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'Pirralha', Greta ensina a viajar sem poluir e promove turismo antiaéreo

Greta Thunberg durante a COP25, em Madri - CRISTINA QUICLER / AFP
Greta Thunberg durante a COP25, em Madri Imagem: CRISTINA QUICLER / AFP

Marília Marasciulo

Da agência Eder Content, colaboração para o TAB

11/12/2019 04h00

A ativista sueca Greta Thunberg levou 21 dias para cruzar o oceano Atlântico de barco a vela. Ela partiu da Virgínia, nos Estados Unidos, rumo à Europa, e chegou ao continente europeu ligeiramente atrasada para a abertura da COP 25, a Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas, que vai até sexta-feira (13).

Não, você não leu errado. A "pirralha" — nas palavras do presidente brasileiro Jair Bolsonaro — , eleita personalidade do ano pela revista Time, que enfrentou autoridades do mundo inteiro no Encontro de Cúpula sobre Ação Climática das Nações Unidas, realizada em setembro, em Nova York, desembarcou em Lisboa após uma longa travessia de barco, que contava só com a propulsão de ventos e marés. Quando desembarcou do veleiro La Vagabonde na capital portuguesa, a ativista era aguardada pela imprensa do mundo inteiro.

Lisbon!!

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Ao trocar um voo com menos de oito horas de duração por navegar ao longo de três semanas, Greta chamou mais atenção para o impacto ambiental das viagens aéreas do que qualquer alerta científico, estudo acadêmico ou discurso que possa ser feito na COP25.

Muito antes disso, o movimento já despontava na terra natal de Greta. Há até um termo sueco para isso: "Flygskam", que significa algo como "vergonha por voar". Um dos pioneiros foi o cantor Staffan Lindberg, que anunciou em 2017 sua decisão de parar de voar. O atleta Björn Ferry, medalhista olímpico, também parou de voar para as competições. Ele compara o esforço de adotar o estilo de vida sustentável ao de treinar para a Olimpíada: "Se eu tenho um objetivo? Quero achar um estilo de vida sustentável, quero ser livre de derivados de petróleo até 2025. Então tenho que tentar", disse, em entrevista à agência de notícias alemã DW.

"Você tem que pagar o preço de ter um objetivo, é o mesmo de quando eu tinha o sonho de me tornar um campeão olímpico. Não é suficiente só treinar duas vezes por semana, você tem que treinar todos os dias, por dez anos. É o mesmo com isso. Se significa ter que passar uns dias no trem, é isso que faço."

Zero deslocamento

O movimento tem ganhado força também fora da Suécia. Campanhas como a Flight Free 2020, por exemplo, propõem o comprometimento coletivo de ficar no chão: se mais 100 mil pessoas assinarem o compromisso, todos param de voar. Países como Dinamarca, Bélgica, Noruega e Reino Unido estão participando. Há também grupos de acadêmicos que substituem as conferências presenciais por virtuais para evitar o deslocamento.

Segundo uma pesquisa publicada em junho pela Swedish Railways, companhia de trens da Suécia, pode ser que as campanhas já tenham surtido efeito local: as viagens de trem dentro do país aumentaram 8%. Outro número, esse da Swedavia, que opera os dez aeroportos mais movimentados da Suécia, reforça o primeiro: o número de passageiros em voos domésticos entre janeiro e abril deste ano caiu 8%. De acordo com o WWF, 23% dos suecos reduziram as viagens aéreas em 2018 por causa do impacto no clima.

"Não voar não significa não viajar, existem muitos lugares onde podemos chegar com outros meios de transporte", disse a coordenadora da campanha Flight Free 2020 no Reino Unido, Anna Hughes, à BBC. "Quanto mais você entende sobre o impacto climático de voar, mais você se sente culpado ao entrar em um avião."

A preocupação não é infundada. Diversas projeções mostram que, até 2050, os aviões serão responsáveis por 25% das emissões de carbono no mundo. Hoje, esse percentual fica em torno de 2,4%, e não é pouco: se o setor de aviação fosse um país, seria o sexto maior emissor de CO2, à frente inclusive da Alemanha. Há simuladores que mostram que, para eliminar a pegada de carbono por um voo de São Paulo a Londres, seria necessário parar de comer carne vermelha por quatro anos.

Nem a realeza britânica ou astros de Hollywood envolvidos em causas ambientalistas escapam de críticas. Em agosto de 2019, o príncipe Harry foi chamado de hipócrita por usar um jatinho privado para ir a uma conferência sobre mudanças climáticas no Google Camp na Sicília, Itália. Dias depois, novamente usou um jatinho para ir até Nice, no sul da França, passar férias com a família.

O mesmo aconteceu com o ator Leonardo DiCaprio, famoso por seu ativismo ambiental, que viajou de jatinho para discursar contra a falta de ação para frear as mudanças climáticas no festival Global Citizen, em Nova York, no fim de setembro. Na mídia e nas redes sociais, Harry e Di Caprio sentiram o peso das críticas.

