Topo

Arte & Design


Reduto branco, country migra para a cultura negra após hit "Old Town Road"

Getty Images
Imagem: Getty Images

Tiago Dias

Do TAB, em São Paulo

08/08/2019 04h00

A essa altura é difícil você não ter ouvido a melodia de "Old Town Road" por aí. E não importa de que país você seja. A música que surpreendeu a indústria musical e bateu o recorde das paradas dos EUA, onde reside há 18 semanas no topo, ganhou até uma versão funk, "Sentou e Gostou", mas é bem mais do que a música favorita da internet em 2019. O hit do americano Lil Nas X nasceu de forma despretensiosa, pegou carona no poder viralizador do TikTok e parece falar muito sobre como consumimos (e são emplacadas) as tendências hoje.

Com elementos do country e batidas do trap, "Old Town Road" é o grande exemplo da filosofia "do it yourself" (ou faça você mesmo), receita seguida à risca pelo funkeiros no Brasil, que emplacam sucessos à revelia de gravadoras e rádios. É um sinal de como Lil Nas X, com apenas 20 anos, entendeu a cultura pop do seu tempo.

Antes de ser Lil Nas X, Montero Lamar Hill era apenas um tuiteiro que ficava horas criando conteúdo viral na rede social. Isso até outubro passado, quando gastou US$ 30 em um beat feito por um holandês de 19 anos. Com o cenário do game "Red Dead Redemption 2" na cabeça, ele criou um personagem errante e urbano, mas que veste chapéu de cowboy da Gucci e jeans Wrangler.

A mistura pouco comum fez a música viralizar no TikTok, aquele aplicativo chinês em que crianças e adolescentes criam e compartilham vídeos musicais. "Old Town Road" caiu como uma luva para ilustrar o "desafio yeehaw", em que os usuários registravam, usando as ferramentas de corte rápido do aplicativo, sua transformação total para o estilo coubói.

Esse combo deu visibilidade para a "agenda yeehaw", um movimento mais sério, que nasceu de forma orgânica entre artistas e influenciadores para celebrar a cultura do cowboy negro - imagem historicamente ligada aos homens brancos.

Assim como o hit-fenômeno de Lil Nas X, essa agenda surgiu como uma verdadeira manifestação cultural da internet, sem ajuda de guias de tendência, apenas captando sinais na arte e na moda de que o estilo boiadeiro podia ir muito além das imagens padronizadas (e brancas). Na mesma época, o álbum-visual de Solange, "When I Get Home", trouxe as mesmas referências brejeiras para homenagear sua cidade-natal de Houston, berço de sua família, que deu origem também a Beyoncé, mas também um lugar de referência da música country. Isso sem contar os rappers Cardi B e Freddie Gibs, que têm usufruído da estética em fotos de divulgação e clipes.

A influenciadora Bri Malandro considera a capa da revista King Kong, com a cantora Ciara ostentando um chapéu típico, no ano passado, como o ponto inicial desse movimento. Desde então, Malandro tem coletado imagens para ilustrar essa história em curso na conta do Instagram @TheYeeHawAgenda.

Para o curador e escritor Antwaun Sargent, o movimento dá visibilidade ao que ele chama de "peças díspares". Para ele, o caubói negro é uma figura que antecede os arquétipos dos filmes de faroeste, à la John Wayne. "Por causa do apagamento deliberado na cultura popular, as imagens de caubóis que vimos eram essas dos filmes nos quais todos os vaqueiros eram brancos", disse à revista "GQ".

Se foram os adolescentes brancos no aplicativo chinês quem deram o pontapé nesse fenômeno, agora é a agenda yeehaw que parece transformar a música em hino. Embora Lil Nas X negue influência do movimento em sua música, Sargent acredita que o sucesso é resultado das referências negras nascidas na "agenda yeehaw".

Nós também somos country

Fato é que o hit de Lil Nas X questionou os limites de uma manifestação cultural historicamente branca e escancarou a maneira como artistas negros e brancos são encaixados em gêneros específicos.

Para facilitar sua ascensão nas paradas, o rapper divulgou sua música no Tunes e no Soundcloud como "country", o que fez "Old Town Road" tomar de assalto a popular lista dos mais ouvidos do gênero. A Billboard entendeu que se tratava de um intruso e excluiu a música da lista "Hot Country" por conta das batidas de rap. A resposta de Lil Nas X foi chamar Billy Ray Cyrus, um dos nomes mais populares do country norte-americano, para dividir os vocais em uma nova versão. Foi o tiro certeiro.

Sua permanência no topo seguiu outras lições que ele parece ter entendido empiricamente, talvez por fazer parte da primeira geração nativa digital. Lil Nas X aproveitou a exposição inédita de "Old Town Road" para lançar seu primeiro EP e compartilhar mais remixes da mesma música, com artistas como Diplo, Young Thug, Mason Ramsey e RM (do grupo de k-pop BTS). E, consciente de que seu poder influenciador nas redes sociais, anunciou sua homossexualidade no mês do orgulho gay, subvertendo mais uma vez a cultura machista do country.

É como se o maior sucesso da história recente da música fosse um verdadeiro monstro híbrido, o que diz muito a um crescente grupo de jovens fãs de música que raramente se preocupam com o gênero, muito menos rótulos. Parece algo fugaz, mas a música segue rumo a sua 19ª semana em 1° lugar, um tempo considerável para mudar algumas regras do jogo.

Fique por dentro de comportamento e cultura seguindo o TAB no Instagram e tenha conteúdos extras sobre inovação, tecnologia e estilo de vida.

Arte & Design