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Professora é prostituta? Dicionaristas dizem que o problema é de quem fala

Dicionários brasileiros - Greg Salibian/Folhapress
Dicionários brasileiros Imagem: Greg Salibian/Folhapress

Letícia Naísa

Do TAB, em São Paulo

30/11/2019 04h01

Assim como Eva veio da costela de Adão, as palavras femininas surgem a partir das masculinas. Para se obter o feminino, é preciso flexionar o masculino. O mesmo não acontece, no entanto, quando se trata do significado dos termos no dicionário. A descrição das palavras femininas no dicionário nem sempre bate com a das palavras masculinas.

Um exemplo recente, bombado nas redes, é o da palavra "professora". Quando o significado do termo era buscado no Google, uma das definições que aparecia era a de "prostituta". Em nota, o Google informou que não produz o conteúdo dos significados das palavras. Um sistema da plataforma reproduz o que aparece nos Dicionários da Oxford University Press. O sentido pejorativo do termo "professora" estava indicado como um "brasileirismo".

Após críticas nas redes sociais, o parceiro do Google retirou a definição do ar. O termo professora, no entanto, não é o único a ser associado à definição de prostituição enquanto seus pares no masculino não têm função ligada à profissão do sexo. Cadela, vaca e vadia, ao contrário da palavra flexionada no masculino, são alguns exemplos. Em suas definições nos grandes dicionários, há adendos sobre o sentido pejorativo das palavras femininas.

"O dicionário é um registro sociocultural", explica Carlos Alberto Faraco, professor da Faculdade de Letras da UFPR (Universidade Federal do Paraná). "Se o machismo atravessa a cultura, ele vai ter esse registro", diz. Apesar de a tecnologia ter avançado e criado novos termos para os dicionários nos últimos anos, a forma de se fazer os livros continua a mesma, dizem os lexicógrafos (pessoas que produzem dicionários), e sua função também.

"O dicionário registra os usos que as palavras têm na comunidade linguística", diz Mariângela de Araújo, professora do departamento de Letras Clássicas e Vernáculas da USP. "Se existe um uso corrente, então o dicionarista vai registrar aquele uso, independentemente do juízo de valor. É como se fosse uma descrição da língua, como se faz em qualquer ciência", explica.

Mariângela de Araújo explica que os termos femininos não trazem a definição padrão por um costume. "A gente já tem uma tradição lexicográfica de 'lematizar' palavras. Como nossa tradição vem de obras que eram publicadas em papel, não era possível que se registrassem todas as flexões de uma palavra. Os verbos vão aparecer no infinitivo, por exemplo. Você não o encontra flexionado. Para substantivos, você vai encontrar a definição clássica dessas palavras no masculino singular, não no plural e não no feminino. As palavras que aparecerem no feminino ou no plural são as que, de alguma maneira, têm um uso específico quando flexionadas."

Significado de professora no Google traz uma gíria que alude à prostituição - Reprodução
Significado de professora no Google traz uma gíria que alude à prostituição
Imagem: Reprodução

Há, assim como em outras ciências, atualizações dos termos quando eles ganham novos significados. "A partir do momento em que a comunidade linguística começa a fazer outros usos da língua, isso se reflete nos dicionários", diz Araújo.

Mas, assim como um biólogo descreve a existência de bactérias e outros seres que podem causar estragos à vida humana, um lexicógrafo registra usos pejorativos da língua porque pode render ganhos para a ciência. "A gente não pode olhar para um fenômeno, achar que não é bom e não descrevê-lo", afirma a professora.

Para os especialistas, termos femininos com significados pejorativos e associados à prostituição não fazem da língua portuguesa uma língua machista ou opressora contra as mulheres. "Não existe língua machista, existem falantes machistas", diz Faraco.

Araújo concorda. "A língua simplesmente expressa uma visão de mundo. Se isso é assim, é porque a comunidade falante é assim. A língua em si não faz isso, ela é capaz de expressar um mundo em que essas opressões não existam."

Para a professora, existe ainda um tabu imenso em torno do termo prostituta que dificulta ainda mais a conversa sobre sua definição. "Existe certa circularidade. A palavra prostituta faz referência a meretriz, que o dicionário também não define. Você procura e não consegue achar definição do que seria a palavra", diz Araújo. "Isso demonstra a dificuldade em falar do assunto", reflete.

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