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Saiba como escapar de uma vida guiada pelos algoritmos das redes sociais

Instalação chamada "Spectre", feita pelos artistas britânicos Bill Posters e Daniel Howe para criticar as redes sociais  - Reprodução
Instalação chamada "Spectre", feita pelos artistas britânicos Bill Posters e Daniel Howe para criticar as redes sociais Imagem: Reprodução

Olívia Fraga

Colaboração para o TAB, em São Paulo

07/08/2019 04h01

Como é que se perdia tempo antes da internet? Os menos jovens ainda se lembram de uma era em que se distrair significava passar horas vendo TV ou jogando videogame ou olhar vitrines. Nenhum desses passatempos carrega a agonia contemporânea da vida digital, que dispersa a atenção e causa estresse. Não faz muito tempo, os prazeres da flanar pela vida eram menos neuróticos. Atolados em curtidas (curta, compartilhe, desça a barra, clique no sininho, abra outra aba, não para), fechamos o dia com uma incômoda sensação de vazio.

Ao menos para a americana Jenny Odell, o antídoto a esse estado de catatonia digital não é apagar todos os perfis nas redes sociais e se jogar na vida offline. Professora da universidade de Stanford, na Califórnia (EUA), ela tenta resolver o problema observando pássaros e usando as redes sociais de forma guiada e controlada, a seu serviço. Nada de baixar mais aplicativos para "administrar melhor o próprio tempo" -- segundo ela, mais uma forma de os tecnocratas do Vale do Silício controlarem nossas vidas e nossa produtividade. Odell sugere domesticar as redes, regular seu uso e fazer delas um instrumento de conexão com a comunidade e o entorno.

O que é FOMO?

A dependência tecnológica e o isolamento social são problemas de saúde pública, faz adoecer, mas é "extremamente lucrativa para as empresas de tecnologia", defende ela, em entrevista por e-mail. No livro recém-publicado "How to do nothing: resisting the attention economy" (Como não fazer nada: resistindo à economia da atenção, em tradução livre), a autora reflete sobre a obsessão de "checar" o que os outros estão fazendo, um perigo tanto para quem trabalha quanto para quem quer simplesmente viver uma vida menos teleguiada.

"A mediação digital permeia nossas vidas físicas cada vez mais. Meu interesse não é tanto no clichê 'todo mundo está olhando para seus telefones o tempo todo'. Tento entender como o digital e o físico interagem atualmente, de modo que quase não podem mais ser separados", conta.

Vivências "analógicas", por exemplo, já estão contaminadas pelo digital. "Alguém que sai de férias pode ser fortemente influenciado pelas coisas que viu no Instagram, e já faz as malas pensando em tirar a mesma foto que viu no perfil de alguém, em viver a mesma experiência. Uma cidade pode 'mudar' para atrair turistas e criar mais 'momentos instagramáveis' para o público. Nessa reverberação interminável, é difícil distinguir o que parece 'real'. É por isso que sugiro a consciência ecológica e o biorregionalismo como antídotos para a sensação de desconexão; eles nos dão algo para prestar atenção ao que existe fora do mundo das simulações e dos produtos", explica a autora.

O FOMO ("fear of missing out"; em tradução livre, medo de perder algo), essa ansiedade generalizada de se estar conectado e o temor de deixar algo passar, também é tema de outro livro publicado em 2019, "The joy of missing out" (a alegria de se perder algo, em tradução livre), do psicólogo dinamarquês Svend Brinkmann. O diagnóstico é parecido com o de Jenny Odell: nossa cultura depende de sempre querermos mais, a economia é movida a consumo de produtos e experiências e de um estado de insatisfação constante, que nos faz buscar o que não temos. Os dois autores também concordam na resolução do conflito: querer menos nos fará bem.

A economia da atenção

Absorver conhecimento requer tempo, paciência e, muitas vezes, uma espécie de recolhimento temporário da fonte de informação em si -- um distanciamento para se pensar no que foi aprendido. Nada disso acontece enquanto checamos as notificações no celular de meia em meia hora. O aparelho é um totem moderno: perdê-lo ou danificá-lo é motivo de autoflagelo.

Para Odell, "há diferença entre estar, por exemplo, observando pássaros e distrair-se com as redes sociais. É importante lembrar que as empresas têm equipes trabalhando duro para tornar as redes viciantes, e para manter usuários em permanente estado de distração lucrativa. No reino das manchetes 24/7 e das notificações de curtidas e novidades nas mídias sociais, acho que temos de nos preocupar mais com a ideia de distração -- e nos perguntar de que estamos distraindo. Como diz James Williams, a economia da atenção tem a capacidade perturbadora de nos impedir de 'querer o que queremos'." Distrair-se é também um desvio, uma traição às nossas vontades.

