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Futuro exibido em "Years and Years" é agora: transumanos já estão entre nós

Personagem Bethany se identifica mais com máquinas do que com humanos - Divulgação
Personagem Bethany se identifica mais com máquinas do que com humanos Imagem: Divulgação

Luiza Sahd

Colaboração para o TAB, em São Paulo

27/08/2019 04h01

Em 2011, o mundo assistiu fascinado à estreia de "Black Mirror"— série da Netflix que abria possibilidades assustadoras sobre o futuro de uma sociedade como a nossa: tão ligada a tecnologia e tão pouco conectada aos afetos. Em 2019, "Years and Years", exibida por aqui pela HBO, veio mostrar que o futuro chegou e que os conflitos propostos por Black Mirror não eram piores do que os que temos agora; eles só eram diferentes.

Para montar o que a New Yorker definiu como "uma série de realismo distópico", o roteirista e produtor de TV galês Russell T. Davies prestou mesmo atenção ao espírito do nosso tempo.

O primeiro dos seis episódios da série retrata uma hipotética reeleição de Donald Trump e termina com o líder norte-americano lançando uma bomba nuclear na China. A pergunta que se coloca, e dá a tônica de todos os capítulos seguintes, é: "E agora?".

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Imagem: Reprodução
Dentre os tantos personagens polêmicos da série, a adolescente Bethany, vivida Lydia West, é uma das mais mencionadas nas redes sociais. Trata-se de uma garota deprimida que não se identifica como humana, mas como transumana.

Na trama, Bethany junta cada centavo do que ganha para fazer a cirurgia de transição a ciborgue e usa filtros como os do Snapchat para se comunicar em realidade aumentada com as pessoas que estão diante dela.

Bethany despertou paixões na internet por conta de sua identificação com as máquinas e pela fixação pela imortalidade. A ideia de transumanismo não é exatamente nova, mas (ainda) é pouco retratada na ficção. Para refletir sobre o assunto, a pesquisadora e futuróloga Lidia Zuin conta um pouco sobre sua própria história ao TAB.

Aos 26 anos de idade, Lidia implantou um biochip na mão durante um evento de futurismo no Rio de Janeiro. "Mais do que experimentar a tecnologia, coloquei e mantenho o biochip para entender a reação das pessoas à minha escolha. É uma experiência antropológica mesmo", explica.

A reação das pessoas ao saber que ela implantou um aparato tecnológico no próprio corpo, por pura curiosidade, varia tanto quanto as reações dos personagens da série ao transumanismo de Bethany. "Escuto de tudo, desde argumentos religiosos contra esse tipo de escolha até manifestações de medo, mas também tem gente que fica superentusiasmada ao saber que uso biochip".

Lidia conta que, assim como Bethany, não precisaria do implante para experimentar os recursos tecnológicos que o biochip oferece porque já existem acessórios que fazem as mesmas coisas do lado de fora da pele: pulseiras, anéis e os próprios smartphones com tecnologia NFC (Near Field Communication) — que transformam aparelhos simples em verdadeiros centros multimídia, permitindo a interação com outros equipamentos sem usar cabos. Qualquer semelhança com o funcionamento do software "Signore" de "Years and Years" não terá sido mera coincidência.

Sobre a possibilidade de que, no futuro, existam muitas pessoas identificadas como transumanas, os autores e pensadores que falam do assunto têm opiniões bem divergentes entre si — mas as discussões são sempre ricas e interessantes.

Em uma conversa com o inventor e futurista norte-americano Ray Kurzweil, a empresária e advogada Martine Rothblatt defende o upload da mente — que consiste em um processo mais ou menos semelhante àquele vivido pela personagem Edith (Jessica Hynes) no último episódio da série. Para Rothblatt, na vida real não seria recomendável fazer o upload do cérebro de alguém como se estivéssemos jogando um arquivo na nuvem. A empresária pensa na "morte da morte", como ela mesma define, como um processo gradual, em que a transformação do corpo humano para o tecnológico aconteceria ao longo de toda a vida.


A ideia de upload da mente começou a ser discutida no final dos anos 1980, com a publicação do livro "Homens e Robots: O futuro da inteligência humana e robótica", do futurista austríaco Hans Moravec. Na obra, o autor propôs a emulação do humano em máquinas através de recursos de inteligência artificial. Ao longo do tempo, a premissa de Moravec começou a ser questionada porque a ciência ainda não definiu com exatidão o que é, afinal, a consciência humana. Das críticas mais contundentes à teoria de Moravec, destaca-se o argumento que uma máquina copiando o comportamento de alguém continuaria sendo apenas uma máquina — não a pessoa "copiada".

Vida eterna é vida?

Um dos principais apelos da ideia de transumanismo é a possibilidade de que a gente derrote, finalmente, a morte. "Talvez o nosso cérebro possa mesmo ser emulado por uma máquina no futuro. O problema seria definir, antes, o que é o ser humano: o 'eu' mora no cérebro ou mora no corpo?", provoca Lidia.

