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Lógica Airbnb: como 'viajar como um local' muda até a paisagem das cidades

Protesto contra o Airbnb em Barcelona, na Espanha, que tenta controlar a expansão do serviço (jan.2017) - Lluis Gene/AFP Photo
Protesto contra o Airbnb em Barcelona, na Espanha, que tenta controlar a expansão do serviço (jan.2017) Imagem: Lluis Gene/AFP Photo

Adriana Terra

Colaboração com o TAB

12/09/2019 04h00

Quando o site de locação de imóveis de curta temporada Airbnb passou a operar em Cuba, em 2015, o fato foi noticiado como uma das ações simbólicas do restabelecimento das relações entre os EUA e a ilha socialista caribenha, uma abertura ao capitalismo. Mas a ideia de compartilhar lares e estilos de vida, mote do serviço de hospedagem nascido no berço do empreendedorismo digital, não era estranha por ali.

"Tem um meme que fala: 'capitalismo nos anos 1980: o comunismo vai fazer você compartilhar sua casa, sua cama; capitalismo em 2019: conheça o co-living, mania entre os jovens de hoje'", brinca Bianca Tavolari, pesquisadora do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap), professora do Insper e mestre em direito pela Universidade de São Paulo.

Embora a prática de ficar em quartos ou casas de família não fosse novidade no país caribenho -- algo que a própria empresa ressaltou quando lançou o serviço por ali --, a entrada da plataforma na ilha ou em qualquer outro dos 191 países em que ela atua hoje, bem como a expansão de serviços do tipo nessa década, têm provocado efeitos que vão além de preferências de hospedagem e concorrência com hotéis. Pesquisadores querem entender o quanto isso afeta também o mercado imobiliário, a ideia de turismo, as relações de vizinhança e até mesmo o planejamento urbano.

Se no início da última década falou-se muito de economia de compartilhamento, depois do boom a expressão "capitalismo de plataforma" passou a descrever melhor o cenário, abrindo espaço para questões que se tornaram mais visíveis com o uso intenso desses serviços.

"O Airbnb nasce por causa da crise. A ideia é pegar uma coisa subutilizada, um quarto do filho que saiu de casa, por exemplo, e tornar aquilo usável. Mas agora a gente vê que grande parte dos lucros são para unidades inteiras, que há usuários com 200 apartamentos e empresas que vêm fazer negócios no site. E existe uma discussão do quanto isso impacta nas cidades em que há uma questão de moradia evidente", explica Bianca Tavolari.

A pesquisadora estuda casos de locação temporária pelo Airbnb levados à Justiça, como brigas de condomínio. Ela ressalta algo que considera crucial para pensar a relação do fenômeno com a cidade. "Se antes havia uma ideia de que as novas economias iam eliminar o espaço -- você pode comprar de qualquer lugar, onde você estiver a internet vai suprimir o espaço e você vai fazer do jeito que quiser --, isso não ocorreu. Airbnb e Uber fazem uso intensivo da cidade. Eles não só não eliminaram o espaço, como o tornaram absolutamente relevante."

Onde você está importa, sim

Quando o Airbnb começou, em 2008, o debate público abordava o impacto da plataforma na rede hoteleira e até mesmo nos hostels. "Quando a gente fala em economia de compartilhamento, fala que tem uma indústria enraizada que funciona de certa maneira, e aí vem uma ideia que se vale de tecnologia para fazer uma conexão demanda-cliente mais eficiente e interessante do ponto de vista do usuário, e que de alguma maneira provoca uma disrupção", diz Bianca.

No entanto, a pesquisadora acredita ser importante ir além da contraposição. Ela traça um paralelo com o Uber e outros aplicativos de viagem de carro, ressaltando como eles não só influenciam a oferta de taxistas, mas o transporte público. "Eles não apenas 'roubam' alguém que usaria táxi. Pelo preço, às vezes é uma pessoa que deixa de usar ônibus ou metrô."

