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Homens e mulheres escrevem muito diferente. E as empresas lucram com isso

  - Jonathan Kitchen/Getty Images
Imagem: Jonathan Kitchen/Getty Images

Julia Moióli

Colaboração para o TAB

05/12/2019 04h00

Sabe aquele papo clichê de que homens e mulheres são de planetas diferentes? Que se diferenciam em tudo, especialmente na comunicação? O assunto chegou à academia — na verdade, vem se tornando popular desde a década de 1990, não por acaso época do lançamento de "Homens são de Marte, Mulheres são de Vênus", livro de John Gray sobre a diferença entre os sexos — e tem dado mais pano para manga agora, graças às redes sociais e ao maior acesso a bancos de dados digitais.

Análise de sentimentos é ponto nevrálgico nas pesquisas recentes. A partir de bancos de dados de palavras associadas a emoções fundamentais, como alegria, tristeza, raiva e medo, é possível obter informações subjetivas sobre um determinado texto.

Em 2013, por exemplo, o pesquisador Saif Mohammad, do Institute for Information Technology, no Canadá, teve acesso a 200 mil e-mails escritos por homens e mulheres, a partir de um banco de dados da Enron Corporation, tornado público pelo governo norte-americano depois da falência da companhia, em 2001. "Não podemos generalizar e dizer que os resultados traduzem como homens e mulheres falam em outras situações, mas observamos diferenças em como homens e mulheres falam, em como homens conversam com mulheres e como conversam com outros homens e em como mulheres conversam com homens e com outras mulheres", diz ele ao TAB.

Mulheres fazem mais uso de palavras alegres. Também compartilham mais suas preocupações com colegas do mesmo sexo que os homens. "Quando mulheres conversam com outras mulheres, observamos mais palavras de alegria e de tristeza", afirma Mohammad. "Mas quando mulheres falam com homens, há mais palavras de confiança e antecipação." Já eles preferem palavras relacionadas a medo, especialmente em correspondências com outros homens.

Nos e-mails enviados a mulheres, ambos usam palavras alegres, emoticons, ênfases, enquanto em mensagens a homens, ambos os sexos lançam mão de vocábulos que expressam confiança. A publicidade abusa dos clichês de gênero, mas ela funciona também como uma máquina de eco: amplifica demais conceitos que, na vida real, podem não ser tão verdade assim. Mas, enquanto derem certo e venderem, a "indústria da diferença" segue firme.

Para a professora de linguagem e comunicação Deborah Cameron, da Universidade de Oxford, na Inglaterra, não há evidências concretas de que homens e mulheres se comunicam de maneira tão diferente assim. Em um artigo escrito em 2007 para o jornal The Guardian, ela, inclusive, cita que o maior mito nesse sentido, o de que as mulheres falam mais que os homens, não se confirma em pesquisas científicas.

Danilo Verpa/Folhapress
Imagem: Danilo Verpa/Folhapress

"A ideia de que homens e mulheres diferem fundamentalmente na forma com que usam a linguagem para se comunicar é um mito no sentido usual: uma crença generalizada, mas falsa. Mas também é um mito no sentido de ser uma história que as pessoas contam para explicar quem elas são, de onde elas vêm e por que elas vivem como vivem. Se são ou não 'verdade', em algum sentido histórico e científico, essas histórias têm consequências no mundo real. Elas moldam nossas crenças e, assim, influenciam nossas ações", escreve ela, lembrando que o relacionamento entre os sexos tem a ver não apenas com diferenças, mas com poder.

Tudo é uma questão de poder

É nesse ponto que as pesquisas tocam, identificando questões mais relevantes em vez de simplesmente apontar diferenças. Em outro estudo, de 2018, Saif Mohammad e seus colegas partiram do princípio de que a maneira com que homens e mulheres são mencionados em textos, livros e tuítes era diferente e, como consequência, isso "era ensinado" a algoritmos e sistemas de inteligência artificial. "Então nossa pergunta foi: será que eles também estão aprendendo preconceitos sistemáticos, levando a resultados inapropriados? A resposta, infelizmente, é sim. A maioria desses sistemas é preconceituosa."

Um exemplo claro do que Mohammad está falando aconteceu com a gigante de e-commerce Amazon. Seu sistema automático de análise de currículos, considerado o supra-sumo dos recursos humanos, acabou se mostrando ineficaz na tarefa de selecionar candidatos de maneira neutra, pois penalizava candidatas mulheres ao "aprender" com dados históricos preconceituosos. A palavra "mulher" em um currículo por si só já diminuía as chances de uma candidata.

Danilo Verpa/Folhapress
Imagem: Danilo Verpa/Folhapress

Conhecida pela quantidade de dinheiro que investe no financiamento em pesquisas científicas e intervenções que têm como objetivo melhorar a qualidade de vida, a Bill & Melinda Gates Foundation caiu na mesma cilada. Julian Kolev, professor assistente de estratégia e empreendedorismo na Southern Methodist University's Cox School of Business in Dallas, nos Estados Unidos, teve a oportunidade de observar informações relacionadas a um processo de avaliação de projetos em busca de financiamento. "E, mesmo sendo completamente anônimo, rapidamente notamos que havia um grande hiato nos resultados obtidos por homens e mulheres."

Buscando razões para isso, os pesquisadores passaram a investigar fatores como experiência prévia dos candidatos e resultados anteriores em processos de obtenção de financiamento. A resposta estava nos textos das propostas, mais especificamente em certas palavras. "Descobrimos que homens usam com mais frequência palavras amplas, que estão presentes em múltiplas áreas e temas, como por exemplo, 'baixo custo'', explica Kolev. "Já as mulheres preferem palavras mais específicas e técnicas, como 'inibidores', 'transmissão', 'proteínas', presentes em apenas uma ou duas áreas cobertas pelo processo da fundação."

Parece irrelevante? Só parece. Os avaliadores das propostas prestaram atenção nessas palavrinhas e deram preferência às mais amplas. Só que essa linguagem que parecia mais confiante e que garantiu o dinheiro, na prática, não significava grande coisa. De novo, talvez esses resultados não possam ser generalizados para outras situações. Mas isso tudo faz lembrar outro clichê: "onde há fumaça..."

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