Visitante passeia por instalação chamada "Museum of Me" que reproduz imagens da pessoa em redes sociais - Dário Oliveira/Folhapress
Visitante passeia por instalação chamada "Museum of Me" que reproduz imagens da pessoa em redes sociais
Imagem: Dário Oliveira/Folhapress

O conceito de economia da atenção, mencionado várias vezes na obra de Odell, vem do campo do design. A especialista em cibercultura Gabriela Zago, que estuda a cultura do compartilhamento, explica melhor: "A economia da atenção está relacionada à ideia de que a atenção é um recurso escasso, e que, portanto, está sujeita a regras da economia [capitalista], devido à limitação desse recurso". Para ela, somos talvez tão dispersos quanto antes, "mas num ambiente com ainda mais abundância de informações. Atenção segue sendo um recurso limitado, pois há um limite no quanto podemos prestar atenção e acompanhar o que está ao nosso redor".

"Qualquer coisa em excesso é ruim; vale tanto para a distração quando para o foco. Se alguém se tornar muito focado, por exemplo, aproveitando ao máximo seu tempo e avançando na carreira, corre o risco de se isolar da surpresa, dos encontros inesperados e de outras perspectivas. Ao mesmo tempo, estar distraído o tempo todo, sem se aprofundar em ideias ou atividades, causa uma sensação de paralisia. Para mim, a mistura ideal é alternar entre um estado de abertura para o mundo e de foco, da mesma forma que um jardim tem uma mistura de elementos planejados e crescimento selvagem", reflete Odell.

A dança da solidão

A obsessão com curtidas, notícias e mensagens tem mobilizado médicos e psiquiatras. Em maio de 2019, a Organização Mundial da Saúde incluiu o vício em jogos eletrônicos em sua classificação internacional de doenças. A dependência tecnológica está indo pelo mesmo caminho.

"A diferença de drogas e álcool para os vícios comportamentais é que nas duas primeiras você ingere algo para obter algum prazer ou satisfação; na dependência digital, é o comportamento repetitivo que produz dopamina", afirma Dora Sampaio Goés, psicóloga do Instituto de psiquiatria do Hospital das Clínicas, em São Paulo, e uma das criadoras do Grupo de Dependência Tecnológica junto com Cristiano Nabuco.

Para identificar um viciado em redes sociais, os critérios são semelhantes aos de um dependente químico: a atividade domina quase toda a vida e os pensamentos da pessoa, é capaz de alterar seu humor e isolá-la do convívio ou das atividades que antes davam satisfação. A dependência é progressiva (é preciso usar por períodos cada vez maiores) e há desconforto e irritação quando se está longe dela. "O dependente tecnológico não consegue 'brecar'", afirma Góes. Uma peculiaridade do vício tecnológico é que, ao contrário do alcoólatra ou do viciado em jogos de azar, conta-se com algum tipo de validação social.

"O adolescente é super vulnerável, porque está em busca de sua própria identidade. Atendemos pacientes jovens e até gente com mais de 70 anos. São pessoas que têm poucos ou nenhum amigo, não mantêm contato social real, só através das redes sociais, o que é inadequado", analisa a psicóloga. "Pessoas com pouca habilidade social usam as redes como suporte. Mas a ironia é que a rede social rouba a possibilidade de a pessoa desenvolver habilidades sociais reais. Ela não enfrenta a situação desconfortável para vencer aquela questão e acaba sentindo que é bem-sucedida nas redes sociais."

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Imagem: Folhapress

Jenny Odell analisa de forma parecida. "Nós humanos somos seres sociais e queremos nos sentir conectados aos outros e reconhecidos como indivíduos; a rede social parece oferecer isso, mas, ao invés de conforto, ela exacerba essas sensações, alimentando nossa ansiedade e solidão e nos trazendo de volta para pedir mais", afirma. Outro aspecto que nos leva em direção às redes sociais é a curiosidade, querer saber o que anda acontecendo. De novo, as redes prometem informação mas, em vez disso, nos oferecem respostas fáceis e descontextualizadas.

"Penso que muitas pessoas que seguem contas do YouTube que falam de teorias da conspiração de direita foram levadas para lá em primeiro lugar por curiosidade e uma mentalidade questionadora -- o que em si não é algo ruim. Mas essa oferta é facilmente pervertida e monetizada pelo ambiente sem contexto das mídias sociais. O que mais me preocupa nesse tipo de engajamento, embora prejudicial à sociedade, é que ele só é lucrativo do ponto de vista de uma empresa de mídia social. Só ela ganha."

Dora Sampaio Góes conta que o tratamento dos dependentes tecnológicos segue a lógica da redução de danos. "Não queremos eliminar nada, não se tira a internet da vida da pessoa. A ideia é regular o uso para que a pessoa volte à atividade principal da vida dela, a outras atividades. É complicado, porque a internet faz a gente ficar abduzida, a interatividade é muito sedutora."

Gabriela Zago entende que é benéfico evitar ambientes com muita informação (ou desinformação. Nas redes sociais, é importante evitar ler tudo que aparece. Como Jenny Odell, aceitar que há um limite na nossa cognição, que há um limite em processar dados, ajuda a viver plenamente o mundo exterior. O jeito é ganhar a guerra, uma aba por vez.

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Errata: o texto foi atualizado
Diferentemente do informado inicialmente, Dora Sampaio Góes é uma das criadoras do Grupo de Dependência Tecnológica junto com Cristiano Nabuco, não do Ambulatório do Controle dos Impulsos. O erro foi corrigido.

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