Carlos Miranda, síndico profissional de um condomínio em que o aluguel por aplicativo foi proibido (jan. 2019) - Rivaldo Gomes/Folhapress
Carlos Miranda, síndico profissional de um condomínio em que o aluguel por aplicativo foi proibido (jan. 2019)
Imagem: Rivaldo Gomes/Folhapress

Nas locações de viagem, a prática pode ter efeito no aluguel tradicional. Parece exagero? Um levantamento do jornal Folha de S. Paulo de maio de 2019 mostrou que, dos dez maiores anunciantes do Airbnb em São Paulo e Rio, ao menos oito são empresas que chegam a administrar, cada uma, até 157 imóveis. Anfitrião com mais listagens, "Daniel" responde por 244 anúncios. Já uma plataforma independente que coleta dados do site aponta que, no Rio, 71,4% das ofertas são para imóveis exclusivos.

"Quando eu alugo o apartamento inteiro nessas plataformas, deixo de alugar para alguém por trinta meses. Na medida em que estou tirando essa unidade do mercado, o morador tem de procurar outro lugar. E o turista paga mais caro do que o locatário comum", diz Bianca. O assunto ainda é pouco discutido por aqui, onde não há uma regulação específica (à exceção de Caldas Novas, em Goiás) embora na Europa e em Nova York tenha rendido reformulações na atuação da plataforma -- limitação de dias para locação e licenças de permissão são algumas medidas. "É um problema que não estoura rapidamente, precisa de um tempo para perceber os efeitos", crê a pesquisadora.

Em Barcelona, o assunto ganhou bastante evidência porque a prefeita foi eleita pela Plataforma de Atingidos pela Hipoteca (PAH), comprando uma briga por um turismo sustentável e habitação social contra a gentrificação. Um estudo do Instituto de Economia de Barcelona afirma que, entre 2012 e 2016, a plataforma elevou em 5% os preços de aluguéis na cidade. Nos últimos anos, tornaram-se frequentes atos de moradores criticando o turismo. Alguns têm sido criticados e acusados de radicalismo e turismofobia.

Bianca Tavolari vem analisando dezenas de casos em São Paulo desde 2017 de briga judicial envolvendo moradores e locação via Airbnb. Ela conta que os quadros são parecidos, com o condomínio alegando falta de segurança e a pessoa que aluga o apartamento dizendo ter direito de propriedade e nunca ter tido problemas.

Incorporadoras erguendo prédios dedicados à moradia temporária em São Paulo é um efeito que já pode ser sentido. Na Vila Mariana, um lançamento recente da incorporadora You tem 84 de suas 333 unidades voltadas para esse fim, com entrada separada. Ao TAB, Rafael Mentor, diretor comercial da empresa, diz que a modalidade é voltada para o investidor que pensa na locação de curto prazo e estava tendo problemas com condôminos.

Bianca aponta também o impacto no planejamento urbano, já que pensar um bairro para moradores fixos é diferente de pensá-lo para moradores ocasionais. Por isso, defende que os dados das plataformas, preservando identidades, têm de ser acessíveis ao poder público, reivindicação da prefeitura nova-iorquina em relação ao Airbnb, que a empresa enxergou como "extrapolação do governo" em processo. "O Uber aqui fornece os mapas de calor, onde os carros circulam mais. Para planejamento de transporte isso é fundamental", diz.

Diretor-geral da plataforma no Brasil, Leonardo Tristão afirma que "cada cidade tem um desafio diferente, muitos deles anteriores à existência do Airbnb". "Nossa postura é sempre dialogar com as cidades para entender qual a melhor abordagem", diz.

A turismóloga Rachel Branco vem pesquisando em seu mestrado na Universidade Federal Fluminense (UFF) a percepção dos turistas em relação aos discursos dessas plataformas. Para ela, "um aspecto relevante é que a malha de leitos dessas plataformas é infinita: diferente da rede hoteleira, ela pode se expandir ou se contrair com a sazonalidade. Então a gente precisa ter uma perspectiva regional, porque esse fenômeno repercute de maneira diferente, em proporções diferentes, em cada lugar".

"Acho que esse é um fenômeno essencialmente espacial, porque tudo se dá na cidade, nas ruas, em prédios e casas em que todo mundo está convivendo"

Rachel Branco, turismóloga

Entre o lar e o cenário

Abordar o fenômeno que coloca a cidade como centro de um debate sobre moradia e turismo envolve também comportamento. "Hoje é mais acessível viajar de maneira independente, e tem as questões morais: a característica pós-moderna de você ter uma identidade, querer construir seu caminho", diz Rachel.

