: Rozette Rago/The New York Times

Hoje, entre fases ultrapopulares, outras quase inacessíveis e algumas diferentes polêmicas midiáticas (o apoio a Donald Trump no ano passado sendo, talvez, a mais escandalosa delas), Kanye West ainda faz questão de afirmar sua liberdade artística a todo momento.

Há muito ele se perdeu no caminho ambíguo entre influenciar e ser influenciado na música pop - e, por música pop, entendamos tudo o que não seja experimental ou de concerto -, mas a impressão que fica ao assistir sua apresentação no Sunday Service é que, neste momento de sua carreira, a evolução dos dois caminha lado a lado e divide algumas particularidades.

Durante a primeira hora da apresentação, que durou mais de duas, mal vemos o rosto de Kanye em meio às dezenas de músicos que o cercam e apresentam as canções do rapper - que chega a pegar o microfone apenas duas vezes, em "Jesus Walks" e "All Falls Down". É muito claro que aquilo é uma apresentação de Kanye West, mas para isso não é preciso que ele esteja à frente dos holofotes a todos os momentos - o que evidencia ainda mais o papel de artista-curador que ele construiu em álbuns como "The Life of Pablo", colocando outros produtores, rappers e performers em evidência enquanto ele puxa as cordas por trás; formato que foi repetido por artistas como DJ Khaled e Travis Scott, um pupilo de Kanye. O resultado é uma identidade artística impressa muito mais nas qualidades estéticas do que em seu rosto e nome.

Uma dessas qualidades, por exemplo, é a revisitação constante de Kanye à sua própria obra: se em 2016 ele lançou algumas versões de "Pablo", com diferenças na tracklist e na produção e composição das músicas nela, no Sunday Service ele retorna a novos e antigos clássicos de sua carreira para refazê-los dentro do tema gospel proposto pela apresentação; mudanças advindas de inventividade, inconstância e, talvez, pequena insatisfação perfeccionista.

Isso não é, claro, uma exclusividade de Kanye - ainda na semana anterior, afinal, Beyoncé lançou o super-documentário-compilação-álbum-ao-vivo "Homecoming", que tratava da sua própria apresentação icônica no Coachella em 2018, expondo o capricho e o processo minucioso por qual passou cada mínimo detalhe do show. Mas há uma particularidade do perfeccionismo de Kanye que é também inerente à sua personalidade artística: a espontaneidade.

Em dezembro do ano passado, o crítico Jon Caramanica afirmou em matéria do "The New York Times" que, se antes se encaixar na categoria "pop" era de alguma maneira sacrificar algo de si mesmo ou suavizar características de sua música, em 2018 a nova estrela pop (como Cardi B, por exemplo) se manteve fiel às suas qualidades artísticas e pessoais. Kanye nunca perdeu isso de vista, como demonstra no Sunday Service, chamando seus colaboradores próximos para participarem ou estarem por perto durante a apresentação - como Kid Cudi, Chance the Rapper, Ty Dolla $ign, Teyana Taylor e Mike Dean -, contando com um coral difuso que acompanha os cantos com danças descontraídas e criando, ao invés de uma experiência de show que delimita artista e público, um ambiente confortável e quase familiar - envolvendo, inclusive, sua própria família, com Kim e sua filha, North West, subindo ao palco em um momento da apresentação.

A mera existência de um show como o Sunday Service é uma representação da megalomania e inventividade sobre a qual foi construída a carreira de Kanye West - e na qual se fundou a música pop na década de 2010, com artistas de Lady Gaga a The Weeknd sempre buscando alguma narrativa conceitual por trás de seus trabalhos. Uma apresentação pela manhã, com dezenas de músicos posicionados livremente num campo aberto durante um dos maiores festivais dos Estados Unidos. A exibição por streaming, no canal oficial do Coachella no YouTube, foi feita através de uma lente preta com um buraco redondo ao meio que reforçou a experiência de imersão diferenciada que o show propunha.

Imagem da transmissão do show de Kanye West no Coachella - Reprodução
Imagem da transmissão do show de Kanye West no Coachella
Imagem: Reprodução

Em algum momento, os herdeiros e antepassados de Kanye West passaram a se misturar em sua maravilhosa concepção de tempo presente: se seu coral e motivos gospel remontam às apresentações do início da carreira de Al Green, os novos formatos estéticos que ele propõe no campo musical e performático podem ser ligados aos esforços de contemporâneos, como Kendrick Lamar e Big K.R.I.T.

O que veio antes, Kanye West ou a cultura pop? A essa altura, já é difícil dizer. Mas se uma conclusão pode ser tirada do Sunday Service no Coachella é a de que essa distinção importa cada vez menos.

Rozette Rago/The New York Times
Imagem: Rozette Rago/The New York Times

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