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Filme aponta futuro sombrio com evangélicos dominando o Brasil

Cena do filme pernambucano "Divino Amor" com a protagonista interpretada por Dira Paes - Divulgação
Cena do filme pernambucano "Divino Amor" com a protagonista interpretada por Dira Paes Imagem: Divulgação

Matheus Pichonelli

Colaboração para o TAB, em São Paulo

27/06/2019 04h01

Em 2009, a revista britânica The Economist anunciou, em uma reportagem de capa, que o Brasil, enfim, havia decolado.

No pico da crise financeira internacional, o país atravessava a turbulência registrando, ao fim de 2010, crescimento de 7,5% do PIB. O Nordeste puxava o desempenho econômico, e fechava a década com um aumento expressivo de seu Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDHM), segundo a ONU.

Acompanhando aquela expansão, hoje interrompida, a década foi marcada pela consagração, na cena audiovisual brasileira, de grandes cineastas da região, como os pernambucanos Cláudio Assis e Marcelo Gomes e o cearense Karim Aïnoz.

Filmes como "Amarelo Manga", "Cinema, Aspirinas e Urubus" e "O Céu de Suely", produzidos no início dos anos 2000, traziam para o centro da cena personagens até então marginalizados e periféricos, distantes do padrão de beleza convencional em um cenário agreste e suburbano, como lembra o crítico de cinema pernambucano Luiz Joaquim, do curso de Cinema e Audiovisual nas Faculdades Integradas Barros Melo (Aeso), em Olinda.

Sônia Braga em cena do filme pernambucano "Bacurau", que ganhou o prêmio do juri no festival de Cannes - Divulgação
Sônia Braga em cena do filme pernambucano "Bacurau", que ganhou o prêmio do juri no festival de Cannes
Imagem: Divulgação

"Antes da retomada, o cinema não se interessava por esses personagens. Aquela realidade passou a ser valiosa", diz.

Uma nova poética parecia atravessar uma região até então conhecida pela escassez, como registrava a literatura de nomes como Graciliano Ramos e Rachel de Queiroz no século 20.

O cinema captava a geografia desse novo país, impactado pelas chegada das motocicletas, dos smartphones e outros bens de consumo - sem, no entanto, ignorar as inconsistências de um país povoado por mães solo, homens em crise de masculinidade e personagens que ainda precisavam fugir para a Europa para viver uma história homoafetiva.

As fissuras daquele projeto de país ficaram ainda mais nítidas na produção de Kleber Mendonça Filho, diretor pernambucano que levou a Cannes seu protesto contra o impeachment de Dilma Rousseff em meio à apresentação de seu segundo longa, "Aquarius".

O filme "O Céu de Suely", do diretor Karim Ainouz, foi uma das produções do boom do cinema nordestino - Divulgação
O filme "O Céu de Suely", do diretor Karim Ainouz, foi uma das produções do boom do cinema nordestino
Imagem: Divulgação

O filme, segundo Luiz Joaquim, era um retrato fiel do contexto recifense que dava vazão a um sentimento de abandono das classes que estavam à margem (e no caminho) dos grandes empreendimentos. No filme, a personagem de Sônia Braga luta contra uma grande construtora que quer derrubar um prédio histórico onde mora e mantém suas memórias e relações afetivas.

Da euforia à distopia

Este cinema chega ao final dos anos 2010 em um evidente conflito entre o reconhecimento internacional e o futuro incerto no terreno doméstico, marcado por cortes de patrocínio, ataques às leis de incentivo e o desprezo das classes políticas agora dominantes.

Aos poucos, a era Bolsonaro começa a entrar em cena, e a mudança de sinal é visível em trabalhos como "Divino Amor", de Gabriel Mascaro, que estreia hoje.

Se, em seu filme anterior, o aclamado "Boi Neon" (2015), o diretor pernambucano investigou as vaquejadas pelo interior do país para quebrar estereótipos associados àquele universo (num cenário de aparente brutalidade, o personagem de Juliano Cazarré faz as vezes de estilista de moda, enquanto as mulheres dirigem, gerenciam e cuidam da segurança dos empreendimentos), em "Divino Amor" ele projeta uma distopia futurista baseada em 2027, no qual Estado e religião se fundem em um mesmo projeto e se apropriam das tecnologias para vigiar, punir e delatar quem não se enquadra em um conceito de família tradicional.