Contra a hipocrisia

A catarinense Mariana Martins Almeida aderiu, em agosto de 2019, ao movimento que rejeita o deslocamento aéreo para minimizar o impacto ambiental. Ao velejar da Holanda até a Polônia no barco Rainbow Warrior, da ONG Greenpeace, ela embarcou numa mudança na forma como se relaciona com o ato de viajar. "Há quem diga que mais do que falar em mudanças climáticas, precisamos falar sobre uma mudança no nosso sistema, que é todo baseado em recursos finitos", explicou Mariana ao TAB.

Mariana mudou-se para a Holanda em 2017 para cursar um ano do mestrado em Relações Internacionais. No início de 2019, retornou para trabalhar no Greenpeace, onde atua na logística dos barcos da organização. No primeiro ano morando na Europa, ela conta que foi uma das milhares de pessoas seduzidas pelas viagens de avião com as famosas low costs - companhias que oferecem voos dentro da Europa por preços baixíssimos. Em uma busca rápida, é possível encontrar passagens de ida e volta entre Amsterdam e Londres por R$ 240.

Mariana Almeida e o namorado sueco, Marcus Lomax, em viagem de trem - Mariana Almeida/Arquivo Pessoal
Mariana Almeida e o namorado sueco, Marcus Lomax, em viagem de trem
Imagem: Mariana Almeida/Arquivo Pessoal

"Fiquei abismada com a quantidade de vezes que as pessoas andam de avião na Europa, elas têm um estilo de vida e padrão de entretenimento muito elevado, e mesmo com as distâncias tão pequenas, muitas vezes preferem pegar avião", diz a catarinense de 28 anos. O que para nós seria uma viagem anual, para eles é algo mensal? Mas o questionamento não demorou a surgir: "Se existe um voo de Amsterdã para Bruxelas, mesmo que essa seja uma viagem que leva 3 horas de carro, é porque há demanda", completa.

O movimento de mudança veio aos poucos, e ainda não terminou. Começou cortando a carne vermelha, embora não tenha eliminado por completo o consumo de produtos de origem animal. "Ninguém precisa parar completamente de fazer alguma coisa, a não ser que a motivação seja pela ética animal, acho que o importante é praticar o consumo consciente de tudo, se perguntar se aquilo vale o impacto", defende. "Na minha visão, dez pessoas que reduzam o consumo de carne é melhor do que uma que seja vegana."

O segundo passo foi avaliar outros hábitos do cotidiano: transporte, gestão de resíduos, relação com a moda. Até chegar à aviação. Esse foi um ponto crucial para engajar também o namorado, o sueco Marcus Lomax, de 27 anos. "Para ele, foi devastador ver a própria pegada de carbono, porque ele era habituado a viajar de avião desde pequeno, muitas vezes por ano", conta.

A catarinense Mariana Almeida, a bordo do veleiro Rainbow Warrior, do Greenpeace  - Mariana Almeida/Arquivo Pessoal
A catarinense Mariana Almeida, a bordo do veleiro Rainbow Warrior, do Greenpeace
Imagem: Mariana Almeida/Arquivo Pessoal

Devastador ou não, a gente te ajuda a calcular quanto vai custar ao planeta aquela viagem aérea para passar o Ano Novo, seja na Times Square em Nova York ou numa praia do nordeste. Faz a conta aqui: a calculadora é grátis, mas o custo ambiental não sai barato. Mariana conta que, desde que adotaram o estilo de viajantes "verdes", já influenciaram pessoas à sua volta, como um grupo de amigos que se inspirou no casal para ir da Holanda até Berlim, na Alemanha, de ônibus.

São mudanças simples de serem implementadas: trocam os voos por viagens noturnas de ônibus ou de trem, acrescentam paradas, exploram lugares próximos. "Fico chocada quando conheço holandeses que já visitaram diversos países europeus mas que nunca viajaram dentro da própria Holanda, sendo que há muito o que ver por aqui e o sistema de trem cobre boa parte do país", conta. Na viagem mais recente, foram até Barcelona em média seis horas de ônibus noturno até Paris e outras sete horas de trem de Paris até Barcelona por 50 euros. Ou seja, cai por terra a justificativa do preço baixo das aéreas low cost, que nem sempre se aplica. "É só se planejar com antecedência", ensina Mariana.

Até mesmo o número de horas no deslocamento, que para algumas pessoas pode parecer um empecilho, para o casal vira uma oportunidade de acrescentar paradas em cidades pequenas e desconhecidas, matar o tempo com piqueniques no trem (em vez de sofrer apertado em uma poltrona de avião) e economizar em acomodação — afinal, uma das noites de hotel é substituída pela viagem.

Dependendo da distância, o tempo gasto com deslocamento para chegar ou partir e inclusive dentro dos aeroportos acaba sendo tão grande quanto o de uma viagem de trem ou de carro. Um exemplo é o trajeto de Amsterdã a Bruxelas, diz a ativista.

Mais do que radicalizar e deixar de viajar por completo, a palavra de ordem é conscientização. É trocar a "escapadinha de fim de semana" por experiências que realmente tenham algum significado, e não só rendam alguns cliques ou likes. "É tudo uma questão de compensação. Se todo mundo for mais consciente, ninguém precisa se privar", explica Mariana.

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