A pesquisadora explica que alguns neurocientistas afirmam que nosso "eu" não está necessariamente no cérebro; para eles, precisamos do corpo inteiro para que possamos nos definir e nos reconhecer como indivíduos. "As minhas vivências e a minha percepção corporal são extremamente importantes para definir quem eu sou. Não sei se seria o caso de substituir o corpo inteiro e ficar só com o meu cérebro", completa.

Para resumir o dilema sobre a complexidade da consciência humana como pedra no sapato dos entusiastas do transumanismo, Lidia lembra que precisaríamos resolver o "pequeno" problema da definição de consciência, questão que também é amplamente debatida pelo professor e escritor Yuval Harari em seu livro Homo Deus - Uma Breve História do Amanhã.

Modificações corporais e identidade

Enquanto os pesquisadores discutem onde nasce a consciência humana, alguns grupos tendem a modificar seus corpos por questões identitárias. "Tomando como exemplo as subculturas como a dos biohackers, também existe uma intersecção com a modificação corporal", explica a pesquisadora.

Os experimentos dos biohackers com o próprio corpo vão desde a implantação de ímãs nas pontas dos dedos para atrair metais até o implante de leds nas mãos. As modificações corporais desse tipo não têm "funções" para além da manifestação de identidade. "Tudo isso ainda é muito impopular, mas precisamos lembrar que desde os primórdios da humanidade existiram tribos fazendo modificações corporais por questões religiosas, simbólicas ou artísticas. Com o passar do tempo, é natural que a gente comece a usar a tecnologia para modificar o próprio corpo — seja para ampliar habilidades ou como manifestações identitárias", diz Lidia.

Os humanos que se identificam como ciborgues já estão entre nós. O que difere esse pessoal do seu avô que usa marca-passo é apenas a relação do sujeito com a tecnologia, já que, por definição, alguém que use aparatos como próteses e outras tecnologias implantadas no corpo poderia ser considerado ciborgue. Na prática, apenas quem vê os implantes como parte da própria expressão de identidade gosta de ser chamado assim.

O futuro dos futuristas

Por enquanto, a ideia de transumanismo não é vista como algo aspiracional para muitas pessoas, mas pode ser que daqui um tempo ela se torne corriqueira — ou até vantajosa. A evolução de próteses e implantes pode levar pessoas a optarem por remover órgãos biológicos para amplificar suas capacidades físicas com próteses, hoje usadas apenas por quem nasceu sem algum membro do corpo ou que perdeu partes dele. "Todas as tendências comportamentais começam nas bordas, em nichos ou em pequenas expressões identitárias antes de serem popularizadas. É difícil cravar como será o futuro da nossa relação com corpo e morte, mas, historicamente, é assim que as coisas acontecem", argumenta Lidia.

A obsessão de Bethany com os filtros no rosto em "Years and Years" também reflete (de forma caricatural, é verdade) como a tecnologia pode afetar o nosso entendimento sobre beleza. Plataformas como a Dazed Beauty têm levantado discussões interessantes sobre a estética "alienígena" explorada por alguns influenciadores de Instagram como novas possibilidades para o ideal de beleza.

Nesse sentido, usar o termo "desumanização" é complicado. "Cada época e sociedade têm visões diferentes do que é humano ou não. Para alguém racista, uma pessoa negra é menos humana do que uma branca; para um homofóbico, um sujeito LGBTQ também é menos humano do que pessoas heteronormativas e por aí vai. É um exemplo extremo, mas também é extremo você pensar que o chip na minha mão me desumaniza. O que é ser humano afinal de contas? Porque continuo sendo homo sapiens, e mesmo que eu substituísse meu corpo inteiro por máquinas e só sobrasse o meu cérebro, minha consciência ainda seria de homo sapiens, em uma casca de robô. A tecnologia, nesse caso, só carrega os comportamentos que já tínhamos antes, traduzidos nessa tecnologia", argumenta a especialista.

E o isolamento?

Nossa relação cada vez mais estreita com a tecnologia é normalmente associada ao isolamento social de pessoas como os Hikikomoris — jovens japoneses que não saem de seus quartos e não querem interagir com pessoas fora da internet. Para além da questão cultural japonesa (que é muito diferente da nossa), Lidia argumenta que o isolamento não deveria ser tratado como indício de desumanização, lembrando que sempre existiu gente que prefere o isolamento completo à convivência com pessoas. "Quando a gente escuta que os jovens vivem com a cara enfiada em telas e, por isso, estão se isolando, precisamos contemporizar um pouco. Estar com a cabeça longe de onde está o nosso corpo também é algo muito próprio do ser humano desde sempre", diz.

Ao que tudo indica, a gente faz com a tecnologia o mesmo, ou coisas muito semelhantes, ao que faríamos sem ela.

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