Sem se dar conta, o Brasil daquele futuro está mergulhado em um fundamentalismo político religioso, e em cada cena é possível detectar a imposição silenciosa do slogan "Brasil acima de tudo, Deus acima de todos" - embora o diretor tenha dado início ao roteiro quatro anos antes da última eleição.

Cena do filme "Boi Neon", a primeira produção do diretor Gabriel Mascaro  - Divulgação
Cena do filme "Boi Neon", a primeira produção do diretor Gabriel Mascaro
Imagem: Divulgação

"Desde 2013 percebia uma mudança forte de conjuntura. A esquerda não se apropriou do diagnóstico que estava posto ali, e outros movimentos se apropriaram desse descontentamento que é real", diz o cineasta, que nos últimos anos começou a notar como a expansão das igrejas que mudavam a geografia do bairro onde foi criado em Recife. "Algo muito forte vinha ali, e os intelectuais não estavam atentando pra isso. Havia um desdém, como se aqueles rituais religiosos fossem pouco criativos."

De lá para cá, nas palavras da atriz Dira Paes, poucos perceberam o avanço da lama de Brumadinho (aqui, uma alegoria de um país que aboliu suas metáforas). No filme, ela interpreta uma funcionária de cartório cujos sonhos se limitam à maternidade e à manutenção do casamento. Dela e de todos que tenta converter para sua igreja.

Nessa distopia, a fé deixa de ser um valor individual e se torna um afeto político central, no qual a ação política é paulatinamente substituída pela espera da vida de um salvador (da pátria?).

Um cinema mais amargo do que doce

Mendonça Filho também flerta com o absurdo futurista em seu próximo longa "Bacurau", que levou no Festival de Cannes o Prêmio do Júri."Ele chama a atenção para o que já é absurdo hoje, e cria um contexto distópico social, exagerado, para que as pessoas façam a analogia do que estão vivendo hoje", diz Luiz Joaquim.

O pessimismo marca também a volta de Marcelo Gomes ao interior do Nordeste, cenário onde fez, em 2006, um retrato poético das relações humanas com "Cinema, Aspirinas e Urubus". Em "Estou me Guardando para Quando o Carnaval Chegar", que estreia em julho, ele investiga a realidade dos trabalhadores de uma cidade do agreste pernambucano que trabalham sem folga o ano inteiro, exceto no Carnaval.

O retrato amargo do futuro, com base em elementos do presente, mostra que algo mudou naquela cena audiovisual. "Talvez a melancolia tenha mudado de natureza e de matéria-prima. A projeção de felicidade, individual ou coletiva em filmes como 'O Céu de Suely' e 'Viajo Porque Preciso, Volto Porque te Amo', passava pelo reconhecimento das insuficiências históricas, mas, de forma geral, o presente parecia ter condições de acolher os processos de mudança", afirma o programador e pesquisador Luís Fernando Moura, coordenador do Festival Janela Internacional de Cinema do Recife.

Cabaceiras (PB) foi cenário de 22 filmes, entre eles "O Auto da Compadecida " e " Cinemas, Aspirinas e Urubus" - Lalo de Almeida/Folhapress
Cabaceiras (PB) foi cenário de 22 filmes, entre eles "O Auto da Compadecida " e " Cinemas, Aspirinas e Urubus"
Imagem: Lalo de Almeida/Folhapress

Segundo ele, o progresso, mesmo nos filmes mais pessimistas das duas últimas décadas, era um dado socioeconômico e um horizonte histórico. "O futuro era mais doce que amargo, mesmo quando agridoce. A partir da virada do século, mais filmes passaram a ser feitos e mais realizadores, muitos jovens, a fazer filmes por diversas regiões do país. O Brasil percebia poder se abrir e se redescobrir, para fora e para dentro. Com a depressão política que atravessamos nos últimos anos, o presente parece ter perdido um pouco da vocação para acolher movimentos históricos. Ressurgem, com mais força, os futurismos, os desencantos, as batalhas imponderáveis e a sensibilidade distópica de maneira geral", diz.