Para a pesquisadora, os sites de compartilhamento de quartos e casas foram inteligentes para entender essas mudanças. O desafio é equilibrar esse comportamento com questões urgentes como a turistificação, o aumento dos aluguéis e a falta de moradia. "Não adianta proibir Airbnb, couchsurfing, mas conciliar os interesses dessa demanda com o morador e a gestão locais, para que não haja desvantagem em relação a impostos, taxações", opina.

Prova de que a mentalidade do "viaje como um local" é tendência é a simbiose que tem ocorrido entre a cadeia hoteleira e as plataformas. Um está cada vez mais parecido com o outro, e isso não é apenas impressão sua. No último ano, uma rede tradicional criou serviços de aluguel de casas, enquanto o Airbnb adquiriu edifícios e a plataforma HotelTonight.

Nesse fluxo, tanto a estética da hospedagem quanto o discurso do marketing viram novos padrões. Mas é possível ter uma experiência local passando três dias em uma cidade? Ou uma vivência comunitária em uma casa em que você não encontrou o dono nem para pegar a chave? O quanto a ideia do café da manhã com moradores se descola dessa realidade? E o quanto quem viaja quer, de fato, isso? São perguntas levantadas em estudos recentes.

O diretor-geral do Airbnb no Brasil diz que o perfil do usuário do site mudou ao longo de 11 anos de atuação. "No início, quem mais buscava a plataforma eram mesmo os mais jovens, que muitas vezes viajavam sozinhos e procuravam um lugar em uma casa para se hospedar de forma barata. Mas a procura se espalhou por toda a pirâmide demográfica. Aqueles jovens agora têm família, filhos, animais de estimação, e procuram mais espaço", conta Leonardo Tristão.

Apesar do novo comportamento, as pesquisadoras afirmam que a maioria dos estudos que mapeiam objetivos de quem aluga por plataformas como o Airbnb -- maior do ramo, avaliada em US$ 38 bi -- indicam que o fator determinante ainda é o preço. "A ideia de viver uma coisa diferente vai ser a escolha de quem pode pagar um hotel. Ficar no bairro mais legal, onde vou poder fazer um café. Essa pessoa com grana para o hotel é quem verdadeiramente tem a escolha", acredita Bianca Tavolari.

Por mais que haja a intenção de descentralização do turismo, a oferta não se desgruda sozinha da lógica de mercado, pensa Rachel. "Todo mundo quer estar perto de pontos famosos, do transporte. Então, ao invés de despressurizar essas áreas, quando não devidamente regulamentados ou inseridos de maneira sustentável na realidade do local, esses meios acabam pressurizando ainda mais os centros."

"Escolha do bairro, da decoração, e muitas vezes esses apartamentos não são tão baratos. Eu sinto que aí é muito mais uma coisa de vivência do lugar: ficar naquela casa, ter aquela sensibilidade. Quando se aluga a unidade inteira não é porque você quer conversar com alguém local no café da manhã"

Bianca Tavolari

Para as pesquisadoras, não dá para abordar o fenômeno sem envolver a gestão pública. O turista, que "tomou culpa", não é precursor do turismo, crê Rachel Branco. "O espaço do turismo abrange também o morador ligado a um serviço, o atrativo", diz ela.

"Dá para discutir isso sem ser Fla-Flu", acredita a professora Bianca Tavolari. Ela aponta duas medidas que, na sua visão, seriam benéficas: o barateamento de hotéis, "uma coisa positiva no Airbnb é que você está deixando a experiência de viajar mais palpável para quem não podia", e o estímulo das plataformas a quem aluga com o propósito original da hospedagem pessoa para pessoa: oferecer um quarto vazio de casa.

A turismóloga Rachel pensa parecido. "A partir do momento em que há descaracterização da oferta, a iniciativa privada está indo de encontro ao próprio discurso. E o morador sempre fica em uma posição mais vulnerável, porque é o agente social menos vislumbrado do turismo."

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