Para ele, a produção de cinema, de maneira geral, iluminou, nesses últimos anos, as buscas por liberdade por muitos prismas. Mais que isso, "como é próprio das artes, desejou as liberdades - e as maneiras de autonomia - e não só as representou, mas também as construiu". "A emergência, nos últimos anos, de realizadores e realizadoras periféricos, não brancos, não hetero, eventualmente não cisgêneros, muitas e cada vez mais mulheres, foi levando mais e mais adiante a constituição de plataformas e olhares que vêm construíram novas coletividades, novos cânones. Diante de uma profusão de dissidências, me parece previsível que as forças reacionárias encontrem nessas imagens seus inimigos."

Como será o amanhã?

Francisco Cesar Filho, cineasta e curador da Associação do Audiovisual, responsável pelo Festival de Cinema Latino-Americano, também diz observar os amargores na temática do cinema brasileiro atual por conta dos vários problemas do país. "Talvez nos próximos filmes, as produções que estão sendo feitas neste momento não tragam perspectivas de futuro tão interessantes para os personagens", arrisca.

Ele lembra, porém, que o boom da produção audiovisual brasileira ocorreu nos últimos anos graças aos novos suportes digitais, que deram um salto no número de produções no país. Atualmente, mais de 100 produções chegam às telas todos os anos. "Com essa quantidade, vem a qualidade, e o pensamento de imagem no Brasil ficou muito rico."

Isso não deve mudar nos próximos anos, segundo Cesar Filho. Ele compara a realidade atual com a trajetória do hoje premiado Karim Aïnouz, que décadas atrás precisou deixar o Ceará para fazer cinema em parceria com produtores estrangeiros, em uma época em que não era possível fazer filmes na região.

Até pouco tempo, diz, "era um perrengue conseguir equipamentos de filmagem, que se concentravam basicamente em São Paulo e Rio". "Hoje tem escolas e cursos de cinema a rodo Brasil afora. As câmeras digitais tornaram possível o surgimento de uma turma de jovens que não para de crescer. Toda semana tem criadores aparecendo. Antes você tinha meia dúzia de cineastas; hoje tem gente criando em cada esquina."

Cena do filme "Estou Me Guardando para Quando o Carnaval Chegar", que estreia em julho - Divulgação
Cena do filme "Estou Me Guardando para Quando o Carnaval Chegar", que estreia em julho
Imagem: Divulgação

O especialista lembra ainda que, diferentemente dos principais cineastas mexicanos, que só ganharam projeção quando passaram a produzir para fora, a regra entre os cineastas brasileiros, a exemplo dos argentinos, é criar e discutir questões em seus próprios países.

Ele diz observar com curiosidade como plataformas de streaming, como a Netflix, vai absorver essa produção nos próximos anos. "São novas possibilidades de circulação", resume.

Luís Fernando Moura avalia que um dos ganhos recentes do mercado brasileiro foi o aumento das coproduções internacionais e da entrada de produtores brasileiros, como Rodrigo Teixeira, no mercado internacional.

"Podemos esperar que essa maturação da indústria prolifere e que coproduções continuem aparecendo. Entre tantas preocupações está a de que novas vozes, ou vozes ainda pouco visíveis, sejam silenciadas pela dificuldade iminente de se produzir filmes no país."

Para Luiz Joaquim, os caminhos abertos nas duas últimas décadas tornaram promissores trabalhos como os da jovem cineasta baiana Letícia Simões, cuja cinegrafia, segundo ele, transborda feminilidade ao trabalhar questões que os homens não acessam. "Essa ramificação só expande, não encolhe. É um caminho sem volta."

Errata: o texto foi atualizado
Originalmente, o texto informava que o filme "Divino Amor" entraria em cartaz amanhã. A data correta da estreia é hoje.

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